Semana passada estava eu dando minha passada habitual pelo jornal online quando vi que estava sendo discutida no STF a legalidade do aborto no caso de fetos anencéfalos. Sou particularmente atraído por esse tipo de discussão pois elas são, em sua análise mais fria e básica, uma discussão moral e até metafísica, por que a ciência está longe, muito longe, de conseguir quantificar e qualificar o quão vivo e consciente é um ser sem cérebro.
Acompanhando a discussão pela mídia, li que o STF escutou representantes da Igreja Universal, da Católica, Espírita, cientistas, médicos, etc. Naturalmente é um tema polêmico e as opiniões divergem. A única posição óbvia e evidente é a da igreja católica, a qual eu não sei para que continuam ouvindo se já sabem o que vão dizer e repetir até o fim dos tempos. Alguns médicos defendem o término da gravidez, outros defendem mais pesquisas. A Igreja Universal apóia o aborto.
Os contrários ao aborto gostam de citar o caso da menina Marcela, que mesmo anencéfala, sobreviveu, no hospital, por um ano e oito meses, o que foi uma surpresa até para os médicos. Os favoráveis usam como base argumentativa principalmente a saúde e o direito de escolha da mãe.
Pequena pausa aqui em meu relato para comentar um outro caso e posteriormente fazer uma análise dos dois.
Estava na capa do jornal de domingo que Carminha Jerominho, filha do vereador de mesmo sobrenome, foi transferida para um presídio de segurança máxima, aonde não terá direito a visitas e só terá 2hs de banho de sol por dia. Ou seja, uma criminosa das piores.
Essa mesma Carminha, no entanto, está livre para aparecer diante de todo o povo brasileiro com a cara mais lavada que existe, pedindo o seu voto, dizendo que vai investir em saúde e segurança. Realmente, ela deve investir bem em segurança, já que junto com seu pai está envolvida em milícias. De repente ela está querendo incitar uma guerra civil. Muito bonito né? Isso tudo é possível por que nossa lei eleitoral é ridícula e permite que qualquer debilóide, sem nenhuma formação, se candidate a cargos públicos. Pior ainda, permite que mesmo aqueles que estejam sob julgamento e até os condenados concorram e ocupem tais cargos.
Agora voltando a discussão dos anencéfalos. Essa discussão traz à tona, querendo ou não, o tema do aborto em si. Premitir ou não que essa
prática, que já é amplamente conhecida e realizada desde que o mundo é mundo, seja legal. Os argumentos contra são basicamente aqueles morais, o direito inalienável à vida, etc. Os contra são, em geral, de cunho mais
prático: saúde e segurança píblica, direitos da mulher, etc.
A discussão moral não tem fim, nunca vai ter, pois ninguém em nenhum momento vai concordar que sua opinião é amoral ou fere a ética vigente, isso simplesmente não vai acontecer, muito menos com um juiz do STF. Por assim ser, as de cunho
prático deviam ser estressadas a um máximo, mas não o são, e se perdem em questionamentos de curto, médio e longo (infinito?) prazo.
Uma das questões mais problemáticas do aborto é o fato de que ele já é feito, a realidade crua é essa: se a mulher não quiser ter o filho, ela vai abortar e pronto e não tem lei nenhuma que vai impedí-la. O problema disso tudo, obviamente, é que a ilegalidade do ato o obriga a ser realizado no "mercado negro", muitas vezes com métodos pouco ortodoxos que podem prejudicar a saúde da mãe e até matá-la.
Legalizando, aumentaríamos o número de abortos? Será? Como podemos saber com certeza quantos abortos são realizados na surdina para saber se não são exatamente estes que viriam a tona para serem realizados nos hospitais caso a lei passasse?
Muitos defendem que não adianta legalizar o aborto, se a lei não vier acompanhada de uma forte campanha de educação sexual para evitar gravidez indesejada. Bom, aí entramos em um nó argumentativo, pois se for depender disso, a discussão será adiada
ad eternum. Todos sabemos que educação é um dos grandes problemas do nosso país e que não tem uma solução mágica e nem rápida. Aí o que fazemos? Vamos esperar e deixar mães morrendo e se ferindo até lá? Vamos deixar crianças indesejadas nascerem, serem jogadas no lixo, virarem bandidos?
Voltando aos ancencéfalos. Tão moral essa discussão, mas será que alguém parou para pensar no egoísmo dessa mãe que fez questão de ver nascer uma filha sem cérebro? O quão feliz pode ser uma criança que passa toda sua vida em uma cama de hospital sem a menor possibilidade de interagir com o mundo, falar, ouvir, sentir. É justo deixar nascer e prolongar uma vida assim?
Ó, moralidade que permeia discussões tão nobres em nossos tribunais. É moral uma presidiária, suspeita de envolvimento com milícias, representar os interesses da população? O pior é imaginar que ela tem muito mais chances do que uma pessoa de bem, de um médico ou sociólogo, que realmente deseja fazer algo de bom, mas não tem a menor chance em se comparando com a base política que um "Jerominho" tem.
Que moralidade é essa do nosso país? Que bem está nos fazendo essa suposta ética pétrea que vive aparecendo nessas discussões e que em nenhum momento dá suas caras para reler essas leis estúpidas que deixam que seres nojentos governem o nosso povo?