Essa semana a Veja Rio trouxe na matéria de capa um tema que ja venho discutindo no Plurall e em festas há tempos. Dentro de nosso microuniverso raver é clara a falta de educação dos festeiros na medida em que jogam de tudo no dance floor. Copos, garrafas, latas, sacos....
Se valendo do conceito de que uma tribo ou grupo social reflete a sociedade em que este está inserido, podemos dizer que entre o dance floor em fim de festa um fim de tarde no Posto 9 ou na Rio Branco são a mesma tragédia: LIXÃO AO AR LIVRE!
Estou postando a matéria na qual dados interessantes sobre a sujeira da cidade são postos, além da ameaça do Prefeito Eduardo Paes de deixar o Rio de Janeiro um dia sem COMLURB pro Carioca entender que sem assumir seu papel de cidadão não há companhia de limpeza que aguente.
Há anos ja tenho a postura de não jogar absolutamente nada fora do lixo! Atualmente tenho ensaiado reclamações aos porcos que vejo jogando lixo no chão, mas como, em geral, recebo uma resposta mal educada (daquelas que o porco ainda se acha no direito de sujar a cidade) admito que ainda tenho que exigir mais do restante da sociedade em quanto cidadão ativo. Sigo na busca da postura ideal...Esse é o exercicio de cidadania que estou praticando. Convido a todos a se posicionarem quando derem de cara com porcos sujando a cidade, pois essa causa é nossa!
Vale a pena ler a matéria
Paz
VEJA RIO 29/11 Por que sujamos tanto?
Provocado pelo prefeito Eduardo Paes,
que condenou o hábito da população
de emporcalhar a cidade, o carioca se vê
diante do desafio de tornar as ruas mais limpas.
A resposta só depende de cada um de nós
Vamos ser francos. Não é preciso ser sanitarista ou técnico em gestão ambiental para perceber que o Rio está uma imundície, apinhado de papéis amassados, latinhas, guimbas de cigarro, cocô de cachorro e cusparadas pelo chão. Um breve passeio pelas calçadas da Zona Sul já é suficiente para dar um panorama da (horrível) situação. Na semana passada, o prefeito Eduardo Paes resolveu cravar o dedo na ferida e anunciou uma cruzada radical para reduzir o lixo deixado nas vias públicas. "As pessoas precisam ser menos porcas", bronqueou. As palavras fortes não foram um desabafo do momento, um ato impensado. O tom áspero foi proposital. De fato, a ideia era mexer com os brios do único agente capaz de mudar esse cenário: o
próprio carioca. Diariamente, são despejadas nos aterros sanitários municipais 8 840 toneladas de resíduos, quantidade perfeitamente compatível com uma metrópole. Há, porém, uma diferença gritante quando esse número é confrontado com os dos grandes centros urbanos europeus. Aqui, a quantidade de dejetos retirada das ruas corresponde a 37% do total recolhido pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb). Trata-se de uma façanha às avessas, um mal que, além do aspecto estético, ajuda a disseminar doenças e provoca enchentes. "Não pode ser assim. Está demais", reclama Paes.
O morador da cidade, chafurdando na imundície, acabou se habituando à desordem e não se dá conta da dimensão do problema. Na verdade, não consegue entender o óbvio: muitas vezes, ele
próprio é o principal agente da sujeira que tanto o repulsa. Uma pesquisa encomendada ao Ibope pela ONG Rio como Vamos dá uma ideia do desafio à frente. No levantamento, 83% dos entrevistados responderam que os cariocas deveriam parar de emporcalhar as vias públicas. À primeira vista, o número demonstra um grau de conscientização europeu. A questão é que os outros 17% restantes não são certamente os únicos a jogar lixo no chão, nas águas do mar, nas calçadas... Caso os tais 83% fossem todos tão ordeiros na
prática como o são no discurso, o Rio hoje se pareceria com Genebra, na Suíça – lá, a coleta nas ruas equivale a apenas 15% do total, menos da metade do nosso índice. Daí, conclui-se que uma parcela significativa quer colaborar, incomoda-se com o aspecto desleixado das praias, mas, de forma contraditória, continua a jogar cascas de coco e palitos de sorvete por aí. "É preciso mudar de atitude", afirma a presidente da ONG, Rosiska Darcy de Oliveira.
Quem vem de fora se choca com tal condição. Um estranhamento, diga-se, que remonta a séculos atrás. Diversos viajantes do passado relataram seu horror diante da sujeira local. O negociante inglês John Luccock, radicado por aqui entre 1808 e 1818 e autor de Notas sobre o Rio de Janeiro, achou-a imunda. Outros destacaram a insalubridade e o mau cheiro reinantes. "Ficamos muito tempo sem ter um órgão responsável pela limpeza urbana", conta o historiador Milton Teixeira. Nas residências coloniais, atirar detritos pela janela se tornou
prática comum. A alternativa, igualmente condenável, era o despejo na Baía de Guanabara. Tamanho descaso com a higiene não pertencia a nenhuma classe social específica. Quem devia dar exemplo fazia pior. Na hora do aperto, dom João VI não relutava em fazer suas necessidades na rua. Hábito legado ao filho, Pedro I, e recidivo até hoje. "Esse comportamento é traço de uma cultura hierarquizada e aristocrática", conta o antropólogo Roberto DaMatta. "Dom João jogava aos céus os restos do frango porque havia sempre um serviçal para catá-lo. Você suja porque há um outro, invisível, que vai limpar."
Duzentos anos depois, o aspecto escatológico das nossas praias e calçadas continua a assustar os visitantes. Uma pesquisa feita em agosto pelo departamento de turismo da UniverCidade, realizada com 600 estrangeiros, revelou que um de cada três turistas apontou a imundície das ruas como o principal ponto negativo de sua estada, à frente da mendicância (30%) e da violência (20%). "Um lugar imundo aumenta a impressão de descaso, de insegurança, e prejudica o fluxo turístico", constata Bayard Boiteux, coordenador do curso de turismo da faculdade e um dos responsáveis pela aferição. No mesmo levantamento, outro dado intrigante. De acordo com o professor Boiteux, os europeus diziam não entender como nós tomamos tantos banhos e, ao mesmo tempo, emporcalhamos desse jeito a cidade. Evidentemente, não existe uma explicação simples para o paradoxo. "O carioca é patrimonialista e acha que tudo é papel do governo", analisa o economista Sérgio Besserman, presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável. "É como se não fosse com ele."
Como mudar, então, uma cultura tão arraigada, um hábito que vem de séculos? A maneira mais eficiente é aproveitar as experiências de outros povos. Todas as grandes capitais do mundo, em determinado momento de sua história, foram repulsivamente sujas. Várias, porém, conseguiram sair do desleixo total para se tornar exemplos de higiene. Para reverter o problema, alguns fatores foram cruciais: a mobilização dos cidadãos, a expansão do nível educacional e, infelizmente, uma política de punição aos "porquinhos". Hoje, tanto na Europa como nos Estados Unidos, o controle é rigoroso e atinge diretamente o bolso do infrator, por menos ofensivo que possa parecer o arremesso de uma bolinha de papel no solo. Em Nova York, há mordidas severas de até 100 dólares (170 reais) se alguém for flagrado nesse ato. Em Londres e Amsterdã, as multas são pesadas: 100 libras (285 reais) e 90 euros (235 reais), respectivamente. "Lá fora, as pessoas guardam seu detrito e esperam para descartá-lo no local apropriado", afirma José Henrique Penido, assessor-chefe da diretoria industrial da Comlurb.
A empresa de coleta, ao contrário do que diz o senso comum, não pode ser responsabilizada pelo atual descalabro. Não fosse pela sua atuação, o cenário seria ainda pior. O gigantismo de sua operação reflete, em larga medida, os maus costumes do carioca. A Comlurb emprega atualmente 12 700 garis, possui uma frota de 830 veículos e fabrica, ela
própria, 10 000 vassouras por mês. Trata-se de um verdadeiro exército a serviço da limpeza. Além disso, ninguém pode justificar o imperdoável ato de arremessar sacos plásticos e outros dejetos ao chão pela falta de lixeiras. O Rio possui hoje 122 000 papeleiras, como são chamados os recipientes laranja fixados nos postes, e mais de 165 000 contêineres, boa parte deles espalhada pela orla, ao lado dos quiosques, e em favelas. Mesmo com todo o aparato, a Avenida Rio Branco, no Centro, tem de ser varrida cerca de cinco vezes por dia. Na mesma toada, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, outra artéria de grande movimentação, acumula 4 toneladas diárias – o equivalente ao peso médio de três carros. "Às vezes, temos de jogar lavanda, tamanho o fedor exalado", revela a presidente da Comlurb, Ângela Fonti.
Por qualquer ângulo, a provocação do prefeito Eduardo Paes vem em boa hora e deve ser encarada como um chamado em favor de um Rio mais limpo. Se a tarefa de recolher o material lançado pelos "porcos" fosse menos trabalhosa, a prefeitura reduziria seus gastos, o contribuinte veria seu dinheiro mais bem empregado e, acima de tudo, não viveríamos em um lugar que, em determinadas áreas, parece um chiqueiro. Além de cutucar a população, Paes pretende estabelecer metas para a redução da imundície e prepara, para os
próximos dias, uma jogada de efeito. A seu comando, a Comlurb vai deixar de retirar os detritos das praias e da Avenida Rio Branco por 24 horas, uma maneira de chamar atenção para o problema. Um lance meio espalhafatoso, é verdade, mas correto. Os cidadãos cariocas precisam entender que cuidar do
próprio lixo é um ótimo começo para quem vai receber uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Os turistas merecem. Nós também.