O interfone tocou: Correspondência registrada.
Desce alguém para pegar e assinar.
Esse alguém sobe... abre a carta.
Era uma intimação. Ela deveria comparecer no dia seguinte, ás 8 horas da manha em um tal lugar.
Curiosidade. Mau pressentimento.
Dia marcado, 8 horas. Ela deveria ir sozinha e levar a carta.
Sala pequena, aspecto frio.
Uma cadeira dura de aço polido.
Uma porta preta.
Uma placa na parede ‘’ sala de espera ‘’.
Mais nada.
A porta se abre.
Ela entra.
Uma sala ampla.
Quase vazia. Uma mesa de madeira escura, um computador. Uma cadeira aparentemente confortável, couro preto. Alguém sentado nela.
Esse alguém olhando para o computador pede para que ela sente-se na cadeira do outro lado da mesa. Novamente cadeira dura.
Ela senta.
Ele finalmente pergunta:
- Brisa Feliz?
- Sim.
- Preste bastante atenção. Disse o homem fitando o olhar da garota friamente.
O homem era calvo, olhos castanhos. Rosto quadrado, queixo protuberante. Barba bem feita, pescoço esguio , posição ereta. Óculos.
Nem feio nem bonito. Ela não chegou a decidir sobre isso... pois ele começara a falar algo que tomou toda sua atenção e fôlego.
- Você esta sendo formalmente acusada por perturbar a ordem e a sanidade mental do seu ambiente de contato. Por pensar contrariamente às normas do nosso sistema e da nossa sociedade. E por influenciar e fomentar outros cidadãos a pensarem de tal modo, que por sua vez é incorreto e não adaptado.
Você também esta sendo acusada de inadaptação ao seu meio.
Tememos que sua doença mental seja contagiosa.
Ela estava estática, nunca imaginara que existisse um padrão fixo de pensamento e atitude. Mesmo sabendo que havia certos critérios para separar uma coisa ‘normal’ de outra ‘não tão normal assim’. Mas não sabia que agir e pensar contra tal ‘norma’ era contra alguma lei ou regulamento. Ela era inocente e acreditava na liberdade de expressão. Ao menos sempre ouviu falar que tínhamos direito a ela, ou no mínimo de falar e pensar do modo que quiséssemos. Por isso ela estava estática... parecia um pesadelo , ela queria rir , contra-argumentar com muita veemência. Acordar! Mas algo parecia diferente, algo a fazia sentir que não, não era um sonho. Nem pesadelo. Era uma realidade que até então ela não conhecia. Uma parte do sistema que poucas pessoas deveriam ter conhecimento: O Centro Regulador.
Parecia filme, seriado, novela...tudo , menos real.
E isso tudo ocorreu-lhe em segundos enquanto o homem tomava ar para continuar a falar friamente.
- Você, Brisa Feliz, está sendo formalmente expulsa do sistema.
Mas o Centro Regulador lhe dará três alternativas para dar continuidade à sua vida.
Ele continuava falar sem dar espaço para qualquer contra-argumentação.
Ela estava de boca aberta, olhos arregalados e uma sobrancelha arqueada em sinal de extrema dúvida e assombro. Seria cômica sua expressão, se o contexto não fosse trágico.
-Alternativa um: Você será transportada e encaminhada para um centro de recuperação mental. Lá a tratarão com os cuidados necessários para erradicar seu distúrbio e sua incoerência. Ficará num quarto confortável com livros e filmes à escolha do Sistema para complementar sua Adaptação. Terá dieta regulada, atividades físicas moderadas. E usará um aparelho de monitoração do seu pensamento.
(Nesse momento ela se pergunta: Isso existe? )
Sua saída só será permitida após nove anos de treinamento adaptativo.E após nove rígidos testes para comprovar a eficácia do tratamento de modo positivo que não deixe margens para erros , nem que você possa dissimular uma mudança.
- Alternativa dois: Poderá ser imediatamente encaminhada para um hospital onde será feita uma lobotomia retirando cirurgicamente a área afetada do seu cérebro. Incluindo mudanças com uso de dispositivos que serão implantados no seu sistema límbico: Amígdala, Hipocampo , Hipoálamo , Tálamo , e nas demais áreas diretamente relacionadas.Além de uma medicação de controle.
Em duas semanas poderá voltar para casa onde ficará sendo monitorada durante um ano para a verificação dos resultados.
- Alternativa três: Poderá ser deportada.
Colocamos três países à sua escolha:
Namíbia : África
Iêmen : País árabe que se encontra no sudoeste da península arábica.
Cazaquistão: País oriental.
-Você tem uma hora para decidir.
Neste momento o homem olha no relógio e diz: Começando agora.
Ele levanta-se, aperta um botão desligando o computador, e sai da sala.
Brisa permanece por uns cinco minutos num estado indefinido.
Após isso ela começa a pensar, seu cérebro vira uma máquina jorrando pensamentos e emoções, dúvidas e iniciando o estado de pânico.
Mas ela sabe que o tempo esta passando e não tem tempo para divagações.
É necessário escolher.
Ela pensa em como fugir: impossível.
Fingir desmaio? Não...
Suicidar? Não!
Quando ela tenta levantar para usar o computador, uma luz vermelha pisca no teto e uma voz metálica surge de algum aparelho de som situado na sala: Sente-se, não será permitido usar qualquer objeto da sala.
Ela senta.
De súbito... uma pontada de gelo surge no seu órgão bombeador de sangue. E esse frio tenebroso quase doloroso se espalha pelo seu corpo, chegando na cabeça ...ela sente tontura , começa a suar. Mesmo não sentindo calor. Ela sente que falta ar.
Fecha os olhos com força e abre novamente: ela continua na mesma sala.
Vamos, faça uma escolha! Pense! – Diz para si mesma.
Hospício? Nunca!
Lobotomia? Nunca!
Mas que países estranhos!
África? Fome... AIDS.... guerras. Não.
Iêmen? Pessoas fanáticas. Não.
Vai o Cazaquistão mesmo...
Nessas horas um Atlas faz falta... ou ter prestado atenção nas aulas de geografia...merda!
A porta se abre.
- Já se passou uma hora. O homem entra na sala.
Qual sua decisão?
- Terceira opção, Cazaquistão.
Ela sente que seguram forte seu braço, o homem não entrou sozinho.
Sente uma picada... tudo escurece.
Perde a consciência.
(E mal ela sabia que a escolha não fora sua... já haviam escolhido para ela.)
P.S:
È o preço por pregar amor com liberdade pra uma sociedade doente...