Globalidades, Surrealismo & Expressividades Eletro-Conteporâneas.
17 nov
Numa esquina de San Francisco nasceu a mais profunda revolução do século 20. O que sobrou do furacão psicodélico que começou ali na Haight com a Ashbury?

Por DAGOMIR MARQUEZI
—Jimi! Hei, Jimi!
— Será que havia algo naquele capuccino além de simples adoçante?
—Jimi!
Pode ser um flashback. Ou o efeito colateral dessa estranha névoa púrpura. Mas qualquer um pode jurar que aquele espectro atravessando o portão de ferro e puxando a fumaça roxa no seu vácuo é Jimi Hendrix em pessoa, ele e a namorada, calça boca-de-sino em farrapos, cabelão preso por uma bandana colorida e o cheiro de patchuli. Quanto ao Jimi, ele deveria estar beijando o céu, e não mais entrando numa casa da Haight,
O fantasma de Jimi e o de sua namorada e a névoa desaparecem e a Haight volta ao normal deste início do século 21:
turistas, punks, rastas, freaks, darks e… hippies. Hippies existem no mundo todo. A diferença é que eles surgiram ali, naquela rua.
Se não fosse pela Haight, a vida hoje seria diferente. São sete quarteirões, um gramado chamado Panhandle, duas ruas paralelas (Page e Waller), a entrada do vasto Golden Gate Park. Em uma hora o pedestre já viu tudo. O restaurante mexicano, o tailandês, os dois cafés, as lojas de roupa, a livraria “anarquista”, a casa de sucos, as três head shops. Por ironia, a primeira casa da Haight é um grande McDonald’s. Muito freqüentado pelos hippies, por sinal.
A nuvem púrpura voltou. Vamos entrar nela.
Em 1965, aquela, era uma vizinhança decadente de casas vitorianas típicas de San Francisco, com suas torres arredondadas e telhados “chapéu de bruxa”. Algumas daquelas mansões estavam sendo vendidas por 20 mil dólares. O que atraiu gente pobre do resto da cidade: trabalhadores braçais, escritores, negros, músicos beatniks e orientais fugindo da lotada Chinatown.
Mas aos poucos começou a aparecer outro tipo de gente esquisita nas redondezas da Haight: garotos de cabelos mais longos, meninas adolescentes de minissaia descendo com suas mochilas e violões de Kombis coloridas. O ponto de referência era uma esquina que se tonaria em meses a mais famosa do mundo: a Haight com a Ashbury. Numa região já acostumada a terremotos, aquela esquina seria o epicentro da mais duradoura de todas as revoluções do século 20.
23 mai

Há em Berlim uma casa que nunca fecha. Aquela noite que não termina jamais de fato pode começar a qualquer momento do dia, às 7h da manhã ou ainda às 10h. Lá todos os tempos se estendem, e noite e dia se transformam em outra coisa. Naquela imensa boate que pretende expandir o seu plano de existência, seu tempo infinito, sobre a vida e a cidade, construída em uma antiga fábrica, uma antiga usina de energia nazista, todo tipo de figura da noite se encontra, em uma festa fantástica alucinada que desejaria não terminar jamais.À luz da vida tecno, as ideias tradicionais de dia e de noite se revelam mais frágeis, bem mais insólitas do que a vida cotidiana sob o regime da produção nos leva a crer.
18 fev

Se o homem é uma “corda estendida entre o animal e o super-homem” sobre um abismo, como atestara Nietzsche, estamos sempre em um confronto. Ora queremos alçar brilhantes vôos rumo ao progresso, à onipotência, ora ser instintivos e entorpecidos em ritos e crimes dionisíacos. Mas o que nos resta é a corda, a meta, o vir a ser. Ficamos, assim, neste zigue-zague sempre com a iminência de um abismo.
Em tempos onde a arte e a cultura são sugadas pela maquina de homogeneização, a marginalidade pode ser a única forma de manter viva suas raízes refletindo a realidade sem maquiagem, dando voz a quem não tem voz e incentivando o pensamento critico, sem barreiras, original e fiel.
O homem moderno vem perdendo os laços que o vinculavam aos antigos hábitos culturais. Esse processo já vai longe na história da modernidade, quando toda a cosmologia medieval vai dando espaço à racionalidade do mundo moderno, numa seqüência contínua de destruição/construção.
Forças sociais e econômicas são alavancadas para dar continuidade ao progresso. A ciência e a razão tornam-se parâmetros para a situação do ser na história dessa passagem para o mundo moderno. A modernidade passa a se constituir numa força avassaladora na destruição do antigo e na construção do novo.
Ao final do processo, assistimos à emergência de um sujeito que passa a desconhecer tanto suas determinações íntimas como o caráter coletivo, social das forças que o atravessam. O sujeito passa a acreditar independente, “individual” entre seus semelhantes, tendo que ignorar (recalcar ou iludir-se?) todas as evidências de que é um ser dependente, desde a educação que lhe garantiu um lugar na sociedade e que é uma força continua, até mesmo para continuar em sua posição social, até a força de tradições e saberes implícitos no sistema de crenças e valores que ele acredita ter constituído sozinho, pelo poder da razão.
O resultado dessa operação é o desenvolvimento de uma aguda “consciência de si”, um ser individualista. Onde espaços segregados são criados e aqueles que produzem concretamente a cidade não se apropriam dela como projeto de sociedade urbana num espaço democrático.
Nesse sistema de massificação tudo na cidade torna-se mercadoria. No período atual, tudo que existe nela é mercadoria. O que deveria ser valor de uso torna-se valor de troca. As ruas, praças, espaços públicos como lugares da reunião e do encontro são também locais apropriados pela lógica do capital, que a tudo transforma e toma como possibilidade de realização de lucro e de ganho.
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