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Antigo 21-10-2008, 21:40
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poesia ou morte!
 
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Padrão Estupro - cenas reais


Coloquei na net um vídeo com uma cena anunciada de estupro. Seria uma cena em que o próprio estuprador teria filmado. O título: Estupro: cenas reais. O subtítulo: “Chocantes cenas feitas no local”. Mesmo alojado em um lugar que não indica sexo ou notícias escandalosas, o vídeo atingiu mais de 60 mil visitas em pouco mais de dois meses. Outros vídeos com matérias chamativas, que inclusive foram noticiadas pela grande imprensa, não chegaram nem à metade em tão pouco tempo. Não é sexo que “dá ibope”. O sexo com violência, sim. Ou melhor, a violência é que “dá ibope”. Qual a razão disso?

Você pode simplesmente dizer: “gosto de sexo e, se vem com violência, melhor ainda”. Sexo e aventura? Uma fórmula infalível quando se trata de chamar a atenção? Só isso?

Diferentemente das ciências e, mais ainda, da religião, a filosofia tem uma via própria para abordar o caso. Uma das vias da filosofia é a chamada “abordagem da modernidade”. No assunto em questão, a “modernidade” se abre com uma disposição clara: o tédio.

O tédio é um parente próximo do niilismo? Seria, então, um inimigo de Nietzsche? De certo modo, sim. Mas o tédio que comento é ligado ao que Adorno chamou de “apatia burguesa”, ou seja, aquela maneira de ser que não vê mais nada que possa ser admirado. Nada é para se espantar. No limite, essa apatia burguesa é aquela que se instaura em situações totalitárias modernas – o nazismo e o comunismo conheceram situações assim. O marasmo, a falta de ar, o sufoco sentido e não assumido. O dia-a-dia pesado – todos os ingredientes que aqueles que viveram na Alemanha nazista e na URSS souberam bem o que era. Não é a opressão. Não é o peso da polícia política. É apenas a idéia de que “o mundo é assim-e-assim”.

Foi dessa aproximação do totalitarismo com sociedades de democracia de massas que Adorno e Horkheimer tiraram a idéia de que a modernidade é algo amplo, trans-histórico, e que a sociedade moderna, esteja ela sob regime democrático ou totalitário, é uma “sociedade da total administração” ou “sociedade administrada”. Nessa sociedade que, de fato, é uma construção teórica e não uma realidade empírica em todos os seus detalhes, o que impera é o tédio. Não é o silêncio. É o tédio como resultado da regra geral de banalização do cotidiano. Bandas e desfiles nazistas e comunistas cumprem o mesmo papel da “música ambiente” em jantares de sociedades democráticas; são todos eventos, nesse sentido, que se dirigem para o mesmo fim: nada pode quebrar a cadência, o ritmo.

O problema desse tipo de sociedade é que ela pode ir morrendo aos poucos na sua eficácia. A sociedade se mantém eficaz, mas nada nela pode surgir de realmente novo.
Todos os inventos e “novidades” são bonecos já inventados. Tudo é uma grande fábrica de brinquedos em Taiwan. Em determinados momentos, então, é preciso dar um choque nessas populações de pessoas eficazes e ao mesmo tempo presas ao entorpecimento. Adorno lembra que os nazistas diziam que eles não deveriam censurar as notícias de que perdiam batalhas. Pois, em alguns momentos, era necessário dar um choque na população. Aliás, alguns nazistas diziam, na conta de Adorno: “quando tudo isso acabar, poderão nos acusar de tudo, menos de que éramos provocadores do tédio”.

Na verdade, eles não eram os provocadores do tédio. Eles quiseram sair dele. Mas não puderam, pois eram o cume do tédio.

A busca pelo vídeo de estupro está nesse contexto. Ela é o choque que o indivíduo precisa dar a si mesmo, como a sociedade nazista ao não censurar as notícias das derrotas. Você pode tomar pílulas para dormir, ou um uísque para relaxar. Mas, na manhã seguinte, tem de tomar pílulas para voltar a funcionar, ou um café forte. Em outras palavras: nada em você funciona mais, tudo precisa ser “estimulado”, ou para desligá-lo ou para ligá-lo. Aliás, a linguagem o trai: “se liga” – é um lema de nossa atualidade. Ora, mas o que “liga”, nesse sentido, não é o interruptor?

A busca pelo estupro é exatamente isso: vamos unir o ato de amor com o ato de barbárie, para ver no que dá. Para ver se algum interruptor em nós pode fazer o clique que esperamos. Talvez isso nos faça acordar – é mais ou menos assim que pensam todos aqueles que, mesmo fingindo não gostar, dão uma olhadela no vídeo que coloquei na net. O vídeo é longo. A cena de estupro não aparece nunca e, no entanto, ele é assistido até o seu final. São dez longos minutos que aquele que assiste fica ali, preso, na busca que eu possa lhe proporcionar o encontro com seu interruptor perdido.


Não sabemos quando começamos a adotar o tédio como regra. Mas sabemos bem que ele está presente, pois, caso contrário, não teríamos colocado como pílula para nos curarmos dele a busca pela violência ou, no caso, a busca da violência associada ao sexo.

Estamos nesse barco. Ficamos insensíveis, e então precisamos da administração do estimulante para voltar a acreditar que podemos sentir alguma coisa.


Paulo Ghiraldelli Jr. “o filósofo da cidade de São Paulo”
__________________
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cenas , estupro , reais


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