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Papo Cabeça Assuntos interessantes e não necessariamente relacionados ao trance.

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Antigo 01-09-2008, 10:13
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Padrão Bebês anencéfalos e o falso moralismo brasileiro

Semana passada estava eu dando minha passada habitual pelo jornal online quando vi que estava sendo discutida no STF a legalidade do aborto no caso de fetos anencéfalos. Sou particularmente atraído por esse tipo de discussão pois elas são, em sua análise mais fria e básica, uma discussão moral e até metafísica, por que a ciência está longe, muito longe, de conseguir quantificar e qualificar o quão vivo e consciente é um ser sem cérebro.

Acompanhando a discussão pela mídia, li que o STF escutou representantes da Igreja Universal, da Católica, Espírita, cientistas, médicos, etc. Naturalmente é um tema polêmico e as opiniões divergem. A única posição óbvia e evidente é a da igreja católica, a qual eu não sei para que continuam ouvindo se já sabem o que vão dizer e repetir até o fim dos tempos. Alguns médicos defendem o término da gravidez, outros defendem mais pesquisas. A Igreja Universal apóia o aborto.

Os contrários ao aborto gostam de citar o caso da menina Marcela, que mesmo anencéfala, sobreviveu, no hospital, por um ano e oito meses, o que foi uma surpresa até para os médicos. Os favoráveis usam como base argumentativa principalmente a saúde e o direito de escolha da mãe.

Pequena pausa aqui em meu relato para comentar um outro caso e posteriormente fazer uma análise dos dois.

Estava na capa do jornal de domingo que Carminha Jerominho, filha do vereador de mesmo sobrenome, foi transferida para um presídio de segurança máxima, aonde não terá direito a visitas e só terá 2hs de banho de sol por dia. Ou seja, uma criminosa das piores.

Essa mesma Carminha, no entanto, está livre para aparecer diante de todo o povo brasileiro com a cara mais lavada que existe, pedindo o seu voto, dizendo que vai investir em saúde e segurança. Realmente, ela deve investir bem em segurança, já que junto com seu pai está envolvida em milícias. De repente ela está querendo incitar uma guerra civil. Muito bonito né? Isso tudo é possível por que nossa lei eleitoral é ridícula e permite que qualquer debilóide, sem nenhuma formação, se candidate a cargos públicos. Pior ainda, permite que mesmo aqueles que estejam sob julgamento e até os condenados concorram e ocupem tais cargos.

Agora voltando a discussão dos anencéfalos. Essa discussão traz à tona, querendo ou não, o tema do aborto em si. Premitir ou não que essa prática, que já é amplamente conhecida e realizada desde que o mundo é mundo, seja legal. Os argumentos contra são basicamente aqueles morais, o direito inalienável à vida, etc. Os contra são, em geral, de cunho mais prático: saúde e segurança píblica, direitos da mulher, etc.

A discussão moral não tem fim, nunca vai ter, pois ninguém em nenhum momento vai concordar que sua opinião é amoral ou fere a ética vigente, isso simplesmente não vai acontecer, muito menos com um juiz do STF. Por assim ser, as de cunho prático deviam ser estressadas a um máximo, mas não o são, e se perdem em questionamentos de curto, médio e longo (infinito?) prazo.

Uma das questões mais problemáticas do aborto é o fato de que ele já é feito, a realidade crua é essa: se a mulher não quiser ter o filho, ela vai abortar e pronto e não tem lei nenhuma que vai impedí-la. O problema disso tudo, obviamente, é que a ilegalidade do ato o obriga a ser realizado no "mercado negro", muitas vezes com métodos pouco ortodoxos que podem prejudicar a saúde da mãe e até matá-la.

Legalizando, aumentaríamos o número de abortos? Será? Como podemos saber com certeza quantos abortos são realizados na surdina para saber se não são exatamente estes que viriam a tona para serem realizados nos hospitais caso a lei passasse?

Muitos defendem que não adianta legalizar o aborto, se a lei não vier acompanhada de uma forte campanha de educação sexual para evitar gravidez indesejada. Bom, aí entramos em um nó argumentativo, pois se for depender disso, a discussão será adiada ad eternum. Todos sabemos que educação é um dos grandes problemas do nosso país e que não tem uma solução mágica e nem rápida. Aí o que fazemos? Vamos esperar e deixar mães morrendo e se ferindo até lá? Vamos deixar crianças indesejadas nascerem, serem jogadas no lixo, virarem bandidos?

Voltando aos ancencéfalos. Tão moral essa discussão, mas será que alguém parou para pensar no egoísmo dessa mãe que fez questão de ver nascer uma filha sem cérebro? O quão feliz pode ser uma criança que passa toda sua vida em uma cama de hospital sem a menor possibilidade de interagir com o mundo, falar, ouvir, sentir. É justo deixar nascer e prolongar uma vida assim?

Ó, moralidade que permeia discussões tão nobres em nossos tribunais. É moral uma presidiária, suspeita de envolvimento com milícias, representar os interesses da população? O pior é imaginar que ela tem muito mais chances do que uma pessoa de bem, de um médico ou sociólogo, que realmente deseja fazer algo de bom, mas não tem a menor chance em se comparando com a base política que um "Jerominho" tem.

Que moralidade é essa do nosso país? Que bem está nos fazendo essa suposta ética pétrea que vive aparecendo nessas discussões e que em nenhum momento dá suas caras para reler essas leis estúpidas que deixam que seres nojentos governem o nosso povo?
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Antigo 01-09-2008, 10:57
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Sem entrar na discussão do bebê ter ou não consciência, é o egoísmo que me chama atenção nessa discussão. Um egoísmo camuflado de discurso de “direito a vida”. Carregar um cadáver na barriga é direito a vida? Postergar um sofrimento inevitável é valido só pra dizer; “eu dei a luz”, “eu respeito a vida”... uma palhaçada.

Li a pouco tempo um relato que não estou achando. De uma mãe que lutou pra ter o direito ao aborto pois ela já estava sofrendo demais com a comprovação da anencefalia da filha, mas o governo não deu o direito ao aborto e ela foi abrigada a levar a gravidez até o fim. E como se não bastase dar a luz a um bebê com anencefalia que venho a falecer em poucos horas após o parto, teve que cuidar do enterro de sua filha. Mais de 9 meses que o estado obrigou a familia inteira a sofrer.

Não sei de que moral e ética estão falando.



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Antigo 01-09-2008, 11:07
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Ainda um outro agravante: como hoje em dia o aborto de anencéfalos só pode ser realizado com autorização judicial, na maioria dos casos ocorre que, sendo a nossa justiça uma das mais burocráticas e ineficientes do planeta, demora muito mais que nove meses para sair a decisão, logo a mãe é obrigada a ter um filho sem cérebro e enterrá-lo ainda neném (imagine o trauma que é uma coisa dessas) por que a justiça demorou muito para emitir a permissão.
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Antigo 01-09-2008, 11:21
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Parabéns pela visão lúcida!


resumindo : Isso aquí é uma pouca vergonha !
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Antigo 01-09-2008, 11:23
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Um amigo com muito humor negro e completamente insensível e idiota uma vez comparou essa situação a ter um vaso de planta em casa: Os dois não vão fazer nada, vivem por viver, mas é mais fácil ter a planta.

Eu condenei e censurei a brincadeira de mal gosto, mas não pude deixar de pensar que nem estado vegetativo essa criança teria, pq neste estado o cérebro pelo menos EXISTE.

O que em leva a crer que esta "moralidade" é apenas crueldade. É fácil para milhares de pessoas falarem contra este tipo de aborto. Não são elas que sofrem com o nascimento de uma criança acéfala.

Julgar imoral um ato destes sem sofrer na pele o drama é uma das piores hipocrisias que existem.


E é isso... Vlw ae:thumb:
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Antigo 01-09-2008, 13:15
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Muito bom esse tópico, eu andei comentando sobre essa questão da anencefalia aqui em casa.

Eu acho que a decisão de ter ou não ter essa criança deve vir da mãe. É ela quem vai carregar por 9 meses um bebê na barriga que nunca vai ser ninguém. Pq ser alguém é ter consciência do que se é, e esse bebê mesmo que viva 20 anos nunca vai ter. Aliás, já pensaram quanto dinheiro público é gasto pra manter essa criança viva? Esse dinheiro deveria ser gasto pra salvar outras vidas, de pessoas que realmente "existem".

Sei lá, tem gente que diz que eu sou muito fria nesse caso, mas se eu descobrisse que estou gestando um bebê anencéfalo, eu iria sim querer abortar. Não faz sentido nenhum levar uma gravidez dessas que você sabe que aquela criança irá morrer. Eu prefiro ter a opção de abortar e me preparar pra uma futura gravidez saudável. Eu não sou um monstro, só penso no que seria melhor pra mim. Acho que existem pessoas que gostariam de levar a gravidez até o fim pq defendem o "direito à vida". Então isso cabe a mãe decidir.

Aí também entra a questão das mães de bebês saudáveis que decidem abortar. Eu acho que cada um sabe onde seu calo aperta, não condeno ninguém que tenha abortado ou que decida abortar sabendo que não tem condições de educar uma criança. Na verdade acho que haveriam muito menos problemas sociais se não tivesse tanta criança nascendo de qualquer jeito e sendo abandonada ao Deus-dará... Claro que é preciso um maior desenvolvimento da educação sexual, mas enquanto isso não vem a gente faz o q? Senta e espera o país acabar de ser engolido pela delinqüência...

Agora um off-topic, não mto off: Essa discussão de "direito à vida" é uma coisa muito esquisita. Eu não consigo entender... por exemplo, no caso das pesquisas com células-tronco: pq preservar embriões que não servem pra nada, que não podem nem mesmo ser mais implantados em detrimento da saúde de milhões de pessoas que sofrem e que teriam sua saúde de volta se as pesquisas evoluíssem?

Qto aos nossos candidatos milicianos, acho que só nos resta não votar, divulgar pra que as pessoas não votem nesses cidadãos. Já que a justiça eleitoral nada faz, então que a gente faça a nossa parte. Se bem que eu desconfio muito desse lance de urna eletrônica, mas não vou levantar aqui uma questão que eu não sei se tem fundamento... eu só desconfio...
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Antigo 03-09-2008, 15:15
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O que eu vejo é um excesso de moralismo em umas situações e uma falta tremenda em outras.

Como já foi dito, quase ninguém deixa de fazer aborto pq é ilegal, assim como poucas pessoas deixam de usar drogas pq tb é ilegal. Quem quer fazer, faz, pq há mtos meios para isso. O mesmo mercado que supre o usuário tb supre as necessidades de grávidas desesperadas que não desejam essa situação.

Eu já fui radicalmente contra o aborto, participando até de discussões inflamadas aqui mesmo no fórum, a favor da vida. Após conhecer um pouco mais a saúde pública e entrar em contato com inúmeras mulheres e, sobretudo, adolescentes que já perderam a conta de qtos filhos tem e, mtas vezes, não sabem nem citar todos os nomes (isso não é brincadeira, aconteceu mesmo), passei a ter uma visão um pouco diferente sobre o assunto.

Controle de natalidade? Radicalismo demais para o meu gosto, com perda total do livre arbítrio. Planejamento Familiar? Bem, no Brasil isso é piada, resume-se a um termo, pq na prática quase não existe. Seria o ideal, mas até qdo vamos esperar surgirem os frutos dessa idéia?!? A classe média e rica tendo cada vez menos filhos e as classes mais pobres engordando a taxa de natalidade. Eu não preciso dizer qual será o resultado disso, pq é mto óbvio.

Já ficou claro que em países onde ocorreu a legalização das drogas, o consumo aumentou um pouco no início, mas depois teve uma queda, mantendo os níveis bem parecidos com os da pré-legalização. Então pq com o aborto vai ser tão diferente? As pessoas vão continuar não fazendo pq a igreja não permite, pq é anti-ético ou pq é contra a vida. Ou vão continuar fazendo pelos mesmos motivos de sempre, mas sem precisarem se expor a clínicas trambiqueiras e ao mercado negro de medicamentos.

Qto aos anencéfalos, acho que não preciso nem falar mto. Excesso de moralismo daqueles que não carregam por 9 meses um bêbe que nunca será um de nós. Se a mãe opta por isso, beleza, cada um sabe do seu. Mas obrigar alguém a passar por essa situação é mta sacanagem! (só falando assim mesmo)
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Antigo 03-09-2008, 21:06
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Roberto
 
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Postado Originalmente por diribuf Ver Post
Ainda um outro agravante: como hoje em dia o aborto de anencéfalos só pode ser realizado com autorização judicial, na maioria dos casos ocorre que, sendo a nossa justiça uma das mais burocráticas e ineficientes do planeta, demora muito mais que nove meses para sair a decisão, logo a mãe é obrigada a ter um filho sem cérebro e enterrá-lo ainda neném (imagine o trauma que é uma coisa dessas) por que a justiça demorou muito para emitir a permissão.
Além dessa demora, existe a possibilidade de que a mãe faça um aborto ilegal com uso de remédio e sem acompanhamento de um médico.Com isso a mãe pode perder a escolha de ter outro filho, pq sem um acompanhamento de um médico não se sabe se ficou resíduos, trazendo problemas graves de saúde para mãe. :thumbdown
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Osho

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Antigo 04-09-2008, 10:48
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Excelente tópico.

Estava também ja matutando sobre isso quando ouvi falar sobre esses casos de bebês acéfalos.
A primeira coisa que me vem a cabeça é que um ser humano acéfalo que nasce, na minha opinião ele não vive, ele simplesmente sobrevive, ou seja akela pessoa, não tera vida, não terá o direito de sentir, aprender, brincar, trabalhar, não poderá fazer abosolutamente nada que uma pessoa normal ou com outro tipo de deficiência poderia fazer.

Acho que esse falso moralismo brasileiro chegou ao fim do poço, corroborado com toda a burocracia que nós temos que enfrentar. Vimos ai agora o caso dos rapazes que tiveram que confessar sobre tortura que estupraram e assassinaram uma menina. Se o louco que ficou livre não voltasse a matar outras pessoas, esses rapazes ficariam na prisão por muito mais tempo. Agora o Estado de SP terá que arcar com uma gorda indenização, mas se RECUSA a pedir desculpas publicamente a esses 3 rapazes. Uma pouca vergonha.

Enfim... voltando aos acéfalos, se pensarmos friamente, quando o bebê nasce, ja ocorre o sofrimento da familia por 9 meses, e em poucas horas ele morre, deixando mais sofrimento e uma conta a mais para enterrar com dignidade este ser humano, um dinheiro que muitas das mães não tem...

Enfim acho que o governo deveria repensar muito suas ações e projetos de Leis.
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Rodrigo Tomazetto
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