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Textos e Poesias Lugar pra tudo o que a sua Intuição e Sensibilidade ache interessante compartilhar!

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Antigo 04-07-2006, 10:27
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Padrão Chuteira Preta Neles

A chuteira preta não melhora o esquema tático de time algum. Feia e fora de moda, sozinha ela não sabe o caminho das redes nem o da sexta estrela no céu dos comerciais. Mas faltou ela, digna e cheia de lama, amaciada com jornal de ontem, para contar aos jogadores do Parreira as lições de história e civismo dos que vieram antes e colocaram essa pátria mixuruca literalmente em pé nos estádios de todo o mundo. Daria moral.
A chuteira preta, se é que eu me faço claro na vontade de entender a escuridão futebolística em que nos metemos, não ficaria ajeitando as meias na entrada da área enquanto o francês enfia para dentro das nossas redes. Ela vai na bola de qualquer jeito, não está preocupada em mandar mensagens ao pessoal do marketing da Nike. A chuteira preta, coisa de museu do Maracanã, é prima pobre da chuteira amarela — mas tem vergonha na cara. Não compactuaria com os comerciais da Skol, em que os brasileiros ganham dos argentinos porque a trave se mexe a nosso favor. A chuteira preta é senhora obsoleta na terra dos bandidos espertos. Ela devia ter feito pelo menos uma preleção aos jogadores-modelos do Armani e acertado, se não o passo, o caráter dessa gente antes bronzeada e agora só patrocinada. Ela estava nos pés do Barbosa contra o Uruguai, no do Toninho Cerezo no Sarriá. Ela sabe tudo dos grandes heróis nacionais que perderam com a cabeça erguida, e ao mesmo tempo calçava também Romário para ele dar o biquinho genial contra Camarões em 94. Viu de tudo e sabe. Faltou tesão. Para falar a língua que os novos jogadores entendem, faltou patrocínio do Viagra na chuteira dourada desses chupadores de sorvete verde da Kibon.

Está visto pelos que sofreram com o Brasil e França de anteontem, está definitivamente confirmado pela nossa mais profunda decepção com a apatia brocha desses patetas, que só os tolos acham o futebol um jogo a ser resolvido na bola. Faltou o humildificador-macho da chuteira preta com a inscrição de todas aquelas partidas i nesquecíveis que tiraram o Brasil do canil dos vira latas e reinventaram, para proveito de todo mundo, o brinquedo do futebol. Ela não arredondaria o quarteto mágico, não tiraria cinco anos do Cafu, 20 quilos do Ronaldo. Não é disso que se está sofrendo. A chuteira preta é uma postura de vida. Não canta de galo, não afronta, pois aprendeu ouvindo Noel que o revólver entrou em cena para acabar com a valentia. Sabe, de tanto ver futebol na televisão, que todos os times do mundo jogam a mesma bolinha — e a diferença está no talento e na dedicação ao jogo. O talento brasileiro, viu-se por todo o mês de junho, é exclusivo do Gatorade e da Brahma.

A dedicação vai junto no pacote — só serve às bandeiras dos novos donos. Na simplicidade cromática que a chuteira preta carregava não vinha escrito "Nascido para jogar futebol", como na camiseta Nike-Seleção. Vinham inscritos o vigor do Dunga e a folha-seca do Didi, todos do meio do campo, todos começados por D, todos certos de que para cada tempo se vai na bola de um jeito — mas sempre com Dignidade. Vontade, hombridade, seriedade, essas caretices que não avançam um passo no que interessa ao jogo de hoje. Comer todas as louras, encher todas as burras de euro e ganhar a bola de ouro daquela revista francesa. A chuteira preta está por fora e isto aqui é só um necrológio a essa dama linda que já se foi faz tempo. Ela não imprime bem no vídeo de plasma, fica chapada no gramado verde, não salta aos olhos a marca do patrocinador — mas quanta sabedoria moral ela carrega em cada trava, quanta lição de postura viril em cada costura de seus cadarços. A chuteira dourada, o laço de fita nos cabelos, os relógios-apartamentos no pulso do Roberto Carlos. Esse foi o Brasil na Copa. Acreditamos, Parreira dizia toda noite, que com a Golden Cross ao nosso lado ficaria mais fácil. Tudo mentira. Se Ronaldinho fosse na bola com a fúria que ele passou esses meses todos correndo atrás do desodorante Rexona roubado no vestiário, estaríamos na semi-final contra os portugueses. Faltou chuteira preta, séria, cívica, nos pés e no lombo deles também. Esse passadismo, só superado pela geladeira branca, está impregnado de Gerson, Brito e Tostão suficientes para ser calçado nos pés das focas do Santander e dar força brasileira, injetar uma overdose de Almir Pernambucano nos artelhos dos falsos tomadores de Guaraná Antártica. Calçaria os brios dos mercenários. Daria vergonha na cara dos apátridas.

Faria como nos velhos tempos, antes do futebol virar um show de rock globalizado, quando os filhos teus não fugiam à luta nem ficavam olhando como o telão no alto do estádio está divulgando sua imagem para os futuros patrocinadores. Foi uma tragédia. Trocou-se o quadrado mágico pelo Juninho Pernambucano, o Cafu pelo Cicinho. Não eram esses, vê-se agora, os problemas. Robinho é da Vivo, Ronaldinho da Oi. Evidentemente não se telefonavam para organizar o movimento, orientar o carnaval e inaugurar um novo monumento em honra ao futebol no planalto central do país. Nada deu certo. A chuteira preta da humildade, com suas mil e uma utilidades, teria colocado a bola no chão, a cabeça no foco e o coração em jogo. O Ronaldo toma Brahma e a propaganda mostra. Não dá a primeira para o santo. Não dá para ninguém. Nunca fomos tão individualistas, sem sentido de equipe. A pátria da chuteira preta era o contrário e o Sobrenatural de Almeida do Nelson Rodrigues, que Deus nos tenha a todos, devia atirar um par delas — acordem, muquiranas! — no quengo desses Ronaldos de anteontem. Caramba!, o Maradona estava certo. Que pesadelo!

- Joaquim Ferreira dos Santos

Fonte: O Globo (http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/joaquim.asp)
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Antigo 06-07-2006, 15:00
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é isso msm ess brasil preciso dessa chuteira preta msm!!!!
q isso aquele roberto carlos arrumando meião na entrada da area!!!
eh so brasileiro pra fazer isso msm!!!!!
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Antigo 06-07-2006, 16:03
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mal o ot mas...
ja q postaram, ninguem ae tem a cronica do jabour nao?
falaram q era mto boa, qria ler....c tiver posta ae!!
vlw
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Antigo 06-07-2006, 18:55
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Coé...

Citação:
Postado Originalmente por casluzin
mal o ot mas...
ja q postaram, ninguem ae tem a cronica do jabour nao?
falaram q era mto boa, qria ler....c tiver posta ae!!
vlw
Se foi a que saiu no dia 04/07 eu tenho aqui. Tá bem interessante mesmo lek... dá uma olhada:

As chuteiras sem pátria
Por Arnaldo Jabor

Quando chega um fax com barulhinho de cornetas celestiais, eu já sei: é carta do Nelson Rodrigues. Não deu outra. Nelson me pedia para publicar um texto sobre a Copa, já que está sem contato nas redações: “Eu sou do tempo do Pompeu de Souza, do Prudente de Morais Neto... Não conheço esses meninos da redação...” . Muito bem, aqui vai seu comentário sobre o sábado da desgraça:

“Amigos, a derrota é um grande momento de verdade. Só diante da vergonha é que entendemos nossa miséria. Num primeiro momento, queremos encontrar uma explicação para o fracasso, mas fracasso não se improvisa — é uma obra calculada, caprichada durante meses, anos até. Não adianta berrar no botequim que o Parreira é uma besta ou que o Ronaldo é um gordo perna-de-pau. Não. Nosso fracasso começou antes, porque esta seleção não foi a pátria de chuteiras, foram as chuteiras sem pátria.

Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada. O país virou um passado para os plásticos negões falando alemão, francês, inglês, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são maus meninos, ingratos, não, mas neles está ausente a fome nacional, a ânsia dos vira-latas querendo a salvação. O povo todo estava de chuteiras, para esquecer os mensalões e os crimes, mas nossos craques não perderam quase nada com a derrota, tiveram apenas um mau momento entre milhões de dólares e chuteiras douradas pela Nike.

Isso me faz lembrar o grande Neném Prancha do Botafogo: ‘Temos de ir na bola como num prato de comida!...’ Que frase profunda, esquecida hoje... Nosso time come bem e nem os jogadores, nem os técnicos, nem os roupeiros e massagistas viram o óbvio, ali, uivando, ululando nos vestiários: o time estava sem conjunto, os jogadores estavam presos a um esquema tático que contrariava suas vocações. Só o povo berrava: ‘Ronaldo está gordo, Ronaldinho tem de atuar mais livre, os jovens têm de jogar mais!’. E quanto mais o óbvio se repetia, mais o Parreira se obstinava em sua lívida teimosia... Por quê? Porque o técnico é sempre contra a opinião geral. Em vez de orientar as vocações dos rapazes, ensinando-lhes a liberdade, a coragem e o improviso, o Parreira achou que todos têm de caber em sua estratégia. O pior cego é o surdo. E jogador brasileiro não gosta de lei nem de planejamentos, quer inventar sozinho. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas o Parreira parecia um ‘Mussolini’ de capacete e penacho. Teve vários sinais de tirania: só dava a escalação no vestiário, com os jogadores desamparados, na insônia da dúvida da convocação, não teve coragem de barrar as estrelas, como se isso fosse uma afronta ao passado e às multinacionais. Ronaldo fez gols, tudo bem, mas foi uma âncora pesada desde o início, em torno do qual os problemas giraram. Parreira ficou com medo dos jovens, e eu via em seus rostos o desespero do banco. Robinho arfava de rancor e só entrava quando era tarde demais. Robinho foi o único que chorou no final, ainda menino e puro. Quem teve a mãe seqüestrada sabe o que é tragédia. E, para escândalo do país, Robinho ficou de castigo. Ao final de tudo, Parreira disse a frase suicida: ‘Não estávamos preparados para perder!...’

Isso é a morte súbita, isso é a guilhotina. Sem medo, ninguém ganha. Só o pavor ancestral cria uma tropa de javalis profissionais para a revanche, só o pânico nos faz rezar e vencer, só Deus explica as vitórias esmagadoras, pois nenhum time vence sem a medalhinha no pescoço e sem ave-marias. Mas Parreira ignorou a divindade e acreditou em si mesmo, com a torva vaidade de uma prima-dona gagá, com pelancas e varizes.
Isso é o óbvio, mas foi ignorado. E quando o obvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino. Por exemplo, por que começamos o jogo como um corpo de bailarinos eufóricos e, 15 minutos depois, ficamos paralíticos como sapos diante de cascavéis, com o Zidane dando chapéus até no Ronaldo? Será que diante da Marselha sofremos um pavor reverencial? Em 98, Ronaldo caiu em convulsões de cachorro atropelado no vestiário. E agora? Creio que no sábado não estávamos com medo da França, não, o que tivemos foi medo de nós mesmos, voltou-nos o complexo de vira-latas, inibidos como vassalos diante do Luís XIV, de sapato alto e peruca empoada. Foi assim em 98 e agora. A França é muito chique para filhos do Capão Redondo e de Bento Ribeiro.

Mas todos sabem que quem ganha e perde as partidas é a alma. E a nossa estava dividida entre o match e a linha de passe, entre o show e a vitória. Houve o episódio da meia do Roberto Carlos, que, um segundo antes do gol da França, estava ajeitando a liga como uma madame Pompadour. Pelé notou o descuido frívolo e trágico, pois guerreiro furioso não conserta a roupa na batalha. Esse pequeno gesto revelou bastidores de equívocos fatais, teorias e teimosias.
Outra coisa que nos matou foi a torcida. Nunca houve uma torcida tão desesperada por uns minutos de paraíso, de brilho. Foi diferente de 1950. Lá, sonhávamos com um futuro para o país. Agora, tentávamos limpar nosso presente. Explico: há um ano, somos uma nação de humilhados e ofendidos, debaixo da chuva de mentiras políticas, violência e crimes sem punição. Descobrimos que o país é dominado por ladrões de galinha, por batedores de carteira e pelos traficantes. Por isso, a população queria que o scratch fizesse tudo que o Lula não fez. Mas era peso demais para os rapazes.

A dez mil quilômetros, os jogadores ouviam os gemidos ansiosos das multidões de verde e amarelo, como uma asma patriótica. Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira, a seleção era nossa única chance de felicidade. Queríamos a taça para berrar ao mundo e a nós mesmos: ‘Viram? Nós brasileiros somos maravilhosos!’

Mas não deu. É só.”


Fonte: http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/jabor.asp

Conclusão que eu tiro desse fiasco: Hexa? Nem... definitivamente era muita estrela pra pouca constelação...


Abraços a todos e PAZ... sempre :good:
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chuteira , neles , preta


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