O uso de enteógenos

Posted by Renan Reis on julho 21, 2009 | No Comments

Quantos de nós que usam enteógenos já não se deparou com a pergunta: porque você usa enteógenos? Estaríamos mentindo se disséssemos que nunca. Essa dúvida é comum a muitos que não fazem tal prática. E não podemos condena-los por isso, afinal de contas, cada pessoa escolhe a sua maneira de interagir, observar, conceituar e julgar a realidade. Mas não são muitos que se propõem a questionar a realidade tão profundamente ao ponto de chegar a duvidar da praticidade e “legitimidade” da mesma. Confessemos, nossas dúvidas e exercícios dialéticos podem chegar a um ponto que a diferença de uma pessoa que faz estes questionamentos e um esquizofrênico fica por demais tênue.

O uso de enteógenos (que para ser visto como tal depende do contexto que se usa) pode começar como uma forma de entretenimento (a forma mais comum nos dias de hoje), como uma maneira de fugir do cotidiano, ou como uma maneira de “ver” que seus pensamentos mais metafísicos são de fato observáveis (e, consequentemente, reais e legítimos). Normalmente as pessoas que começam a se aventurar nesta atividade estão em um destes três casos.

O uso recreativo não precisa de longas explanações, afinal, se resume a uma busca de sensações e prazeres da carne (apesar de transcenderem isso). O “enteógeno” neste caso não é um enteógeno, é simplesmente um substância psicoativa que lhe oferece tudo o que um culto dionisíaco pode querer.

Já quando a pessoa os usa para fugir do cotidiano, pessoalmente aconselho um psicólogo, ou que passe a ver as coisas boas da vida. Normalmente estas pessoas só observam os fatos negativos da vida, e ficam tão contaminadas desse pessimismo que precisam literalmente de uma dose de felicidade, precisam sentir que o mundo também é bonito, prazeroso. Mas normalmente não avançam na questão, afinal, o mundo enteógeno não é “cor de rosa”, para aprender precisamos dos demônios. Também nesse caso, o enteógeno se enquadraria como um psicoativo.

Já no terceiro caso que citei, o que a pessoa quer “ver seus pensamentos metafísicos”, poderíamos dizer que a substância se enquadraria como um enteógeno, pois para isso ela necessita que em se contexto os que a utilizam o façam no propósito de aprender e expandir a consciência. E é esta a principal função de um enteógeno, sendo este uma forma de catalizador dos processos de expansão da consciência. Nesse caso, o indivíduo tem a consciência de que o universo inconsciente é tão manifestável e real quanto o consciente, ele, na maior parte das vezes, precisa observar isso para que suas dúvidas cessem.

Os motivos são os mais diversos, mas o “mais nobre” (isso se eu for hábil a julgar) é aquele onde o objetivo principal é aprender, expandir a consciência. Perceber que o universo onírico não é uma simples reação de nosso cérebro, mas sim uma ferramenta que organiza e estimula a produção de conhecimento. E por ser uma ferramenta “objetiva”, ela é tão real quanto o computador a sua frente (que também é uma ferramenta).

Cabe alguém a julgar que usar essa ferramenta é um erro? Talvez sim, por questões de saúde ou psicológicas. Mas como não são crianças que o fazem (salvo algumas raras exceções, como no Santo Daime), temos consciência de nossos atos e por termos que faze-los com responsabilidade devemos ter consciência das formas de uso, o que inclui o uso consciente e responsável. Não estamos falando de brinquedos, e sim de ferramentas que podem trazer sérias consequências. Temos que ter conhecimento do que estamos fazendo, sermos autocríticos e conhecermos nossos limites.

Faço esse apelo, pois observo que o comércio de enteógenos esta crescendo, e não sei ao certo se esta sendo consumido por pessoas do terceiro caso. Todas tem a “permissão” para isso, mas escapismo e hedonismo podem levar à ignorância, mesmo que a verdade esteja escancarada na cara da pessoa.

Nunca se esqueçam de:

  • Se informar
  • Refletir
  • Se impor limites

Tenha um bom trabalho!

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Pesquisa - Parte 5 e 6

Posted by Renan Reis on maio 6, 2009 | 1 Comment

Continuando a postagem da pesquisa!
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O neófito a ser estudado.

Existem diversos tipos de neófitos dentro de uma rave, como já foi esclarecido acima. Esta pesquisa irá se dedicar a um tipo em particular. Este neófito possui tem idade entre 16 e 20 anos, nunca foi a uma rave anteriormente, apesar de já ter ido a alguma festa que tocasse majoritariamente música eletrônica, porém com duração máxima de oito horas (raves possuem mais de doze horas). Ele Também não possui conhecimentos técnicos, não sabendo fazer diferenciação entre as diferentes vertentes da música eletrônica, muito menos entre as sub-vertentes do Psy-Trance. É leigo, tanto nos conhecimentos específicos da música, quanto na cultura e comportamento nas festas, sendo propício a se comportar como a maioria faz. Este neófito normalmente é o único no grupo, sendo levado às festas por pessoas que já são freqüentadores das raves, estes por sua vez servindo de tutores. Apesar de novo, ele possui certa liberdade para sair e não esta preso às morais da sociedade, sendo completamente tolerante ao uso de drogas, e, na teoria, sendo simpatizante com pessoas de qualquer tribo. Antes de ir a sua primeira festa, ele já tem conhecimento dos símbolos das festas, mesmo não sabendo seus significados reais, assim como já conhece os DJs mais populares, principalmente Skazi, Infected Mushrrom e Astrix.

O neófito e sua iniciação.

A iniciação possui três etapas. A primeira é o convite para ir a rave, a segunda etapa se da nos preparativos e na ida, o momento da separação. Quando ele chega ao momento liminar, ou seja, quadno chega à festa, ele entra na terceira etapa da iniciação, que é quadno ele será introduzido no meio se deparando com um tipo de festividade que ele nunca presenciou. Nesta etapa ele irá se introduzir aos poucos nas regras de comportamento daquele meio, que mesmo que defenda a liberdade, possui regras para manter a paz e a liberdade ali dentro. A etapa final é a agregação (a etapa final do ritual da rave), neste estágio ele irá absorver as informações recebidas e irá identificar naquele meio uma espécie de paixão, fazendo com que ele queria retornar e viver aquilo novamente.

Na primeira etapa que é a separação, o neófito terá por meio de seus tutores o incentivo para ir às festas. Isso mostra que os freqüentadores das festas incentivam a todos a irem, como se aquele meio fosse aberto a todos. Variando de acordo com os tutores, o “chamado” será diferente. Se os tutores forem membros voltados para a cultura das festas, o chamado será mais vinculado a identidade cultural e às características mais elementares da festa, chamando a atenção para a paz e a liberdade de ação. Já se os tutores forem membros voltados para a diversão, este “chamado” irá ressaltar as pessoas da festa, como elas se relacionam e o bom sentimento que há nas festas. Esta distinção do chamado ocorre devido à origem deste amor. Para as pessoas voltadas à cultura das raves, esse amor é fruto das drogas, não sendo muito valorizado, o contrário ocorreria se a festa resgatasse a cultura nativa das raves, neste ponto o ambiente e as pessoas seriam valorizados, pois a maior parte dos freqüentadores seria os “roots”, ou seja, as pessoas inseridas na cultura psicodélica. Já os que estão ali puramente por diversão vinculam o amor também as drogas, mas ele não é de nenhuma maneira condenável, pois é graças a ela que o clima se mantém em paz, sem contar o prazer que a droga traz.

No momento liminar do rito, após o chamado, o neófito se depara com um evento de grande estrutura, que ocorre na parte do dia, da noite e da madrugada. Com milhares de pessoas que se abraçam e sorriem, mesmo que esta alegria seja fruto das drogas é inevitável à um neófito que ele se sinta bem e bem recebido ali. É neste momento que ele começa a se inserir no meio, observando o comportamento, as conversas e se identificando com ambos. Nos assuntos tratados nas conversas, majoritariamente são relativos a outras festas, drogas, natureza e qualquer outro assunto que não tenha relação direta com as cidades, prova do momento liminar de distanciamento da sociedade urbana.

Segundo informantes, é comum que alguns tutores dêem a “primeira bala” (primeira pílula de ecstasy) do neófito, esta “primeira bala” ocorre na “primeira rave” e é de extrema importância para o entendimento da primeira rave. Como já foi escrito anteriormente, as raves se propõem a expandir a consciência para se compreender a realidade de outra maneira, além da festa em si representar um meio único, vivenciá-la com o auxílio de psicoativos seria um modo a compreender a essência de uma rave. Muitos dos neófitos que usam a droga começam a falar da festa como se estivessem falando de um grande amor da vida deles, como se estivessem conectados com todos da festa e que o sentimento de amor prevalecesse. O que difere de um simples efeito da droga é que este sentimento fica enraizado no significado da rave, ou seja, ele pode passar a acreditar que aquele sentimento realmente exista, sendo alcançada por meio das drogas que servem para evidenciar isso. Além do efeito da droga ser positivo, ele passa a acreditar também que todos estão ali pelo mesmo propósito, na mesma conexão, na mesma freqüência. Neste ponto ele alcança os objetivos do ritual, como explanado anteriormente, que é alcançar o uno, o amor, a paz, a celebração da vida, a transcendência e a expansão da consciência. Ele alcança tudo isso na pista de dança. Vale salientar que isso não ocorre necessariamente com o uso de drogas, de acordo com relatos, muitos freqüentadores só foram usar as drogas meses depois (ou anos) e outros nunca chegaram a usar, estes dizem haver uma conexão entre todos por meio da música, que a transcendência ocorre com a música e com a dança, como proposto pelo ritual de Goa Gil.

Grande parte dos neófitos alcançam este estado de união por meio das drogas que conseguem por meio de seus tutores, poucos são os que alcançam sem as drogas. Os que não utilizam as drogas e não alcançam este estado gostam da festa, mas normalmente reclamam da duração e do cansaço. Fora esta questão das drogas, existe outro elemento constituinte do rito de iniciação, é a questão da música. Pelos relatos feitos durante as festas, é elementar a observação de que eles passam a gostar muito mais desta musicalidade, passam também a observar melhor as características técnicas (mesmo que não amplamente) e falem da psicodelia da música, eles a encheram mesmo que não haja. É interessante observar que nestas festas os sentimentos desejados e os elementos procurados na música são alcançados. Ao fim da festa, o neófito tem a sensação do fim de uma jornada, de um caminho que na grande parte dos casos ele irá refazer.

O momento final, a agregação, não possui grandes mistérios, ocorre da mesma maneira que ocorreria na volta de uma saída comum, mudando somente o horário, que normalmente é no início da noite. A diferença é o sentimento que a pessoa esta, grande parte dos entrevistados dizem que em seu retorno eles se sentiam maravilhados com a festa, tendo consumido ou não drogas. Esse sentimento positivo ocorre devido ao clima que ele conviveu durante muito tempo, seu retorno implica que aquilo é momentâneo, por isso a ansiedade de resgatar aquilo, de voltar para outra rave.

É desta maneira que o rito se finaliza. A iniciação em uma rave como se pode observar ocorre com questões emotivas e hedônicas. Sua força se encontra no sentimento da positividade, da aceitação, da hospitalidade, da liberdade e da ausência da repressão. As sensações mais procuradas numa sociedade que oprime e recrimina. Desta maneira, o rito das raves se caracteriza como um escape á realidade da sociedade, e a iniciação a este rito é a expressão da insatisfação com o que é presenciado na sociedade, variando unicamente com os objetivos do neófito, se ele esta ali por diversão ou por outras razões além desta.

Com todos esse elementos explanados, podemos classificar o rito de iniciação de diversas maneiras. Ele é um rito de contágio, de dinastia, positivo e direito. É um rito de contágio pois exige que as pessoas se conectem de alguma maneira havendo muitos abraços e muitas demonstração de afeto, esse contato é fundamental para o neófito, e também por meio dele que os tutores farão com que o indivíduo se sinta aceito pelo meio. É de dinastia pois não se pretende evocar nenhum espírito, ele ocorre por sua própria qualidade, de acordo com a sua estrutura, no caso em particular, pela manifestação da vida, no amor e da consciência. É positivo pois não esta vinculado a nenhum tabu, não se pretende com ele desfazer nenhum mal no qual fora acometido, ele ocorre de acordo com a vontade própria do neófito, pois ele pretende se inserir na festa. E é direito pois possui uma eficiência imediata, é ali dentro que tudo o que se busca será encontrado e desfrutado, é o momento liminar da festa que é o mais importante.

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