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Antigo 24-08-2009, 15:02
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Padrão Festival Fora do Tempo por Julia Castro

Após inúmeras aventuras por longínquas terras maranhenses e quase 2 infinitos dias de viagem desde São Luis, que incluíram 3 ônibus diferentes, pedidos de carona suplicantes a caminhoneiros na beira da estrada, 8h longas horas de espera na rodoviária de onde Judas perdeu as botas, as meias e a paciência - enfim, chegamos em Carolina!



A "humilde" rodoviária da cidade não nos surpreendeu após tudo que já havíamos vivenciado no Maranhão, cujo sistema de transporte foi adjetivado por nós como sendo "simplesmente vergonhoso". Pegamos um super-táxi cujo carro devia ter provavelmente a idade dos meus pais e o taxista, um senhor simpático e sorridente com o dobro da idade do carro, nos levou até o centro da cidade por módicos 10 reais. Já era possível notar a presença do festival na pacata Carolina. Os tímidos carolinenses disputavam as paisagens com os freaks e hippies que costumam frequentar os festivais alternativos brasileiros. Faltavam 2 dias para o evento começar, mas conseguimos um transporte até a margem do Rio Tocantins, em frente à ilha dos Botes, onde o festival iria acontecer. A pobre kombi fazia um grande esforço para transitar lotada de loucos como nós, pelas estreitas estradinhas de terra, deixando um rastro de poeira a se perder de vista.

Já na margem do rio, fizemos um trajeto de 10 minutos em um barco tão "rústico" que deixou os marinheiros de primeira viagem um tanto quanto assustados. Como estávamos adiantados, boa parte do festival ainda não havia sido montada, incluindo a portaria. Após tantas horas de viagem, a sensação de alívio foi quase orgásmica ao ver a barraca montada. Aproveitamos para sentir pela primeira vez as deliciosas águas do velho Tocantins. O banho estava sendo renovador, quando nos demos conta do laranja-cor-de-fogo que coloria o céu sobre nossas cabeças. Ficamos extasiados e o silêncio predominou naquele minuto de admiração coletiva.



O dia clareou e aos poucos as pessoas foram uma a uma sendo cuspidas de suas barracas. Podíamos sentir a ilha ganhando pouco a pouco aquele ar de festival. Os barcos que faziam o transporte das pessoas estavam a todo vapor e indivíduos carregados de mochilas e sacolas brotavam de todos os lados à procura de um bom local para montar o acampamento que seria sua moradia pelos próximos 5 ou 6 dias.No dia seguinte após o café-da-manhã, fomos refrescar nossos já então suados corpos e aguardar ansiosamente o ritual de abertura do Chill out.

Quando a tenda de folhas de palmeira, que lembrava uma oca indígena, começou a receber aglomerações de pessoas fugindo daquele sol senegalês, o ritual começou a ser preparado. Uma linda menina distribuía estrelinhas de carambola enquanto um homem em trajes ritualísticos acendia as velas e incensos que cercavam um pequeno altar com pequenos cristais e enfeites. Durante todo o ritual foi passada a mensagem de que precisávamos unir nossas energias para que o festival transcorresse em meio a muito amor e paz. Com direito a muito canto, instrumentos e expressões ativas de alegria, o ritual foi finalizado com um enorme abraço coletivo. Estava iniciado o Festival Fora do Tempo 2009!



No dia seguinte ao meio-dia, todos se concentraram na bela pista principal, decorada com bambús, lycras brancas e muito sisal. A pista foi iniciada com um som meditativo e vendas pretas foram distribuídas a alguns dos presentes que rapidamente começaram a ganhar energia. As pessoas, vendadas ou não, começaram a se exaltar, correndo e pulando em meio a gritos e sons selvagens. Nem a areia incandescente atrapalhou aquela real experiência de transe psicodélico. Quem entrou pra valer na proposta, pôde experimentar um quase-ritual de libertação da alma, se livrando da timidez e de outras amarras que freiam nossas pernas na pista de dança. Quem preferiu ficar de observador, disputou as poucas sombras que haviam disponíveis e ficou admirando o ritual, talvez julgando se deveria participar também.



O festival transcorreu na maior tranquilidade. O trance progressivo predominou na pista principal durante o dia, com apresentações sensacionais como os lives ProAgressivo, Analog Drink e o carismático CBR Live Performance, com vários instrumentos de percussão. Já as noites eram preenchidas com muito dark-psy e o tão esperado prog-dark, que foi muito bem representado pelo Fabio Leal seguido da sequência de lives Onion Brain, Disfunction e Minimal Criminal. Sem dúvida nenhuma o auge da psicodelia foi atingido no último dia, que teve início com o DJ Sandrixx quase transportando das areias de Pratigí até a Ilha dos Botes a pista Goa do Universo Paralello. Outras apresentações marcantes desse dia foram o set da linda Sheetarah e o CH5.

Já o Chill out decepcionou àqueles que pretendiam lá dormir, com um som extremamente variado e dançante. Pôde-se ouvir músicas em homenagem ao recém-falecido Michael Jackson, que surpreenderam a todos, mas não deixaram ninguém parado! Pedra Branca, como sempre, lotou a tenda com novos curiosos e antigos admiradores de seu som étnico-orgânico-cultural. Já o projeto mineiro 7 Estrelo fez um live digno de 7 estrelas, criando uma atmosfera teatral e utilizando instrumentos leves como a flauta. Porém, o live que mais energizou o Chill out foi sem dúvida o Shanghai Project, cujo artista, mesmo tendo perdido quase totalmente a visão, deu um show de talento, percepção e habilidade para fazer brotar de seu teclado eletrônico os sons mais melódicos do festival! A energia foi crescendo em frente ao palco onde ele tocou por mais de 2h e meia e toda vez que ele ameaçava parar, era convencido a continuar pelas pessoas repletas de empolgação. Ao final da apresentação, foi emocionante observar a expressão de felicidade e agradecimento das pessoas, que não se contiveram e envolveram todos ao mesmo tempo o artista, em uma união de braços e sorrisos sem começo, meio nem fim.



A tenda cultural teve uma programação variada, desde rituais e palestras sobre o calendário maia, até oficinas de capoeira-angola e dread-locks. A falta de um horário mais certo para a programação atrapalhou um pouco aqueles que queriam se programar pra não perder nenhuma atração do festival.

Os famintos de plantão podiam se saciar na pequena, porém satisfatória praça de alimentação que vendia comida à quilo, tapiocas, comida vegetariana e outros quitutes. Já a feira-mix tinha à venda roupas e acessórios alternativos, camisetas do festival e sabonetinhos biodegradáveis. O stand Quero Verde Novo vendia ainda camisetas feitas de PET e chinelos feitos de pneu, além de bolsas sensacionais feitas de pôsteres de filmes.

O bar do festival era diferente do usual. Por conta da dificuldade de transporte até a ilha, o bar tinha inúmeras geladeiras ao invés de tinas com gelo. Houveram algumas reclamações sobre servirem cerveja quente em alguns momentos, mas nada que tirasse o brilho do festival.



Na virada do dia 24 para 25 de julho, aconteceu o ritual de virada do dia Fora do Tempo do calendário Maia. Foi passado um curto porém emocionante documentário no telão da pista principal, contando sobre a atual situação do rio Tocantins e das comunidades ribeirinhas que estão sofrendo com a construção da usina hidrelétrica e o iminente alagamento da região onde o festival aconteceu nos últimos 3 anos. Muitos se emocionaram e deram as mãos em uma demonstração de união. Em seguida se iniciou o live carioca Reality Scientist AV Show ao mesmo tempo que uma linda apresentação teatral do grupo Mirabolantes. Foi uma espécie de encenação de uma luta entre a natureza (representada por uma mulher fantasiada de pássaro) e o homem, com muitas acrobacias na cama elástica, finalizando com a união dos 2 símbolos, natureza e homem, ou pelo menos essa foi a minha interpretação. Após a encenação, houve uma apresentação de malabares de fogo lindamente coreografada que energizou todos na pista para continuarem dançando noite adentro!



Foi um alívio ir para casa depois de uma viagem cansativa, mas deixamos a ilha dos Botes com um peso no coração, sabendo que aquele lugar não mais existirá depois do alagamento. Ainda ao observar um bocado de lixo flutuando nas águas do belo Tocantins, paramos para pensar no nosso verdadeiro papel dentro dos festivais. Não somos apenas frequentadores de eventos de música eletrônica. Somos verdadeiramente a ferramenta de transformação da nova era. Somente com a multiplicação da informação, consciência e união podemos realmente pensar em querer um mundo melhor para se viver. A mudança que nós queremos ver no mundo deve começar em nós mesmos. E portanto, levamos para casa o pensamento de que todos nós somos responsáveis tanto pela atual situação degradante que o mundo vem passando, assim como pelo futuro dele. E o futuro, somos nós que escolhemos!



Até mais!

Texto por Julia Castro



Confira as fotos do Festival Fora do Tempo 2009 em nosso álbum
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Antigo 06-09-2009, 00:47
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Padrão Re: Festival Fora do Tempo por Julia Castro

A-NI-MAL! *-*

belo review, de um festival mais belo ainda!

e sim, concordo plenamente contigo...é como naquela velha frase conhecida: "...seja a diferença que você quer ver no mundo!"

quer um mundo melhor? então mude, aja!
FAÇA um mundo melhor! \º/

nós somos sim a ferramenta de transformação exata e concreta dessa era!

thaaaaanks!

belas fotos também!
__________________
Você não é separado da natureza...preserve a si mesmo!

P.eace L.ove U.nion R.espect




Última edição por roczasi; 06-09-2009 às 13:34.
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castro , festival , fora , julia , por , tempo


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