A conquista do tempo livre no mundo do trabalho e estudos transcende o direito de descanso e implica a oportunidade do exercício de funções individuais tais como distrair, desenvolver-se etc. Portanto, o tempo livre se inscreve num tempo social que permite a livre expressão do individuo em sociedade.
O lazer, pela sua extensão e pela infra-estrutura que ele supõe. É um fenômeno social da maior importância. Esse fenômeno movimenta renda gerando vários empregos. O lazer atualmente não é mais o privilegio de uma minoria ou de uma classe, mas o conjunto da população que reinvidica o direito a ele e, mesmo que ainda persistam fortes desigualdades, o direito ao lazer se tornou uma demanda social fundamental.
Se observarmos os diferentes aspectos da vida cotidiana – salário gasto na sobrevivência, jornada de trabalho longa e, algumas vezes intensa e penivel, moradia distante, falta de centros recreativos e culturais além do acréscimo de trabalho exigido pelas obrigações de ordem pessoal, o lazer é um tempo vital pra revitalizar os indivíduos de uma sociedade.
O lazer pode se tornar um tempo de “fuga” ou “anestesiante” o lazer que esvazia o homem de sua interioridade pelo processo de massificação. Assim cito como exemplo a televisão, que pode facilmente se tornar uma atividade compulsiva. Pratica que estimula o “homem fugindo de si próprio, negando o afrontamento consigo mesmo e com o mundo que o cerca, incapaz de encontros verdadeiros. É o vazio, o nada, o tédio, a alienação que vem como lazer, porém, aqui podemos encarar mais como um “antilazer”. E não é desse tipo de lazer que estamos falando!
O Homem de hoje a cada dia se aprisiona mais em um casulo invisível formado por todas as redes que lhe transmitem a distancia, imagens e ruidos do mundo. É preciso, despertar esses Homens do efeito das fascinações e reensinar a eles governar as imagens e a não suportar que elas sirvam a captura da sua liberdade.
É justamente nesse sentido que vemos o papel social importante das festas que no dizer de Balandier (1985) abrem espaços no interior da sociedade e ela não seria apenas um espetáculo onde se joga com a realidade e com o imaginário, mas, igualmente, oferece a possibilidade para uma participação ativa onde se criam momentos para a libertação física e psíquica propiciando a vivencia da conviviabilidade e solidariedade.
FESTA
O uso do tempo livre, o lazer não é, como aponta Maffesoli (1984), um divertimento de uso privado, mas, fundamentalmente, a conseqüência e o efeito de toda a sociabilidade em ato. A comunhão de emoções ou sensações difundida nesses momentos é, para ele, o que funda a vida social.
A festa é uma verdadeira “recr(e/i)ação” ao contrario de muitas formas de lazer pobres em criatividade, convivialidade e comunhão cominutária. As festas são ocasiões para as pessoas se reunirem e delas saírem fortalecidas. Nelas se instala o clima da descontração, despreocupação. Capra, em sua obra ás conexões ocultas (2002. S.n.) diz “a capacidade marcante do nosso planeta é a sua capacidade intrínseca de sustentar a vida” e sinto-me tentado a parafraseá-lo dizendo que a capacidade marcante do homem é a sua capacidade de sustentar a vida social. Entre os mecanismos alienantes da economia e as limitações opressoras do poder, o Homem reage infiltrando, nas fendas da sociedade, formas de vivencias revitalizadoras para recuperar seu sentido de participação e construção de identidade. Assim, numa convivência solidaria, em diferentes modos de ser e viver, os homens criam, imaginam e inventam formas de sustentar o humano no social, a identidade na impessoalidade.
A Festa – esses eternos rituais que acompanham o homem em momentos suspensos, extraídos da linearidade do tempo cotidiano – tem muitas modalidade, mas seja qual for a sua forma de expresão, os momentos de lazer proporcionados por elas, têm sempre um caráter participativo e a forma de convivialidade que ela cria reforça e nutre os laços sociais. O tempo vivido na Festa é um tempo extraído do cotidiano porque cria um envolvimento que permite um distanciamento das preocupações, especialmente aquelas decorrentes do trabalho e/ou medo subjacente de perdê-lo. A complexidade e riqueza das festas têm sido abordada por vários autores.
Rita de Cássia Amaral (1998), em Festa á brasileira”, diz que a festa é, conforme o contexto, capaz de celebrar, ironizar, sacralizar a experiência social e, também, pessoal. É capaz, ainda de resolver, pelo menos no plano simbólico, as contradições da vida social, apontando assim, para seu poderoso papel de mediador entre as estruturas econômicas, bem como entre as diferenças sociais e culturais, estabelecendo pontes entre grupos e indivíduos, realidade e utopias, além de suas mediações simbólicas entre o sagrado e o profano. Ainda segundo Amaral, a festa é capaz de apreender o sentido de cidadania proporcionando um despertar da consciência do grupo, de comunidade. Por essas razões, entre outras, que ela atribui, às festas, uma tríplice importância: cultural, por colocar em cena valores, projetos, artes e devoção; como modelo de ação popular e como produto turístico capaz de revitalizar e revigorar muitas cidades.
Referências:
AMARAL, Rita de Cássia de Mello Peixoto. Festa à brasileira. Tese apresentada ao departamento de antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. SP 1998
BOSI, Ecléa. Cultura de massa e cultura popular. Petrópolis: Vozes, 1994.
CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002. BALANDIER, Georges. Le détour, pouvoir e modernité. Paris: Fayard, 1985.
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Última edição por Roosevelt Soares; 01-06-2009 às 10:05.
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