Blog do Roger Lyra

Um papo direto e franco sobre a cultura dos djs e a cena eletrônica atual

Com os últimos dias de verão chegando no final em nosso calendário e o carnaval já no passado, a cidade maravilhosa retorna a sua rotina… Mas será que essa tal rotina é tão diferente assim desde período dominado pelo rei momo?

Olhando um pouco para a minha agenda de eventos ao longo do verão e lembrando um pouco do público que foi onipresente em alguns eventos onde estive com perfis muito diferentes, percebo que é impressionante a capacidade do carioca de assimilar uma grande variedade musical absolutamente distinta, e mesmo continuar se divertindo como nunca, apreciando e respeitando os diversos estilos em sequencia. Exemplo maior disso foram os sunset´s que rolavam na Praia do Pepê ao longo do Verão, aos sabados. Em que país do mundo seria possivel encontrar uma bateria de escola de samba tocando em plena praia, tendo na sequencia um DJ tocando música eletronica e o público delirando em ambos os momentos.. Exotico? Talvez sim, mas no rio funciona e em algumas edições do evento, foi a minha melhor gig do final de semana. Parece incrível, mas só quem esteve lá em alguma edição sabe como foi bacana.

É impressionante a capacidade de tolerância do carioca, e é claro que isso tem um lado bom e outro ruim. Constantemente sou convidado para participar de eventos no formato considerado “MIX”, ou seja, que reúnem vários estilos de som na mesma noite, seja em apenas 1 palco ou com várias pistas, e as vezes me surpreendo com o resultado dessas festas consideradas “trash” por alguns DJ´s, justamente porque o descompromisso das pessoas que frequentam estes eventos gera uma liberdade total para simplesmente se divertir. É muito comum no rio em noites puramente eletrônicas, ver algumas pessoas paradas na pista ou próximo a cabine avaliando as mixagens, o repertório, e todo o conjunto de itens com fosse fosse um júri em pleno dancefllor, imóveis e estáticos como uma múmia, sem se divertir. Reconheço que isso as vezes me irrita, e nestas horas eu procuro na pista o lado oposto, e encontro muito mais gente se divertindo pra valer e se emocioando com o som, mostrando que saíram de casa exclusivamente para dançar e se divertir isentas de julgamentos ou pré-conceitos, normalmente pagando seu ingresso, diferente dos críticos de plantão que normalmente entram de graça e bebem no máximo um copo d´agua a noite toda.

Acho que esta minha facilidade ao me adaptar as diversas necessidades que cada evento no rio tem, vem da minha escola musical calçada em um tempo onde os DJ´s tocavam de tudo, sem preconceitos. gostou, tocou, simples assim. Lembrando também da palestra onde eu participei como mediador no RMC 2009 onde o Anderson Noise foi um dos palestrantes e deu um testemunho pessoal que gerou uma grande repercussão por ter uma abordagem polemica no seu ponto de vista, percebo o quanto as pessoas podem ser diferentes e ao mesmo tempo autênticas. Ao mesmo tempo que o Noise vem de uma cultura underground e defende maior espaço para o som underground no circuito eletronico, afirmando que para se tocar hoje no Brasil o DJ tem que ser amigo dos promoters, eu tenho uma visão quase oposta tendo como base a minha experiencia pessoal, mas entendo perfeitamente a visão dele. Concordo que é verdade que o famoso “network” feito por alguns dj´s atualmente passou do limite que eu considero saudável para um resultado profissional de longo prazo, afinal, ninguém vai continuar bookando alguém porquê ele é “gente boa” ou “engraçado” ao longo de 5 ou 10 anos. Esse “network” quando bem feito, vai somar a capacidade e talento do artista, e não se tornar o pronto principal do seu trabalho.

A verdade é que na altura do campeonato eu assumi uma postura meio “Live and let Die” e desacelerei minhas insistentes tentativas de mudar o mundo ou convencer alguém de alguma coisa, portanto, o que vale mesmo é seguir o seu caminho em paz com o que vc acredita, tocando o som que você gosta e ponto final. O resto é detalhe.

Abraços a todos.

Roger Lyra

A evolução da cultura do DJ

Olá Amigos,

Antes de começar de fato a coluna, gostaria de parabenizar a todo o staff Plural.org pelo upgrade e nova fase do site, agora no formato portal, oferecendo muito mais conteúdo e atingindo em cheio o amante da musica eletrônica, que independente do estilo musical preferido, vem em busca de informação. Aproveitando este momento de evolução do site, vou usar como tema desta primeira coluna a evolução no mundo dos DJs. Aqui, quinzenalmente vou dividir com vocês a minha visão sobre diversos assuntos relacionados a cultura dos Djs e sobre o mundo da musica e entretenimento em geral, portanto, bem vindos a bordo.

Neste final de semana passado tive a felicidade de participar de um evento para relembrar o primeiro baile que freqüentei durante os anos 80. Não, você não leu errado, eu disse baile mesmo. Para quem me conhece a pouco tempo, pode soar estranho mas o inicio da minha carreira foi fundamentado nos bailes da zona norte e oeste onde em 85-86, quando eu começava a me interessar em ser DJ, o que bombava nas festas era o rock e a onda new-wave. Tive a oportunidade de ver a evolução do publico que ouvia The Smiths, The Cure, The Clash e Simple Minds, ter os primeiros contatos com nomes como Depeche Mode, Information Society e principalmente New Order, que ao lançar o álbum duplo ”1987”, literalmente mudou a minha vida e me fez largar a banda do colégio onde eu tocava teclado para começar a freqüentar matines como a Zoom em São Conrado, onde pela primeira vez percebi de fato que tinha alguém tocando as musicas ao vivo e que o “discotecário” ou o “disck-joquei” era o responsável por escolher as musicas, tudo acontecendo ali na minha frente. Apartir deste momento, sem nem saber ainda, eu estava traçando os próximos 20 anos da minha vida.

Quando fiquei um pouco mais velho, além de freqüentar as matines consegui convencer meus pais a freqüentar um baile bem próximo da minha casa, dentro de uma área militar. Estes bailes eram somente aos domingos, as famosas Domingueiras, e eram uma verdadeira febre pela zona norte e oeste, sempre no mesmo horário: das oito a meia-noite. Nesta 4 horas de duração a diversidade musical era impressionante. Não me lembro de encontrar limites quando o assunto era musica boa, o que valia mesmo era o seu resultado na pista. Não era difícil ver os DJs da época tocando musicas que ninguém mais tocava, fazendo a opção simples de acreditar naquela musica por conhecer o publico que freqüentava o seu baile, fazendo com que por muitas vezes esta musica fosse a mais esperada do baile, e quando eu digo isso, estou realmente dizendo que as pessoas saiam de casa, pagavam o ingresso do baile pra literalmente escutar aquela musica, que era o auge da noite. Não dava nem pra pensar em voltar pra casa sem ouvi-la, era o momento máximo do baile e uma música que por anos seria um ícone daquele baile, e que por muitas vezes só seria ouvida lá, afinal, estamos falando de uma época onde o Vinyl era a única mídia de alta qualidade e na maioria dos casos eram importados, lançados por um selo obscuro de Miami ou então de uma gravadora alemã, que só prensou 500 copias e faliu. Era um verdadeiro pesadelo ter acesso a este tipo de disco que no mercado negro poderia ser vendido a 100 ou 200 dólares, ou em último caso, a solução era conseguir na base da amizade, gravar em fita-cassete pra ouvir em casa ou tocar no seu baile.

Mesmo sem o hype e a mídia que é comum aos DJs atualmente, os chamados “DJs residentes” dos principais bailes e matines durante os anos 80 e 90 eram verdadeiros ícones sem o devido reconhecimento, influenciando toda uma geração de DJs que dava seus primeiros passos nesta época e só tinham como fonte de atualização musical as rádios FM e seus raríssimos momentos com espaço para Djs, ou então um amigo que estivesse viajando para fora do Brasil, trazendo uma revista ou então um disco que acabou de sair lá fora. Muitas vezes, as musicas que eram tocadas aqui no Brasil tinham sido lançadas no exterior a 5 ou 6 anos, o que tornava ainda mais difícil conseguir achar o disco pra comprar. Fatos como este são provas incontestáveis de que o que importa de verdade é a qualidade da musica e não a data que ela foi lançada.

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DJ e Produtor musical com 22 anos de carreira, Roger Lyra divide o seu tempo entre gigs por todo o Brasil e em seu Home-Studo, atuando paralelamente como Radialista, Produtor de Eventos, Empresario e Diretor Artistico do seu selo, o NRG Music.

Site Oficial: www.rogerlyra.com.br
MySpace: www.myspace.com/rogerlyra

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