Pesquisa. Parte 4 - A ritualidade e os fatores sociais das raves

Posted by Renan Reis on abril 19, 2009 | 4 Comments

Continuando a pesquisa postada no post anterior:

A ritualidade e os fatores sociais das raves

Raves são festas que ocorrem em locais distantes de centros urbanos, com longa duração e tocando unicamente música eletrônica. No caso em particular, a vertente eletrônica é psicodélica, o Psy-Trance. Atualmente percebe-se um grande aumento de freqüentadores, havendo festas com cerca de trinta mil pessoas. Conseqüentemente, muitos destes freqüentadores se apropriam deste tipo de festa para poderem desfrutar da liberdade de consumo de drogas, ignorando a cultura por traz destas festas.

Com toda uma diversidade de público tais festas se tornam um fato social total, pois nelas se encontram muitas influências e fatores determinantes que abranjem todos os campos de atuação do indivíduo. Suas principais influências são religiosas, econômicas e políticas.

No campo religioso se percebe a influência de culturas esotéricas onde se determina o ambiente destas festas como uma espécie de ritual xamânico moderno. Aderindo-se diversos elementos desta espécie de rito, como a música transcendental, a dança como meditação ativa e o uso de enteógenos para se alcançar diferentes estados de consciência. O uso de enteógenos em particular é de certa maneira híbrido, mesmo havendo tolerância e aceitação para o uso destas substâncias, seu consumo exagerado deturpa todo o contexto destas festas, havendo desta maneira distinções entre estes consumidores e consequentemente atrito entre estes usuários. A religião se torna algo não institucionalizado, tendendo ao humanismo religioso onde todos são livres para pensar e fazer o que bem entenderem desde que não prejudique ao próximo.

Nos fatores econômicos o que se deduz é que para viver até certo ponto tal cultura há de se pagar para isso, tanto na entrada para as festas quanto para o consumo, seja qual for. Hoje em dia, os freqüentadores destas festas são majoritariamente membros da classe média, pois se necessita o expendido de valores altos para poder ir a uma festa. Para ilustrar isso, eis uma média de preços: Entrada com média de R$50,00, excursão R$25,00, cerveja R$4,00, água R$3,00, hambúrguer R$8,00, etc. Sem contar o consumo ilícito, onde se comprar uma pílula de ecstasy por R$25,00 e um papel com LSD por R$30,00. Se for fazer a conta, um indivíduo, para ficar a vontade numa desta dessa gastaria por volta de R$288,00, sem contar o uso de drogas, caso opine. Levando a freqüências que estas festas ocorrem, não seria possível para uma pessoa que receba até R$1500,00 freqüentar a todas as festas e ter um bom consumo de bebidas e comida. A pesar do custo, o valor que a maior parte das pessoas gastam é inferior, pois preferem gastar R$25,00 num ecstasy que o manterá com energia por pelo menos quatro horas e consumindo cerca de quatro garrafas de água do que nestas quatro horas consumir diversas latas de energéticos. Isto da uma esclarecida sobre o quanto de dinheiro circula nestas festas, sendo uma grande fonte de renda, tanto para os produtores da festa quanto para os traficantes que a circundam.

Tomando o tema das raves para o lado político, o que se vê é uma grande briga entre os freqüentadores destas festas e a sociedade. Esta briga não é largamente explanada, o que é mostrado pela mídia é um ataque às festas propriamente ditas, fato previsível, pois os próprios freqüentadores compõem a elite da sociedade. Este embate ocorre devido ao uso exagerado das drogas que foi completamente explanado após a popularização destas festas. Neste ponto, os ideais da cultura psicodélica são completamente esquecidos, sendo jogados para o campo utópico. Todo esse ressentimento devido aos atritos com a sociedade é mostrado no “Manifesto Raver”, um manifesto de autoria anônima que está presente em todo o planeta, explanando os ideais e as considerações para com a sociedade. Toda esta briga ocorre de forma extremamente semelhante ao que ocorria com o movimento hippie, sendo o mesmo pai do Psy herdando às raves sua característica política sócio-ambiental, além dos fatores culturais como o malabarismo, a pirofagia e a arte plástica, todas sendo representações marginalizadas.

As características citadas acima mostram porque as raves são um fato social total. Outra característica de fundamental importância para se entender estas festas são o elementos ritualísticos destas festas. As raves em sua essência compõem um ritual moderno com raízes xamânicas e hinduístas. Seu propósito original é a celebração da vida, a difusão do amor e a expansão da consciência para se melhor compreender a realidade e se alcançar um estado uno entre as pessoas, além dos ritos de passagem que ocorrem dentro destes ritos maiores e coletivos.

A celebração da vida se da pela preocupação com a natureza e também com a saúde. Apesar dos consumos excessivos de drogas, existe uma recriminação a esta atitude devido à questão da necessidade, pois o uso exagerado de certas substâncias pode ser prejudicial à saúde, por isso o indicado é usar menos, principalmente o êxtase, sua indicação de quantia suficiente é de uma pílula a cada seis horas no máximo.

Com exceção do uso de drogas, cigarros e bebidas existem muitos debates sobre saúde e meio ambiente. Encontrando-se muitos vegetarianos neste meio, assim como pessoas vinculadas a natureza, desde esportistas conscientes às ativistas ambientais.

Já questões de difusão de amor, estado uno entre as pessoas, expansão da consciência são características com dois pólos, o primeiro se da ao que é feito durante as festas e fora das festas que possa contribuir para estes pontos, exige-se atitudes politicamente corretas para realmente ser um “trancer”; outro pólo é o uso de drogas para se sentir o amor, a unidade e a expansão da mente.

Drogas como o ecstasy provocam uma sensação de amor mútuo com todos, já o LSD estimula os sentidos humanos mostrando ao usuário outra interpretação das imagens, sons e toques, assim como dos atos. Como se percebe, os rituais xamânicos foram alterados, principalmente quanto às drogas. Não se tendo acesso às substâncias utilizadas pelos índios, o que se faz é uma substituição destas substâncias por drogas sintéticas. O LSD é sintetizado de um fundo de centeio, o claviceps purpúrea, que é utilizado em ritos xamânicos da Índia. O ecstasy apesar de não ser um sintetizado de alguma substância enteógena utilizada em ritos xamânicos possui as mesmas características que o khat possui, sendo este uma árvore africana que possui efeitos enteógenos utilizada a milhares de anos em cerimônias religiosas dos egípcios. O que nos mostra que o uso do ecstasy não está unicamente atrelado à diversão, mas também que devido aos seus efeitos serem também buscados dentro de uma espécie de rito (que muito provavelmente não ocorre só no Egito) ele se enquadra dentro de um rito devido aos seus efeitos.

Essa questão de drogas ritualísticas deve ser bastante analisada, o que se percebe dentro de uma rave é que as drogas majoritariamente utilizadas possuem, em algum contexto, um uso ritual. LSD na índia, efeitos do ecstasy semelhantes ao khat africano, o hashish nos ritos oferecidos à Shiva, a maconha usada por índios após a descoberta e associada à Jurema em algumas tribos, etc. O que nos leva a perceber que há elementos no consumo de drogas em religiões ancestrais modificados para se terem a mesma utilidade prática em tempos modernos.

Dentro deste ritual moderno, encontra-se um símbolo que une a todos, assim com em todos os outros rituais. No caso em particular, o símbolo é o “flyer”, que é uma espécie de panfleto para divulgação da festa. Este símbolo é de extrema importância em seu nível exegético, pois ele mostra o que a festa será, e o que se espera dela. Já em seu nível operacional ele serve para atrair o público, mostrar o conceito da festa, é também por meio dele que muitas pessoas avaliam as boas festas, de acordo com o horário e com o “line up”, assim como ser uma das principais formas de divulgação on-line ou off-line. Em seu nível posicional ele não possui uma grande importância, ele estará com o freqüentador antes da festa, servindo como fonte de informação, durante a festa ele provavelmente não estará mais com o indivíduo, caso seja, será somente para poder se acompanhar o “line up”; e após a festa estará estocado dentro de uma gaveta ou na lixeira, irá perder toda a sua importância, servindo unicamente como lembrança.

Todo esse ritual começa a se formar algumas horas antes do evento. O momento de separação em que os membros farão com a sociedade começa na ida a festa. Esta separação ocorrer de forma física, se afastando da metrópole e se inserindo em cidades do interior, onde a natureza é mais abundante e também onde há menor fiscalização da polícia (apesar de que hoje em dias estas festas estejam sendo perseguidas) e de outras autoridades. Neste período, quando ocorrem por meio de excursões às pessoas se conhecem e já se preparam para a festa. Existe certa resistência neste ponto, pois mesmo que estejam se deslocando da sociedade há o risco de serem parados pela polícia e terem suas drogas apreendidas, acabando com a festa de muitos. Mas todo esse momento de separação acaba quadno se chega à festa, pois neste momento o que ficou pra trás só será lembrado na volta.

O momento da chegada marca a liminariedade do ritual. Neste momento as regras da sociedade são esquecidas quase que totalmente, pois neste espaço as pessoas podem

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Pesquisa - Parte 1, 2 e 3

Posted by Renan Reis on abril 7, 2009 | No Comments

Bom dia/tarde/noite a todos, gostaria de compartilhar com vocês uma pequena pesquisa de antropologia cultural que executei em 2007. Nesta pesquisa tenteo o mais fielmente possível traduzir o meio das raves (e os indivíduos que fazem parte dele) numa liguagem mais acadêmica. Fiz a pesquisa para uma matéria na Universidade Cândido Mendes, um treinamento.

Irei dividi-la em 8 partes e ir aos poucos postando aqui para vocês, desta maneira a leitura não fica tão grande nem cansativa. Espero que gostem!
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INICIAÇÃO ÀS RAVES PSICODÉLICAS URBANAS, SEUS ELEMENTOS SOCIAIS E RITUALÍSTICOS.

1 - Tema da pesquisa.
O assunto tratado na dissertação a seguir será a explanação dos fatores sociais da raves psicodélicas que ocorrem nas cidades de interior do estado do Rio de Janeiro. Além disso, também será dissertado como seus elementos constituintes formam uma espécie de ritual moderno espelhado no xamanismo. Com estes pontos esclarecidos, a pesquisa se voltará ao indivíduo que irá se iniciar neste ambiente, suas razões e as barreiras que ele enfrenta, assim como as barreiras que derruba para se tornar um freqüentador deste meio.

1.2 - Metodologia adotada.
A pesquisa será feita por meio de trabalho de campo para se observar o comportamento, o contrato social destas festas e as características da estrutura destas festividades. Posterior a esta parte, será feita uma observação de portais da internet onde estes freqüentadores interagem para fazer uma análise da mentalidade destes freqüentadores, o que pensam sobre a atual situação destas festas, sobre as questões políticas contra a sociedade em geral e o que consideram como nativo neste meio. Também serão feitas entrevistas com informantes, tanto os que ali encontram elementos de sua identidade e espiritualidade, quanto outros que freqüentam as raves unicamente por diversão.

Acabadas estas três etapas, os dados serão analisados e se pretende explanar a estrutura ritualística e social das festas e como um indivíduo de fora deste meio se introduz no mesmo.

2 - Historicizando o Psy-Trance.

Foi no estado de Goa, na índia, onde se pode afirmar que a cultua psy-trance nasceu. Goa era uma região cristã colonizada pelos portugueses. Diferente das outras regiões indianas, Goa possui uma maior tolerância e diversificação cultural. Era um “ponto de encontro internacional”; pela sua cultura espiritualizada e não materialista, muitos adeptos aos ideais hippies, antropólogos, místicos e traficantes de drogas viajavam frequentemente para a região. Faziam-se diversas festas que tocavam rock-psicodélico e reggae em grande maioria, até que entre os anos de 1987 e 1988, o DJ Laurent introduziu a música eletrônica nestas festividades. No início não foi muito bem aceito, mas em pouco tempo se tornou uma febre e causou uma reação em cadeira que revolucionou o cenário da música eletrônica internacional.

Pode-se perceber uma grande ligação entre a queda do movimento hippie e a introdução da música eletrônica nas festividades de Goa. Isso ocorre devido a um processo de aculturação. Paralelamente ao fato de que os viajantes transformavam Goa, estilos de música eletrônica começavam a se desenvolver, como na Inglaterra e Alemanha.

Dentre os hippies que vieram da Califórnia para Goa, destaca-se o DJ Goa Gil. Gil resgata a musicalidade xamânica, os tambores repetitivos, e a une com a música eletrônica e conceitos de Yoga, tudo isso para “redefinir o antigo ritual tribal para o século XXI” (Goa Gil: Site). Se utilizando, numa cerimônia, a música, enteógenos e a dança. Nas próprias palavras de Goa Gil, “Dança é meditação ativa… Ao dançarmos nós vamos para além do pensamento, além da mente e além da nossa individualidade… Tornamo-nos UM no êxtase divino criado pela união com o espírito Cósmico… Esta é a essência da experiência do trance através da dança…” (Site). A semelhança entre a musicalidade dos rituais xamãs e a música eletrônica de Gil pode ser analisada por meio do eletro encefalograma (EEG). Pela proposta de Gil, o que pretende trabalhar é a região cerebral afetada pelo comprimento de ondas de 8 a 13 Hz (região occipital, córtex visual), ou seja, expandir a consciência, e concentrá-la no mundo interior (Gramacho, 2002). Surge aí o que pode ser chamado de “tecno-xamanismo”, ou seja, um xamanismo adaptado ao universo do trance com ferramentas tecnológicas.

O que se percebe nesta tribo é que ela é universal, a todo instante influências externas chegam, novas regiões do planeta são “infectadas” com o trance, e, deste modo, a cena não para de crescer. E é isso que torna o universo do psy-trance tão singular, além de ser um estilo de música muito atrativo, é também um estilo de vida, uma filosofia que sobrevive desde a época dos hippies

3 - O sujeito híbrido: a cena híbrida

Identidade: é sobre isso que iremos falar nesta etapa. Todos buscam saber o que somos enquanto indivíduos pertencentes a um determinado meio e tempo, a uma determinada cultura. A todo instante nos deparamos com contradições e diferentes identidades dentro de nós mesmos. Este é o sujeito atual, o que se comporta e age de forma diferente, de acordo com o local onde está. É o sujeito híbrido, ou seja, aquele que é o fruto da fusão de diferentes tradições culturais, criando novas culturas, mais apropriadas ao seu meio.

A pós-modernidade é inerentemente globalizante. O sujeito dos dias de hoje está inserido num processo de globalização, onde distancia e tempo são diminuídos, aproximando culturas, misturando-as. Isso nos mostra que o espaço e o tempo também são coordenadas para representações (cinema, fotografia, desenho, escrita, etc.). E é dentro destas representações que o sujeito se identifica e dialoga. Num mundo globalizado, estas representações se tornam híbridas e, desta maneira, a identidade cultural do indivíduo também.

Esse encurtamento de espaço que coloca a cultura global em embate com a cultura local é o processo da globalização. No universo das raves psicodélicas podemos perceber isso de forma bem clara. Sua cultura local, baseada na questão da liberdade, difusão de filosofias e crenças entra em embate com a cultura global, ou seja, uma cultura comercial. Pode-se afirmar que houve hibridismo, surgiu uma nova cultura psicodélica, que é comercial, porém ainda manteve resquícios de sua origem.

O que entra em debate é o indivíduo neste meio das raves. A cena psicodélica carioca está extremamente vinculada com o lado filosófico, fraco, porém que luta para sobreviver, e em oposto, está vinculada também ao ambiente de produção cultural executiva, ou seja, aquela produção voltada para arrecadação de lucro. Esta dualidade na cena a coloca em semelhança à comercialização de serviços que não deveriam ser comercializados, como atividades religiosas ou terapêuticas; estas duas últimas também tendo um vínculo com o mundo das raves, devido à herança indiana. O que podemos perceber neste ponto, é que ainda existe a procura pelo universo alternativo, aquele que se adequar às necessidades do hibridismo que as identidades pessoais pedem. Em outras palavras, um contexto onde certos paradigmas estejam descartados e que a liberdade de expressão e atitude sejam abertas, mesmo que para isso seja necessário comercializar, ou pagando para viver esta nova cultura.

Por todo esse dilema envolvendo comércio e cultura de raiz, as pessoas que freqüentam as festas de psy-trance possuem uma gama de estereótipos. Existem aquelas que freqüentam por moda e outros por curtirem a psicodelia. Há também aquele que vai às festas pela psicodelia, mas que não suporta o meio comercial, e ainda aqueles que deixam de ir devido à mudança provocada no universo das raves. São pessoas diferentes, convivendo num mesmo ambiente, se comportando de diferentes maneiras e pensando de diferentes formas. Um público com tantas identidades, num mesmo meio, modificado devido às influências da globalização da cultura. Consequentemente, estas diferentes identidades assumem estereótipos, que vão desde a razão de freqüentarem as festas até a questão da indumentária. Tal contraste gera conflitos, estereótipos contra estereótipos. E qual a razão disso tudo? O encontro com o “outro”: o diferente sempre será rotulado da maneira que um estereótipo consegue fazer, o que varia de acordo com quem é o “eu” desta pessoa no contexto das raves. É a rotulação do outro que causa as desavenças entre as diferentes tribos deste meio.

Por fim, percebemos que a cena atual representa um diálogo entre o comercial e o original; expressando o diálogo entre a cultura global e a local. Também existem as confluências das diferentes tribos deste universo. Havendo tantas confluências, tanto nos elementos deste meio, quanto nas tribos deste meio, pode-se perceber as raves como um universo híbrido e amplo, que, apesar da corrosão que passa, ainda se mantém em pé, com certa paz. Desta maneira, seria possível dizer então que o universo das raves caminha junto com a cultura global, da mesma maneira que o movimento hippie caminhou com o capitalismo ao levar as indumentárias para butiques; o que nos leva a concluir que o universo psicodélico foi levado ao comercial justamente por ele. Sendo um universo que gera uma ameaça, foi enquadrado para não oferecer risco, ou seja, as raves foram vendidas para evitar outros conflitos.

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Rave como ritual? Como pode?

Posted by Renan Reis on fevereiro 1, 2009 | 1 Comment

Muito vem se discutindo sobre como uma rave representa uma prática “religiosa”. Não há presença de entidades específicas à cultura eletrônica, templos, nem práticas ritualísticas próprias. A manifestação espiritual das raves funciona dentro do contexto de um sincretismo religioso, este que é a união de diferentes elementos de diferentes religiões para construir algo único. Sabe-se que a raves psicodélicas surgiram na Índia para serem uma ferramenta de ritualidade onde os instrumentos musicais orgânicos seriam substituídos por sintetizadores eletrônicos, o “xamã1″ seria o DJ (pois este é o que guia os praticantes dentro daquela realidade própria), os enteógenos2 gradualmente vão sendo sintetizados, etc.

O que uma rave se propõe a fazer (ao menos em sua essência) é colocar o indivíduo em contato direto com outro aspecto da realidade, o mesmo é feito nas práticas xamanísticas. A diferença entre entrar em contato com “outra” realidade e um rito é que neste existe um objetivo. Poderiam falar que este “contato” é feito por intermédio de psicoativos e isso retiraria a validade do rito. Isso não procede, pois independente da forma que se alcança tal contato (que não é feito somente por psicoativos), existe um propósito e uma ordem de funcionamento. O propósito das raves provocarem este contato é “equalizar” as mentes dos indivíduos nesta realidade, provocando a experiência da união, da paz, do conhecimento fantástico e do contato direto com as forças esotéricas3 da Natureza. Já por “ordem de funcionamento” podemos observar a repressão pelo uso irresponsável de psicoativos, falta de comportamento perante as pessoas e a Natureza, desacordo com o “espírito essencial” das raves, ou, em outras palavras, fanfarrice.

Vale salientar que o rito pode ser ou não praticado. Dentro da cultura eletrônica a defesa da liberdade de opinião e de ideologia é assídua, dessa maneira, você pode considerar as raves como um rito ou como uma festa, ou até os dois ao mesmo tempo. Está aí a raiz da natureza híbrida das raves. Como causa do hibridismo das raves temos a soma entre a cultura hippie, elementos xamanísticos indianos, hinduísmo, introdução da música eletrônica (principalmente o trance europeu) em um contexto (no caso, o estado de Goa - Índia - nos anos 80).

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