Numa esquina de San Francisco nasceu a mais profunda revolução do século 20. O que sobrou do furacão psicodélico que começou ali na Haight com a Ashbury?

haight-ashbury

Por DAGOMIR MARQUEZI


—Jimi! Hei, Jimi!

— Será que havia algo naquele capuccino além de simples adoçante?

—Jimi!

Pode ser um flashback. Ou o efeito colateral dessa estranha névoa púrpura. Mas qualquer um pode jurar que aquele espectro atravessando o portão de ferro e puxando a fumaça roxa no seu vácuo é Jimi Hendrix em pessoa, ele e a namorada, calça boca-de-sino em farrapos, cabelão preso por uma bandana colorida e o cheiro de patchuli. Quanto ao Jimi, ele deveria estar beijando o céu, e não mais entrando numa casa da Haight,

O fantasma de Jimi e o de sua namorada e a névoa desaparecem e a Haight volta ao normal deste início do século 21:

turistas, punks, rastas, freaks, darks e… hippies. Hippies existem no mundo todo. A diferença é que eles surgiram ali, naquela rua.

Se não fosse pela Haight, a vida hoje seria diferente. São sete quarteirões, um gramado chamado Panhandle, duas ruas paralelas (Page e Waller), a entrada do vasto Golden Gate Park. Em uma hora o pedestre já viu tudo. O restaurante mexicano, o tailandês, os dois cafés, as lojas de roupa, a livraria “anarquista”, a casa de sucos, as três head shops. Por ironia, a primeira casa da Haight é um grande McDonald’s. Muito freqüentado pelos hippies, por sinal.

A nuvem púrpura voltou. Vamos entrar nela.

Em 1965, aquela, era uma vizinhança decadente de casas vitorianas típicas de San Francisco, com suas torres arredondadas e telhados “chapéu de bruxa”. Algumas daquelas mansões estavam sendo vendidas por 20 mil dólares. O que atraiu gente pobre do resto da cidade: trabalhadores braçais, escritores, negros, músicos beatniks e orientais fugindo da lotada Chinatown.

Mas aos poucos começou a aparecer outro tipo de gente esquisita nas redondezas da Haight: garotos de cabelos mais longos, meninas adolescentes de minissaia descendo com suas mochilas e violões de Kombis coloridas. O ponto de referência era uma esquina que se tonaria em meses a mais famosa do mundo: a Haight com a Ashbury. Numa região já acostumada a terremotos, aquela esquina seria o epicentro da mais duradoura de todas as revoluções do século 20.


Consta que foi a jornalista Michael Fallon, do San Francisco Examiner, quem criou o termo “hippie”. É uma variação do termo “hip”. Que significa genericamente “ligado”, “por dentro das coisas’. Eles foram se espalhando pêlos casarões, e o cheiro de maconha queimada passou a fazer parte do ar de Haight-Ashbury.

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Seria apenas mais um grupo de malucos no mundo se não fosse o fator ácido. O LSD já linha 17 anos de idade e era usado em laboratórios de estudos neurológicos. Uma de suas cobaias foi o escritor Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho. Ele gostou da experiência e se tomou um divulgador da nova droga — até então perfeitamente legal. O ácido encontrou outro devoto defensor no professor de psicologia Timothy Leary, animado com a capacidade do LSD de “expandir a consciência” e ajudar a liberar pacientes de traumas e bloqueios.

A terceira parte do triângulo surgiu na figura de 0wsley Stanley III, que levou seu entusiasmo as últimas conseqüências: ele passou a produzir LSD em massa no seu laboratório particular e chegou à marca de l milhão de pílulas em dois anos. Como um alquimista, Owsley procurava a fórmula do ácido mais puro e mais potente. Não queria dinheiro em troca, só uma experiência mental coletiva única na história da humanidade.

No dia 24 de outubro de 1965. cada músico de uma banda chamada Warlocks tomou sua pílula de LSD e foi tocar num grande casarão de número 1090 da rua Page.

Durante 20 fins de semana, entre 1965 e 1966 centenas de hippies e simpatizantes pagaram 50 cents para freqüentar os festões de arromba no porão da Page 1090. Lá não havia cadeiras, só uma grande pista de dança. Um vizinho havia inventado uma nova forma de iluminação: a luz de um holofote atravessava um recipiente transparente no qual eram misturados água e nanquim colorido. Nascia o visual psicodélico.

A lendária Haight-Ashbury hoje se resume a uma loja de camisetas, um hippie fake e um cachorro entediado

Viajando de ácido, o guitarrista e líder dos Warlocks, um moreno bochechudo chamado Jerry Garcia, começou a esticar cada uma de suas canções em longos improvisos instrumentais e ligava uma música à outra, já que ninguém parava de dançar mesmo. Owsley comparecia com sua farta distribuição de LSD.

Uma das bandas que se alternavam com os Warlocks eram os Big Brothers & Holding Company. Seu guitarrista era famoso pêlos solos de 45 minutos, mas eles precisavam de um vocalista. A principal candidata se hospedaria num dos muitos quartos da Page 1090: uma texana gordinha, cheia de espinhas na cara chamada Janis Lyn Joplin.

A esquina da Haight com a Ashbury hoje tem uma loja de camisetas “psicodélicas”. Vende bijuterias, adesivos, bonecos de Jerry Garcia, medalhões com o símbolo da paz, postais lembrando os bons tempos. Aceitava todos os cartões de crédito.

Lá fora, um garoto de longos cabelos louros está sempre encostado no famoso poste da famosa esquina com seu violão e seu cachorrão marrom. Ele repete a cada um que passa como um robô: “Me dá um trocado?” O cachorro suspira de tédio. Uma mocinha recita suas poesias vestida como um anjo, com asas de papel-alumínio. Serão reais? Ou atores de um parque temático.

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Festão de verdade aconteceu na noite de 4 para 5 de dezembro de 1965. Hordas de hippies passaram por aquela esquina rumo sul, a caminho de San José. Lá aconteceu o primeiro (de 12) Acid Test públicos. Mais uma invenção de Ken Kesey e seus amigos. Nas paredes eram projetadas imagens psicodélicas junto com filmes antigos, todo mundo dançara como louco sob as luzes negras e estroboscópicas. Foi nessa mesma noite que a banda de Jerry Garcia deixou de ser os Warlocks para virar o Gratefúl Dead.

Testemunho de quem esteve lá e conseguiu lembrar o que aconteceu: todo mundo ficou doidão, muito esquisito. Aí começaram a tirar as roupas e ir para a rua, pelados. A revolução psicodélica havia começado.

Nessas festas, os autênticos hippies se misturam com diretores de teatro de vanguarda, poetas beatniks, gays, lésbicas, performers de rua e os “fraldas vermelhas” — os filhos da velha geração de comunistas da Califórnia. Os hippies vão criando a tal sociedade alternativa. O objetivo era curtir o momento, numa economia de perfil baixíssimo — em outras palavras, o comércio de artesanato e marijuana.

No dia lº de janeiro de 1966, foi aberta no 1535 da Haight a Psvchodelic Shop. Ela vendia livros e revistas e entre as estantes havia discretas “salas de meditação”. Meditando no escurinho, casais entravam em contato com o eu interior do outro e produziam os bebês hippies de amanha. Nada de regras, compromissos, de posse afetiva. O amor é livre.

Em janeiro de 1966, empresários alternativos e artistas expandiram o conceito dos Acid Tests para os Trip Festivals — grandes happnings reunindo 3 mil viajantes com música, teatro, iluminação psicodélica. Uma viagem de LSD sem LSD” — mas com LSD, claro. E com a primeira margem de lucro da era dos hippies — 16 mil dólares.

As histórias sobre Haight-Ashbury começam a se espalhar. Novos hippies chegam aos montes com fome e sem nenhum dinheiro. Um grupo de voluntários chamados Diggers se especializa em procurar restos de comida e preparar refeições gratuitas, distribuídas nos gramados do Panhandle.

Em abril de 1966, foram contados 1231 casos de desaparecimento de jovens nas ruas do Haight-Ashbury. É tanta gente que alguns recém-chegados começam a montar barracas num morro no Golden Gate Park — o Hippie Hill. São 15 mil hippies prontos para acreditar em qualquer coisa e para seguir qualquer guru.

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Tudo o que aqueles jovens querem é apenas um atalho para o nirvana. Tomam LSD como se toma aspirina. Passam uma pomada coreana na testa para acelerar o despertar da Terceira Visão. Comentam seriamente pelas ladeiras que a casca de banana, se devidamente secada ao sol e fumada, daria um grande barato. Existe até uma Mistery School, criada por outro milionário maluquinho. Transporte, hospedagem e alimentação de graça, seis dias aprendendo curas e segredos dos ritmos espirituais.

Em setembro de 1966, o Gratefúl Dead se muda para a 710 da Ashbury, O casarão abriga não só Jerry Garcia e seus colegas, como se transforma no principal ponto de encontro e agito do bairro. As Kombis coloridas continuam chegando. É gente demais, tomando ácido demais.

Durante uma das , festas da Page 1090, alguém jogou uma garrafa Coca-Cola pela janela e ela se espatifou aos pés de um policial. Foi a gota d’água para uma situação já tensa. Registra-se a primeira batida policial por porte de drogas. A moleza estava acabando. O sonho também.

No dia 2 de outubro de 1966, ocorre o último dos Acid Tests. Quatro dias depois o estado da Califórnia enquadra a produção e posse de LSD como crime. E com isso joga as pílulas nas mãos de traficantes. Na primeira semana depois da proibição, um jovem morreu num roubo de carro iniciando quatro dias de tumultos tensos, com ataques de rojões e bombas molotov. Hell’s Angels aparecem prometendo solidariedade e oferecendo truculência. O astral pesa.

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Hippies e Hell’s Angels continuam se encontrando hoje bem no início da Haight. Eles e outros freaks conversam numa boa entre si e fazem cara feia para estranhos. A grande atração do quarteirão não são eles, mas a Amoeba, provavelmente o maior sebo de som e imagem do mundo.

Polícia? Durante o dia, quase não aparece. Aparentemente nada acontece de ilegal na Haight. O que beira a ilegalidade são as head shops, algumas sobreviventes daquele Summer of Love. Elas vendem de tudo ligado a marijuana — menos a própria. Papéis de cigarro, cachimbos. narguilés, memorabilia, itens para colecionadores. Tudo dentro da lei. Os turistas sentem o gostinho do proibido.

Em 14 de janeiro de 1967, cerca de 35 mil malucos compareceram aos campos de pólo do Golden Cate Park para o “Human Be-in — Gathering of The Tribes”. Não eram apenas só hippies em busca de curtição, mas agitadores políticos ao microfone e Hell’s Angels rosnando os motores de suas Harley-Davidsons. Owsley providenciou uma jarra lotada de seu ácido lisérgico mais poderoso: o White Lightening. Teve show com algumas das melhores bandas da época, sanduíches de peru de graça, muito sol e o Grateful Dead fez todo mundo dançar.

Mas algo havia se perdido. O Verão do Amor de 1967, o maior de todos, já era uma caricatura vazia do passado. Jovens inocentes em busca de drogas, rock e sexo fácil.

No número 636 da Cole mora um baixinho barbudo. Seu nome é Charles Manson, e ele passou a maior parte da vida em instituições penais. Saiu da prisão direto para Haight-Ashbury. Tomou seu primeiro ácido e decidiu que era Jesus Cristo. Virou mais um guru. Conseguiu sua primeira seguidora. Depois outra, e outra, e outra. Depois, alguns garotos. Na Cole 636 nascia a célebre Família Manson.

“Um vale com milhares de coelhinhos brancos cercados por coiotes famintos”

Em junho de 1967, estoura nas paradas a canção épica com Scott McKenzie, que aconselha o resto do planeta:

“Se você for a San Francisco não se esqueça de levar algumas flores nos cabelos”. Clones de hippies invadem os jardins das senhoras para arrancar as flores e seguir a moda. Hordas de falsos hippies são a maioria no grande Festival Monterey Pop, no fim de semana de 16 de julho. Janis Joplin lixa a garganta com Balis and Chains. Jimi Hendrix faz sexo com sua guitarra e bota fogo nela. Yeah, baby, yeah!

No verão de 1967, 75 mil jovens passam férias no Haight-Ashbury. Nas palavras do escritor Ed Sanders, “um vale de milhares de fofinhos coelhinhos brancos cercados por coiotes famintos”. Nem todo cabeludo de bandana na cabeça é hippie de verdade. Alguns roubam, alguns estupram e outros vendem orégano como se fosse maconha. Uma grande epidemia de doenças venéreas se espalha.

Em 6 de outubro de 1967, é decretado o Dia da Morte do Hippie. Um caixão simbólico é transportado pela Haight. Quatro dias antes, a polícia de San Francisco tinha decidido “dar um exemplo” na casa dos Gratefui Dead. Prenderam uns dez. Jerry Garcia escapou, mas a decepção estava no ar. As Kombis e os ônibus, todos coloridos, começam a partir. Só o ônibus da Família Manson era todo negro.

A casa da Hashbury 710 hoje deve valer mais de 1 milhão de dólares. Está muito bem conservada, protegida por um portão. Aparentemente é habitada por gente normal. Vizinhança familiar, conservadora. Aos sábados alguns velhos ripongas remanescentes fazem uma feira de antiguidades na freme da casa. A calma é medida pêlos pássaros, raros carros aparecem c quase ninguém cruza a rua.

Mas quem está saindo pela frente sem abrir a porta? Outro espectro colorido… Jerry! Firme, decidido. Jim fantasma com atitude.

(Em 3 de março de 1968 Jerry Garcia deu seu último concerto gratuito com o Dead no Haight e não pediu autorização para isso. Logo em seguida o Dead partia para Los Angeles para começar uma nova fase em sua carreira.)

Quase em frente ao 710 está a bela casa 635, rosada e branca, flores na varanda. Quem é aquela sombra de mulher de cabelão armado que parece cantar atrás da vidraça? Será impressão ou sua aparição está arrumando as malas?

Jerry Garcia se despede do bairro, Janis se prepara para uma longa temporada em Nova York. O Haight está insuportavelmente lotado e degenerado. Os tempos de maconha e ácido ficaram para trás. O que Janis quer agora está difícil de achar na região — heroína.

Jimi e Janis estão mortos. Charles Manson se toma um serial killer. O sonho acabou. Acabou?

No dia 9 de agosto de 1969, o que restava da boa imagem dos hippies se derreteu com um grito de terror numa casa nas colinas de Hollywood. A atriz Sharon Tate estava morta, retalhada no oitavo mês de gravidez de seu filho com o diretor Roman Polanski. O feto, morto e pendurado ao seu lado.

Roman Polanski and Sharon Tate

As investigações levaram a um Charles Manson enlouquecido em sua egotrip. Sua família de hippies virou uma armada de assassinos demonistas, garotinhas de minissaia com flores nos cabelos e longas facas nas mãos. Ao lado de Sharon Tate, mais três mortos num lago de sangue. Muitas outras vítimas seriam reveladas nos dias seguintes.

No dia 6 de dezembro, o festival de Altamont (um subúrbio a nordeste de San Francisco) se transformou num horror-show de violência, más vibrações e um choque mortal entre negros e Hell Angels. No 31 de janeiro de 1970, todos os membros do Gratenful Dead foram presos em Nova Orleans por posse de drogas. A banda descobre que foi roubada em 150 mil dólares por um empresário desonesto.

Em 18 de setembro de 1970, Jimi Hendrix se afoga no próprio vômito depois de uma overdose em Londres. Quinze dias após, Janis Joplin se hospeda num hotelzinho de Los Angeles, freqüentado por traficantes. Compra uma dose “pura demais”. Cai entre a cama e a escrivaninha e não levanta mais.

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O velho sonho colorido acabou nas ruas tranqüilas de Haight-Ashbury. Virou um bairro comum, ao lado um dos mais belos parques urbanos do mundo. Possui uma rua famosa, onde circulam turistas e fantasmas.

Acabou? O escritor John Bassett McCleary diz — hoje — que não. “Verdadeiros hippies ainda acreditam em deixar os outros rezar para qualquer deus, dormir com qualquer adulto que concorde, comer, beber ou ingerir o que quiser e dançar com qualquer música. Verdadeiros hippies são evolucionários, não revolucionários. Nós convencemos os outros com palavras, não com armas. Acreditamos apaixonadamente em democracia e livre-iniciativa (mas não no capitalismo). Alguns dizem que somos uma piada, mas não existe outra razão para nossas ações a não ser ver a paz, a prosperidade e o amor para todos.”

E tem mais: os acid tests viraram raves, o ácido virou ecstase. Os ideais (ambientalistas. espirituais, libertários) se adaptaram aos novos tempos e saíram dos guetos. Viagens alucinadas hoje acontecem em computadores e aparelhos de DVDs. Bandas neo-psicodélicas jamais abandonam as paradas de sucesso. A moda hippie sobrevive a cada geração. E Austin Powers já está no terceiro filme. Yeah, baby, yeah!

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