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Antigo 23-11-2006, 18:46
hatusmancha
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Padrão O Mito da Caverna (diálogo entre Glauco e Sócrates)

(República, Livro VII, capitulo VII, Platão)
Retirado do livro: Metodologia científica: caderno
de textos e técnicas/ Leda Miranda Hühne
3 ed. Editora Agir, 1989.

— E agora — disse eu — compara com a seguinte situação o estado de nossa alma com respeito à educação ou à falta desta. Imagina uma cavernasubterrânea provida de uma vasta entrada aberta para a luz e que se estende ao largo de toda a caverna, e uns homens que lá dentro se achamdesde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço. Por essa razãoeles têm de permanecer imóveis e olhar tão só para a frente, pois asligaduras não lhes permitem voltar a cabeça. Atrás deles, num planosuperior, arde um fogo a certa distancia, e entre o fogo e os acorrentados há um caminho elevado, ao longo do qual faz de conta que tenha sido construído um pequeno muro semelhante a esses tabiques que os titeriteiros colocam entre si e o publico para exibir por cima deles as suas maravilhas.

— Vejo daqui a cena — disse glauco.

— Imagine, então, como ao longo desse pequeno muro passam homenscarregando toda espécie de objetos, cuja altura ultrapassa a da parede, eestátuas de homens e figuras de animais feitos de pedra, de madeira e outros materiais variados. Alguns desses carregadores conversam entre si, outros se calam.

— Que estranha situação descreves, e que estranhos prisioneiros!

— Eles se parecem conosco — disse eu. — Em primeiro lugar, crês que osque estão assim tenham visto outra coisa de si mesmos ou de seuscompanheiros senão as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede dacaverna que está a frente?

— Como seria possível, se durante toda a sua vida foram obrigados amanter imóveis as cabeças?

— E dos objetos transportados, não veriam igualmente apenas as sombras?

— Sim.

— E se pudessem falar uns com os outros, não julgariam estar sereferindo ao que se passava diante deles?
— Forçosamente.
— Supõe ainda que a prisão tivesse um eco vindo da parte da frente. Cadavez que falasse um dos passantes, não creriam eles que quem falava era asombra que viam passar?

— É indubitável.

— Eles, — disse eu — só tomariam por verdade as sombras dos objetosfabricados.

— Também é forçoso.

— Examina, agora, o que naturalmente aconteceria se os prisioneirosfossem libertados de suas cadeias e curados da sua ignorância. Quando umdeles fosse desatado obrigado a levantar-se subitamente virasse o pescoço,caminhasse em direção a luz, e em virtude disto sentisse dores intensas e,com vista ofuscada, não fosse capaz de perceber aqueles objetos cujassombras via anteriormente: e se alguém lhe dissesse que antes não via maisdo que sombras e agora quando se achava mais próximo da realidade e com osolhos voltados para objetos mais reais, goza de uma visão mais verdadeira, que supões que responderia? Imagina ainda que se lhe fosse mostrando os objetos à medida que passassem e obrigando-o a nomeá-los: não crês queficaria perplexo, e o que antes havia contemplado lhe pareceria maisverdadeiro do que os objetos que agora se lhe mostram?

— Muito mais — disse ele.

— E se o obrigassem a fixar a vista na própria luz, não lhe doeriam osolhos e não escaparia, voltando-se para os objetos que pode contemplar, eque consideraria que eles são realmente mais claros, do que aqueles quelhe eram mostrados?

— Assim é — respondeu.

— E se o levassem dali à força, obrigando-o a galgar a áspera eescarpada subida, e não o largassem antes de tê-lo arrastado à luz dopróprio sol, não crês que sofreria e se irritaria, e uma vez chegado à luzteria os olhos tão ofuscado por ela que não conseguiria enxergar uma sódas coisas que agora chamamos verdadeiras?

— Não, não seria capaz — disse ele — ao menos no primeiro momento.

— Precisaria acostumar-se, creio eu, para poder chegar a ver as coisaslá de cima. O que veria mais facilmente seriam, antes de tudo, as sombras;depois, as imagens homens e outros objetos refletidos na água; e maistarde os próprios objetos. E depois disto seria mais fácil contemplar alua e as estrelas, e veria o céu noturno muito melhor que o sol ou a sualuz durante o dia.

— Como não?

— E por fim, creio eu, estaria em condições de ver o Sol — não suasimagens refletidas na água nem em outro lugar estranho, mas o próprio Solem seu próprio domínio e tal qual é em si mesmo.

— Necessariamente — disse ele.

— Mas tarde, passaria a tirar conclusões a respeito do Sol,compreendendo que ele produz as estações e os anos, governa toda a região visível e é, de certo modo, o autor de tudo aquilo que eles (Os prisioneiros) viam.

— É evidente — disse — que veria primeiro o Sol e depois pensaria sobre ele. — E quando se lembrasse de sua habitação anterior, da ciência da caverna e de seus antigos companheiros de cárcere, não crês que se considerariafeliz por haver mudado e teria compaixão deles?

— Com efeito.

— E se entre os prisioneiros vigorasse o hábito de conferir honras,louvores e recompensas àqueles que por distinguirem com maior penetraçãoas sombras que passavam e observassem melhor quais delas costumavam passarantes, depois ou junto com outras, fossem mais capazes de profetizar,pesas que aquele sentiria saudades de tais honras e glórias e invejaria osque as possuíssem? Não diria ele, com Homero, que era preferível "lavrar aterra a serviço de um homem sem patrimônio" ou sofrer qualquer outrodestino a viver no mundo das sombras?

— Sim, creio que preferiria qualquer outro destino a ter uma existência tão miserável.

— Atenta agora no seguinte: se esse homem voltasse lá para baixo e fossecolocado no seu lugar de antes, não crês que seus olhos se encheriam detrevas como os de quem deixa subitamente a luz do sol?

— Por certo que sim.

— E se tivesse de competir de novo com os que ali permanecemacorrentados, opinando a respeito de tais sombras, que, por não se lhe terainda acomodado a vista, enxergaria com dificuldade (e não seria curto o tempo necessário para acostumar-se), não te parece que esse homem faria papel de ridículo? Diriam os outros que ele voltara lá de cima sem olhos eque não valia a pena pensar sequer em semelhante escalada. E não matariam,a quem tentasse desatá-los e conduzi-los para a luz, se pudessemdeitar-lhe a mão?

— Não há dúvidas — disse ele.

— Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicares com toda exatidão essaimagem da caverna e tudo o que antes havíamos dito. A caverna subterrâneaé o mundo visível. O fogo que ilumina é a luz do Sol. O acorrentado que seeleva à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundointeligível. Ou antes já que o queres saber, é este pelo menos meu modo depensar, que só a divindade pode saber se é verdadeiro. Quanto a mim, acoisa é como passo a dizer-te. Nas últimas fronteiras do mundo inteligívelestá a idéia do bem, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora dainteligência e da Verdade no mundo invisível e, sobre a qual, por issomesmo, cumpre ter os olhos levantados para agir com sabedoria nos negóciosindividuais e públicos.
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caverna , diálogo , entre , glauco , mito , sócrates


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