“Quero que as pessoas entendam

que sou como os outros.

Sou um da espécie humana

e deveria ser tratada(o) como

tal pela sociedade.

Não deveriam fechar-me numa caixa

com a etiqueta “x” ou “y”.


Flashbacks – Cap. VI – Parte 1

O paradoxo do tapa na pantera


Em 2006 o curta “Tapa na pantera” interpretado pela atriz Maria Alice Vergueiro obteve grande sucesso na internet em menos de uma semana, quando foi colocado no site do YouTube sem a permissão dos autores e por abordar de forma cômica um tema polêmico. Nesse curto tempo, o vídeo foi assistido por cerca de 235 mil internautas. O sucesso explica-se pelo humor contido no filme, como quando a personagem declara a seguinte frase: “fumo maconha há 30 anos, todos os dias, não pulo um, e não sou viciada…”

E quem já não cometeu um erro excêntrico de lógica como esse? Os exemplos são vários:

“eu bebo há 20 anos, só nos finais de semana, feriados, festinhas, e quando não tenho algo melhor pra fazer por tanto jamais serei um alcoólatra”

“eu bebo um litro de vodka sem problemas, e por isso estou livre dos males do vicio”

“eu fumo maconha todos os dias, principalmente quando tenho que pensar melhor ou lidar com processos criativos, por tanto a maconha não me atrapalha”

“eu tomo varias balas, vários doces e ainda bebo álcool pra caramba, tudo junto e não tenho uma overdose ou algum problema por misturar tudo, por tanto sei administrar essas substancias e quem morre por ai de overdose ou passa mal com a mistura de substancias, é um imbecil”

Se você se encaixou em algum desses pensamentos acima você já deu o primeiro passo pro condicionamento sutil a dependência dessas substâncias em seu cotidiano. Se você fica doido rápido, ou passa mal, parabéns. Seus alertas naturais estão funcionando e é bem provável que a primeira vista você seja naturalmente imune a dependência da substância provocadora do mal-estar.

Mas se você é do tipo “resistente” ao álcool e precisa beber mais do que todo mundo pra ficar bêbado, precisa tomar mais balas pra ter onda com o êxtase, precisa de mais ácido pra ficar imerso na lisérgia, precisa fumar mais ou constantemente pra ter uma sensação satisfatória, é certo de que seu sistema natural de alerta quebrou ou foi desativado por insistência e seu sistema de compensação esta a solta como um tarado excitado e viciado em sexo por sexo. Se isso não te incomoda à pergunta que você deve estar se fazendo agora é: “ué, se me dou bem com essas substâncias, porque devo ligar pra esse sistema natural de alerta que quebrou?”.

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É simples. Esqueça o tarado deselegante e imagine que você seja um piloto de jato supersônico, tipo aqueles do filme “Top Gun - Ases Indomáveis”, só que enquanto você pilota esse super jato e fica hipnotizado com a paisagem, você não percebe que seu painel de controle esta totalmente inutilizado e você não sabe quanto ainda tem de combustível, a bussola gira desgovernadamente, não tem nada que meça sua altitude, nem nenhum instrumento que avise se você esta de cabeça pra baixo ou de cabeça para cima. A única certeza é que você já decolou.

A decolagem pode ser atraente e se pensamos um pouco semelhante, talvez você concorde que só a sensação de voar, já valeria o risco de decolar em um jato tão poderoso mesmo com seu painel de comando inútil.

Mas se parar pra pensar mais racionalmente, percebera que você já esta dependente de uma substância externa ao mesmo tempo em que você criou um lugar especial pra essa sensação de voou e que de tão especial, a vida vai ficando sem graça sem essa sensação novamente.

Não vou falar sobre os riscos diretamente de saúde, nem criminais, afinal viver tem um potencial enorme de riscos fatais. Então vamos decolar e admirar as nuvens passando ao seu redor, sem limites, sem destino, voar, voar…

A pista de decolagem

Uma vez voando, é sinal de que em algum momento em sua vida você substituiu as ferramentas de comando e alertas sonoros da cabine do piloto por outras formas de navegação instintiva.

Longe do senso paternalista, do politicamente correto e do drama moral religioso, sabemos, que da pra viver de forma normal ao lado da sua bebidinha alcoólica, seu sintético, sua erva e outras substâncias. Principalmente quando você amplia sua pista de decolagem.

- O que seria isso?

O normal é humano ser recriminado pela sociedade, família e amigos, pelo uso de drogas ilícitas e ate as licitas como álcool, tabaco e remédios. Além de sofrer seus potencias riscos naturais, dentro dessas ações de “recriminação” existem táticas pra desestabilizar emocionalmente, intelectualmente, entre outras táticas variadas que tem o objetivo imediato de criar situações de conflito, constrangimento e punição ao usuário e praticante do voou. Essas táticas funcionam bem pro seu objetivo imediato quando o ser humano esta inserido de forma a depender de um sistema de regras familiares, muito rígidas como as que controlam crianças e adolescentes, por exemplo, que tem que prestar contas a família antes de prestarem conta a sociedade, de absolutamente tudo que fazem e deixam de fazer. Táticas que qualquer bom rebelde já esta acostumado a ignorar. E as mesmas táticas que parecem resolver um problema de imediato em primeiro plano, em segundo plano são responsáveis por fazer com que famílias inteiras se rachem, criando um funil de caos, dor e sofrimento - sentidos estes que a mídia, religião e sociedade justificam uma associação inseparável como fato conseqüência do uso de drogas.

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São inúmeros casos de pessoas da mesma família que usam drogas ilegais e ate legais, e por punição são postos em um sistema de crise, de punição sistemática, onde o humano envolvido tem cada vez mais sua liberdade destruída a base de jogos psicológicos que instauram stress emocional e físico, encurralado e punido, acuado e gerando cada vez mais magoas e raiva, na mesma proporção esquizofrênica que provocam o sofrimento excludente, eles cobram uma retomada da sanidade, da consciência, em prol do bem estar físico e mental do usuário = pretenso viciado. Afinal, vale o pensamento de que se o piloto não tem nada mais a perder, decolar fica longe da hipótese de risco e voar as cegas fica até mais prazeroso, talvez o único prazer que lhes sobre ao mesmo tempo em que saboreiam a mesma sensação de vingança inoculada no sistema de punição e alerta apresentado anteriormente.

Por algum motivo benéfico (pro bem, Hitler também matou um monte de pessoas), essas táticas foram pensadas e são estimuladas culturalmente pra garantir que aquele alerta que não despertou no inicio de alguma decolagem, soe e soe bem alto. Mas essa alerta esta quebrado, e eles ignoram essa possibilidade, assim como ignoram que voar é preciso, afinal, novamente de forma esquizofrênica, é isso que eles sempre estimulam (prazer, prazer, prazer, prazer…).

[continua...]

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