A BRUXA DE PORTOBELLO E A DANÇA DO AUSENTE

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Faz algum tempo atrás eu li o livro “A Bruxa de Portobello” do Paulo Coelho. Este livro traz a história de Athena narrada pelas pessoas que conviveram com ela. Tudo ficção, lógico, mas a forma como o paulo coelho descreve a relação de athena com a dança é no mínimo revelador para nós Dançarinos do Ausente.

Por isso eu destaquei do livro os principais trechos que tratam dessa relação. Quem leu o post sobre a Dança do Ausente vai imediatamente reconhecer as diversas semelhanças entre os textos e perceber que a Dança do Ausente é universal, apesar de ganhar características próprias dependendo do contexto em que é aplicada.

Vamos ao Texto, lembrando que são trechos editados e reogarnizados numa sequencia não-linear que é infiel a estrutura original do livro…

Trechos do Livro “A Bruxa de Portobello”

A música é tão antiga quanto os seres humanos, me explicaram depois. Nossos ancestrais, que viajavam de caverna em caverna, não podiam carregar muitas coisas, mas a arqueologia moderna mostra que, além do pouco que necessitavam para comer, na bagagem havia sempre um instrumento musical, geralmente um tambor. A música não é apenas algo que nos conforte, ou que nos distraia, mas vai além disso é uma ideologia. Você conhece as pessoas pelo tipo de música que elas escutam.

Tudo se move. E tudo se move com um ritmo. E tudo que se move com um ritmo provoca um som; isso está acontecendo aqui e em qualquer lugar do mundo neste momento. Nossos ancestrais notaram a mesma coisa, quando procuravam fugir do frio em suas cavernas: as coisas se moviam e faziam barulho. “Os primeiros seres humanos talvez tivessem olhado isso com espanto, e logo em seguida com devoção: entenderam que esta era a maneira de uma Entidade Superior comunicar-se com eles. Passaram a imitar os ruídos e os movimentos à sua volta, na esperança de comunicar-se também com esta Entidade: a dança e a música acabavam de nascer. Há alguns dias você me disse que, dançando, consegue comunicar-se com algo mais poderoso que você.”

— Quando danço, sou uma mulher livre. Melhor dizendo, sou um espírito livre, que pode viajar pelo universo,
olhar o presente, adivinhar o futuro, transformar-se em energia pura. E isso me dá um imenso prazer, uma alegria que está sempre muito mais além das coisas que já experimentei, e que terei que experimentar ao longo de minha existência.

Expliquei que a dança que vira nos dias anteriores, realizada por pessoas de todas as idades (no momento éramos um grupo de dez pessoas, entre 19 e 65 anos), tinha sido batizada por mim de “a busca do Vértice”.

— Não precisa me explicar o que vi: gente dançando de olhos fechados, e sei o que isso significa, porque muitas
vezes faço a mesma coisa, são os únicos momentos de paz e de serenidade na minha vida. Antes de ser mãe, freqüentava boates com meu marido e meus amigos; ali também via gente na pista de dança com os olhos fechados, algumas apenas para impressionar os outros, outras como se fossem movidas por uma força maior, mais poderosa. E, desde que me entendo por gente, encontrei na dança uma maneira de conectar-me com algo mais forte, mais poderoso que eu. Mas queria saber que música é essa.

Athena perguntou onde eu havia descoberto isso. Contei-lhe que, logo depois do final da Segunda
Guerra, parte de minha família tinha conseguido escapar do regime comunista que estava sendo instalado na Polônia, resolvendo mudar-se para a Inglaterra. Escutaram dizer que, entre as coisas que deviam trazer, estavam objetos de arte e livros antigos, muito valorizados nesta parte do mundo. De fato, quadros e esculturas foram logo vendidos, mas os livros ficaram em um canto, enchendo-se de poeira. Como minha mãe queria obrigar-me a ler e falar polonês, eles serviram para minha educação. Um belo dia, dentro de uma edição do século XIX de Thomas Malthus, descobri duas folhas de anotações de meu avô, morto em um campo de concentração. Athena me interrompeu:

— Mas não se pode escrever sobre dança. É preciso dançar.

— Exato. No fundo, as anotações diziam apenas isso: dançar até a exaustão, como se fôssemos alpinistas subindo
esta colina, esta montanha sagrada. Dançar até que, por causa da respiração ofegante, nosso organismo possa receber oxigênio de uma maneira que não está acostumado, e isso termina por fazer com que percamos nossa identidade, nossa relação com o espaço e o tempo. Dançar ao som de percussão apenas, repetir o processo todos os dias, entender que em determinado momento os olhos se fecham naturalmente, e passamos a enxergar uma luz que vem de dentro de nós, que responde nossas perguntas, que desenvolve nossos poderes escondidos.

— O senhor já desenvolveu algum poder?

Em vez de responder, sugeri que se juntasse ao nosso grupo…

No dia seguinte, na hora que sempre começávamos a sessão, ela estava ali. Apresentei-a aos meus companheiros,
explicando apenas que se tratava da vizinha do apartamento de cima; ninguém disse nada sobre sua vida, nem perguntou o que ela fazia. Quando chegou a hora marcada, liguei o som e começamos a dançar. Ela iniciou seus passos com o menino no colo, mas ele logo dormiu, e Athena o colocou no sofá. Antes de fechar meus olhos e entrar em transe, vi que ela tinha entendido exatamente o caminho do Vértice.

— Sabe o que eu descobri? Que embora o êxtase seja a capacidade de sair de si mesmo, a dança é uma maneira de subir ao espaço. Descobrir novas dimensões, e mesmo assim continuar em contato com seu corpo. Com a dança, o mundo espiritual e o mundo real conseguem conviver sem conflitos. Acho que os bailarinos clássicos ficam na ponta dos pés porque estão ao mesmo tempo tocando a terra e alcançando os céus.

Que eu possa me lembrar, estas foram suas últimas palavras. Durante qualquer dança à qual nos entregamos com
alegria, o cérebro perde o seu poder de controle, e o coração toma as rédeas do corpo. Só neste momento o Vértice aparece. Desde que acreditemos nele, claro.
……………….

Dez minutos depois da música ter começado, ela levantou-se. Mas o que eu vi dali por diante — melhor dizendo,
o que todo mundo no restaurante viu foi uma deusa que se mostrava em toda a sua glória, uma sacerdotisa que evocava anjos e demônios. Seus olhos estavam fechados, e ela parecia já não ter mais consciência de quem era, de onde estava, do que procurava do mundo; era como se flutuasse invocando o seu passado, revelando seu presente, descobrindo e profetizando o futuro. Misturava erotismo e castidade, pornografia e revelação, adoração de Deus e da natureza ao mesmo tempo.

As pessoas todas pararam de comer, e começaram a olhar o que estava acontecendo. Ela já não seguia a música,
eram os músicos que procuravam acompanhar seus passos, e aquele restaurante no subsolo de um antigo edifício na cidade de Sibiu transformou-se em um templo egípcio, onde as adoradoras de Ísis costumavam reunir-se para seus ritos de fertilidade. O odor da carne assada e do vinho mudou para um incenso que nos elevava ao mesmo transe, à mesma experiência de sair do mundo e entrar em uma dimensão desconhecida.

Os instrumentos de corda e de sopro já não tocavam mais, apenas a percussão continuou. Athena dançava como se não estivesse mais ali, o suor pingando do rosto, os pés descalços batendo com força no chão de madeira. Uma mulher levantou-se e, gentilmente, amarrou um lenço em seu pescoço e seus seios, já que sua blusa ameaçava toda hora escorregar do ombro.

Mas ela pareceu não notar, estava em outras esferas, experimentava as fronteiras de mundos que quase tocam no nosso, mas que nunca se deixam revelar. As pessoas no restaurante começaram a bater palmas para acompanhar a música, e Athena dançava com mais velocidade, captando a energia daquelas palmas, girando em torno de si mesma, equilibrando-se no vazio, arrebatando tudo que nós, pobres mortais, devíamos oferecer à divindade suprema.

E, de repente, parou. Todos pararam, inclusive os músicos que tocavam a percussão. Seus olhos ainda continuavam fechados, mas lágrimas rolavam pelo rosto. Levantou os braços para os céus, e gritou:

— Quando eu morrer, enterrem-me de pé, porque vivi de joelhos toda a minha vida!

Ninguém disse nada. Ela abriu os olhos como se despertasse de um sono profundo, e caminhou para a mesa, como se nada tivesse acontecido.
…………

Um velho amigo meu costuma dizer: “a gente aprende 25% com o mestre, 25% escutando a si mesmo, 25% com os amigos, e 25% com o tempo”. No primeiro encontro na casa de Athena, onde ela pretendia terminar a aula interrompida no teatro, todos nós aprendemos com… não sei. Nos esperava na pequena sala de seu apartamento,
junto com o filho. Reparei que o lugar era totalmente branco, vazio, exceto por um móvel com um aparelho de som em cima, e uma pilha de CDs.

Explicou que ia colocar uma música vinda da Sibéria, e que todos simplesmente deviam escutar. Mais nada.

— Eu não consigo chegar a lugar nenhum através da meditação — disse. — Vejo estas pessoas sentadas de olhos
fechados, um sorriso nos lábios, suas caras sérias, a postura arrogante, concentradíssimas em absolutamente nada, convencidas que estão em contato com Deus ou com a Deusa. Pelo menos, escutaremos música juntos.

— Desta vez, dancem em um ritmo que não tenha nada, absolutamente nada a ver com a melodia.

Athena colocou-a de novo, com o volume bem mais alto, e começou a mover seu corpo sem qualquer harmonia.
Apenas um senhor mais velho, que na peça representava um rei bêbado, fez o que tinha sido mandado. Ninguém se mexeu; as pessoas pareciam um pouco constrangidas. Uma delas olhou o relógio — haviam se passado apenas dez minutos. Athena parou e olhou em volta:

— Por que estão parados?

— Me parece… um pouco ridículo fazer isso — escutou-se a voz tímida de uma atriz. — Aprendemos a harmonia,
não o oposto.

— Pois façam o que digo. Precisam de uma explicação intelectual? Eu dou: as mudanças só acontecem quando fazemos algo que vai contra, totalmente contra tudo que estamos
acostumados.

E virando-se para o “rei bêbado”:

— Por que você aceitou seguir a música fora do ritmo?

— Nada mais fácil: nunca aprendi a dançar.

Todos riram, e a nuvem escura que estava pairando no lugar pareceu ir embora.

— Muito bem, vou começar de novo, e vocês podem seguir o que sugiro, ou podem ir embora — desta vez sou eu quem decide a hora de terminar a conferência. Uma das coisas mais agressivas no ser humano é ir contra o que acha bonito, e faremos isso hoje. Vamos dançar mal. Todo mundo.

Era apenas uma experiência a mais, e para não deixar constrangida a dona da casa, todo mundo dançou mal. Eu lutava contra mim mesmo, porque a tendência era seguir aquela percussão maravilhosa, misteriosa. Sentia-me como se estivesse agredindo os músicos que a tocavam, o compositor que a imaginou. Volta e meia meu corpo queria lutar contra a falta de harmonia, e eu o obrigava a comportar-se como estava mandando. O garoto também dançava, rindo o tempo inteiro, mas em determinado momento parou e sentou-se no sofá, talvez exausto pelo esforço que estava fazendo. O CD foi desligado no meio de um acorde.

— Esperem.

Todos esperaram.

— Vou fazer algo que nunca fiz.

Ela fechou os olhos, e colocou a cabeça entre as mãos.

— Nunca dancei fora do ritmo…

Então, a prova parecia ter sido pior para ela que para qualquer um de nós. Portanto, eu posso “ver” o que aconteceu, embora não estivesse ali; a alma de Athena seguindo os sons da música, e seu corpo indo em direção totalmente contrária. Depois de algum tempo, a alma se desligou do corpo, um espaço foi aberto, e a Mãe finalmente pôde entrar. Melhor dizendo: uma centelha da Mãe apareceu ali. Antiga, mas com aparência jovem. Sábia, mas não onipotente. Especial, mas sem arrogância. A percepção mudou, e ela passou a ver as mesmas coisas que enxergava quando criança — os universos paralelos que povoam este mundo. Neste momento, podemos ver não apenas o corpo físico, mas as emoções das pessoas. Dizem que os gatos têm o mesmo poder, e eu acredito.

(A Bruxa de Portobello, Paulo Coelho)