O holocausto das crianças irlandesas
Histórias de padres que abusam de crianças são relativamente comuns.
A batina deveria impedir a lascívia criminosa. Infelizmente, algumas vezes isso não acontece.
Mas o que se viu na Irlanda foi uma espécie de Holocausto infantil. Um relatório divulgado hoje de 2 575 páginas nas quais é mostrado o que se passou em escolas industriais e orfanatos dirigidos pela Igreja Católica irlandesa de 1930 a 1990 trouxe revelações devastadoras para a imagem da Igreja Católica. Até o momento em que escrevo, o Vaticano não se manifestara oficialmente. Centenas de meninos e meninas, segundo o relatório, foram submetidos a abusos “endêmicos” por padres e freiras. O documento foi feito pela Comissão de Inquérito sobre Abuso Infantil. A comissão foi criada em 2000, depois que um documentário sobre violência contra crianças comoveu a Irlanda.
As vítimas de padres e freiras católicos eram crianças ou sem os pais ou oriundas de famílias classificadas como “disfuncionais”. Nessa categoria eram colocados, na Irlanda, lares de mães solteiras. Cerca de 35 000 pessoas passaram pelas escolas industriais e orfanatos católicos ao longo dos 60 anos cobertos pelas investigações. Mais de 1 000 delas foram ouvidas pela comissão ao longo de nove anos. Gente que estava morando em países como Estados Unidos e Austrália retornou à Irlanda para contar sua história.
Os abusos nos locais mantidos pela Igreja irlandesa - o último dos quais foi fechado no início da década de 90 - foram de toda natureza, segundo a comissão: sexuais, físicos, mentais. Os casos de estupro foram mais comuns em garotos do que em garotas. Cerca de 500 padres foram citados pelas vítimas, muitos deles já mortos. Nenhum nome, no entanto, apareceu no relatório por conta de uma ação judicial movida pela ordem contra a qual pairam mais denúncias, a dos Christian Brothers (Irmãos em Cristo). A ausência de nomes impede que o relatório seja usado pelas vítimas para fins de processo. Algumas delas fizeram uma manifestação de protesto em frente ao local, em Dublin, em que a comissão apresentou à imprensa seu trabalho. “Se eu soubesse que ia ser assim, não teria aberto minhas feridas”, disse um deles. Na foto acima, outro deles chora durante uma entrevista.
Os depoimentos traçam um quadro pavoroso (veja aqui um vídeo com a declaração de uma das vítimas). Os perpetradores de violências se protegiam uns aos outros. Crianças que se queixavam sofriam, com freqüência, retaliações. Os autores de violências às vezes eram deslocados de lugares, e o resultado é que encontravam novas presas.
Como tanta violência pode durar tantos anos é um desafio à lógica e, ao mesmo tempo, uma nódoa que a Igreja Católica na Irlanda terá dificuldades descomunais para mitigar. E não só ela: como uma rede de abusos funcionou por décadas sem que as autoridades irlandesas fizessem algo para resgatar as vítimas é outra pergunta sem resposta convincente que emerge das investigações. A mancha não é apenas moral - mas econômica. Alguns anos atrás, a Igreja irlandesa aceitou pagar mais de 110 milhões de dólares a vítimas de abusos que foram à Justiça. Há mais casos correndo, e calcula-se que a conta final das indenizações pode chegar a 1,3 bilhão de dólares.
Atrás de cada linha dos cinco volumes de revelações que a comissão irlandesa descortinou hoje em Dublin estavam crianças desvalidas, mal-afortunadas - meninos e meninas que encontraram miséria humana e suplícios exatamente de quem deveriam receber calor e redenção.
Fonte:
http://colunas.epoca.globo.com/pelomundo/