Prova dialogando com o texto "Sob a Regencia da presença: subjetividade e cálculo entre jovens consumidores de ecstasy no Rio de Janeiro". - Maria Isabel Mendes de Almeida e Fernando Eugênio
(Longe de ser apologia, é um estudo sociológico.)
Consoante com o espírito de época contemporâneo, marcado pelo império da ciência nas explicações do mundo, do pensamento lógico-racional e da mensurabilidade dos mais diversos fenômenos mundanos, o jovem consumidor de ecstasy é o calculista responsável pelas decisões que influem em seu destino. No caso, trata-se das tomadas de decisões friamente calculadas para o deleite de festas-substância que emergem no cenário noturno brasileiro com vigor.
Para aproveitar cada instante da melhor maneira possível em festas extensas ou festivais (ambos com, no mínimo, doze horas de duração em média, chegando a alguns dias), diversas
expertises são necessárias. O bem-estar associa-se à aplicação dos diversos
skills indispensáveis para uma
balada tranqüila, bem como a escolha da substância (o consumidor não vê o ecstasy como droga na acepção clássica, ilegal, socialmente descriminada, etc) exata aplica-se não só ao cenário
rave, mas ao cotidiano desses jovens
twenty something (e quiçá de significativa parcela da sociedade, de acordo com a substância em questão): o
chopp no barzinho, o açaí e/ou anabolizantes antes da academia, emagrecedores, calmantes para agüentar a rotina (esse caso é menos freqüente entre jovens, mas relativamente comum a seus pais), e assim por diante.
Diferente do jovem dos anos 60/70 que se drogava para fugir da realidade em longas viagens lisérgicas, o jovem consumidor de ecstasy procura o acesso à realidade. O “eterno instante” lisérgico, “não estar ali”, foi substituído pelo instante aproveitado ao máximo, “estar ali como nunca se esteve” (Almeida e Eugênio, 2004). O acesso é garantido com a inserção correta no meio
trance e o preenchimento dos requisitos para isso indispensáveis. A administração do corpo, os conhecimentos e cálculos relacionados à noitada como um todo (incluindo o ecstasy e outras possíveis substâncias a serem misturadas) são exigidos para se chegar ao bem-estar.
O primeiro cálculo é o da compra: é preciso ter amigos inseridos no meio, algum deles fornecedor do ecstasy: o vendedor é um igual, e não um “traficante” – estando este associado à maconha e cocaína. O grupo deve ser escolhido com cuidado, pois a experiência é coletiva, assim como a
vibe (a energia coletiva que contagia e responde por parte do gozo da festa-substância). Também, um pode ajudar o outro em caso de necessidade, se alguém passar mal.
A música, igualmente, deve ser aprendida, em uma alfabetização musical para que se encontre o estilo eletrônico preferido. As roupas são minuciosamente selecionadas, tanto pelas cores que combinam com o ambiente quanto por permitirem a portabilidade do corpo, ou seja, bolsos, compartimentos e acessórios que possibilitem o transporte de todos os itens necessários na festa (água, cigarro, isqueiro, carteira, celular, por vezes máquina digital, etc).
Deve se desenvolver, ainda, a
expertise da relação da
bala com o corpo: quantas tomar, quando e como. É imperativo que a “onda” bata no momento certo, e que não se prolongue além da festa. A substância é utilizada sabendo-se que no dia seguinte há uma rotina, seja ela trabalho ou estudo, que não deve ser comprometida. O cálculo engloba ainda a hora de parar de calcular para o ecstasy “bater”, fazer efeito. A hidratação, do mesmo modo, é pensada para acompanhar as horas de dança frenética. Percebe-se aqui um discurso biomédico e a presença da matemática e da física corporal entre esses jovens.
Concluindo, os jovens consumidores de ecstasy se situam em uma modulação do equilíbrio, metaestabilidade que calcula tudo, incluindo o cálculo. A atenção é indispensável para dar conta de tantos saberes a serem adquiridos e colocados em
prática simultaneamente. O espírito de nossa época, previamente descrito, marcado pelo cálculo e pragmatismo (Almeida e Eugênio, 2004), está presente e evidente na fruição dos jovens
tranceiros.
Toddy