
25-04-2011, 22:19
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 | poesia ou morte! | | Registrado em: Mar 2005 Localização: Celtx
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Amor em polaroid
Estava de cachecol branco e seus olhos azuis refletiam a intensidade daquela noite estrelada de outono – ela quis se perder neles, mas desviou seu olhar. Num mundo que se faz deserto, lembrou, tinha sede de encontrar um amigo como nos versos de Saint-Exupéry diante de seu pequeno príncipe. Se achou boba. Sempre se achava - boba, romântica, careta. Mas quando se misturava nessas noites de ritmos barulhentos se sentia outra – aquela que é divertida, que faz e ri junto, que vira tequila com sal e limão e dança com os braços pro alto, sexy, meio puta, mulher inteira. Queria aliviar sua escolha, ou falta de uma, solitária e confusa. Seus lábios sugavam o limão apalpando o cachecol estrelado em suas mãos, corajosa com a tequila ainda queimando a garganta seguiu de mansinho entre uns e outros até se ver invadida por aquelas borbulhas de quem mergulha em mar de águas claras – ao se virar esbarrou suavemente. Disfarçou um sorriso – mas ele viu, tinha certeza mesmo não querendo ter.
Em meio a flashes diante um do outro ela dançava numa fotografia pintando tudo que não se esconde, na alegria etílica musicada em cores vivas, ele sorriu de volta e agradeceu, ela ficou tímida e como todos os homens – reparou - ele não sabia nem dançar, ela ria, ele sem jeito em meio a flashes diante a fotografia pintava tudo que não se esconde – menos o que não se releva em noites como aquela - de Polaroid.
A voz de Kurt Cobain cantava sofrido i have never failed to feel quando um tiro de escopeta leu no jornal antes de deixar o livro cair ao chão. Não escolheu sua roupa, apenas o cachecol. E quando fechou a porta não sabia pra onde ia, apenas seguiu uma mulher de vestido tomara que caia de veludo preto adamascado – ele jamais soube disso. Achava que nunca sabia de nada, como sempre tinha certeza de tudo – e assim de repente sabia. Queria aliviar sua escolha, ou falta de uma, solitário e confuso. Entrou naquela noite de ritmos barulhentos porque pressentiu e assim seguiu entre uns e outros até a sacada desse antigo casarão de Santa Teresa. Discretamente procurou fotografar lá em baixo o vestido negro místico que cobria um corpo iluminado, quando se distraiu numa estrela riscando o céu noturno brilhante - e não viu mais nada - sentiu apenas o dedo deslizar, o flash, e o vento levando seu cachecol – numa foto borrada.
- achei que tinha perdido... - foi o vento. - foi à estrela! - dos olhos? - antes do cachecol voar... - caiu em minhas mãos. - a estrela? - o cachecol, bobo. - ah, obrigado por achar. - também perco coisas... - e eu nunca encontro... - tem tempo ainda. - talvez me mate amanhã. - depois de me encontrar? - talvez tenha tempo. - eu já tive o meu... está ouvindo? - as sirenes? - não, ta tocando Alanis: and isn't it ironic... don't you think? - a little toooo ironic.. and yeah i really do think.
(música)
- o momento é favorável a insights. - limpezas, expurgos, eliminação de ações mal resolvidas... - 3 dias antes e depois da Lua minguante. - te segui até aqui, sabia? - sempre soube que me seguiria... - eu nunca sei de nada... - como sabe então? - que não sei? Sempre soube! - deve ser confuso... - o céu propõe e o ser dispõe. - fica comigo hoje? - só se for pra sempre. - ou enquanto durar. - vai durar muito? - todo nosso tempo. - como no inicio - bem antes do fim...
Naquela noite o céu estava lindo estrelado e na madrugada se via em direção a constelação de Aquário uma chuva de meteoros cintilantes - nem parecia o mesmo céu de sempre. Lembrou de seu horóscopo no jornal, dos raios de sol da manhã tocando sua pele triste e na tarde de abismo profundo quis ligar pra alguém ou que o telefone tocasse antes da escuridão – mas nada aconteceu. Uma estrela cadente riscou o céu trazendo a primeira certeza da vida que desabou antes dele – faltava uma estrela, a mais linda delas. E assim soube, de repente, aceitando em paz que aquele cachecol e sua Polaroid sem aqueles filmes de moldura branca e fundo negro que emergem cores de momentos aos ventos, como tudo aquilo que pressentiu, se apagaria num borrão junto ao disparo – suspirou e deteve-se decidido; ou enquanto durar! Roosevelt vai apertar o gatilho ...: Amor em polaroid |