Posted by Renan Reis on julho 8, 2009 | No Comments

No presente ensaio, irei tratar do processo histórico de construção da doutrina do Santo Daime, abordando as influências culturais que desencadearam um processo de ressignificação do chá Ayahuasca. Este processo, que desemboca na constituição de uma nova religião, surge da influência do catolicismo popular maranhense, pajelança e certas linhas religiosas de origem africana. A mudança de perspectiva acerca da Ayahuasca desencadeou uma nova visão nacional acerca do uso ritual da Ayahuasca que deram início ao processo de inclusão do uso ritual do chá como um Patrimônio Cultural Imaterial, título dado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Beatriz Cauby Labate e Gustavo Pacheco falam das influências culturais do Maranhão (local de nascimento do fundador da religião) sobre a religião Santo Daime no artigo “As Matrizes Maranhenses do Santo Daime”. A primeira das influências citadas é do “Tambor de Mina” - prática regional de possessão em cultos afro-brasileiros - e da pajelança - manifestação que engloba o catolicismo popular, práticas indígenas, tambor de mina e outras influências maranhenses.
O primeiro ponto que chamam atenção é o termo “doutrina”, adotado pelos praticantes do Santo Daime ao se referirem à própria religião, além de referir à apresentação dos ensinamentos e preceitos da religião na forma de música. O termo é comumente utilizado no Maranhão para se referir as cantigas do tambor de mina e pajelança. Os termos “balanço” e “firmeza” também presentes no Santo Daime, que dentro da religião dizem respeito à força da bebida do chá e a capacidade do fiel se manter em seu lugar e suportar o poder do chá respectivamente, também estão presentes nestas práticas maranhenses; firmeza seria a habilidade dos curadores executarem seus deveres, e balanço é o anunciamento da chegada dos espíritos nas práticas da pajelança. Também podemos observar a influência de Nossa Senhora da Conceição, muito presente na religiosidade popular (principalmente na pajelança), dentro da doutrina do Santo Daime que a tem em local de destaque.
Labate e Pacheco também falam das possíveis influências que a Festa do Divino Espírito Santo possa ter tido em Irineu da Serra (fundador do Santo Daime). Toda a Festa do Divino gira entorno do grupo de crianças denominado de “império” ou “reinado”, termos também presentes na cosmologia do Santo Daime que toma os fiéis como guerreiros do império de “Juramidam” e a plantação de Jagube (planta utilizada na confecção do chá, Baniseopsis Caapi) como “reinado”. Outro elemento presente na festividade que dialoga com o Santo daime são as músicas cantadas pelas caixeiras do Divino que expressam cada etapa da festividade. Os versos dos hinos que demonstram tal influência (hinos n° 17 e 73, transcritos em parte no artigo de Labate e Pacheco) demonstram semelhança no conteúdo, na métrica e no estilo às cantigas das caixeiras na Festa do Divino. Os últimos pontos que Labate e Pacheco falam das influências maranhenses diz respeito ao baile de São Gonçalo. O baile, que consiste numa representação feita por diversos casais “bailantes” liderados por um “guia”, tem semelhanças estilísticas com o “bailado” (ritual do Santo Daime). A própria disposição espacial das igrejas do Santo Daime possui semelhança com o barracão do Baile de São Gonçalo, que não apresenta paredes inteiras e em sua entrada possui imagens católicas. Outra influência do Baile são as fardas brancas e as faixas coloridas utilizadas por seus praticantes e também presentes nos cultos daimistas.
Esses dados coletados por Pacheco e Labate contextualizam as influências culturais de Irineu da Serra no período que ainda morava no Maranhão, os pesquisadores entrevistaram parentes e conhecidos de Irineu da Serra para poderem chegar a tais conclusões, que na verdade não passam de hipóteses, visto que não tinham acesso a documentos. Mas ainda assim podemos observar que diversos elementos da cultura maranhense estão presentes no Santo Daime, o que legitima as hipóteses apresentadas por Labate e Pacheco.
Para podermos analisar a conjuntura de influências e contextualizá-la na teoria antropológica e depois analisarmos as influências políticas, devemos observar outras características do Santo Daime apresentadas na pesquisa de doutorado de Isabela Oliveira que diz respeito ao processo de ressignificação da Ayahuasca pelo Santo Daime.
A forma que cada usuário tem de ver a experiência é determinada pelos sistemas de símbolos que oferecem para compreensão da realidade, dessa forma, os significados tomados pelos adeptos durante as diferentes etapas do culto são oriundos dos elementos que dão significado e ordenam a prática presentes na doutrina, que como podemos observar, possui diversas matrizes de símbolos.
Na concepção cristã de sacramento, este pode ser compreendido como um ato simbólico observável que detém qualidades sagradas, sendo um meio de se estabelecer contato com o universo mítico presente na religião, que engloba o seu sistema simbólico. No caso específico do Santo Daime, o sacramento é o próprio chá da Ayahuasca, que estabelece o contato com o “astral” (termo utilizado pelos praticantes ao falarem do mundo espiritual). Nota-se que a visão do Santo Daime para com o chá da Ayahuasca é nitidamente uma perspectiva cristã de sacramento, sendo esta maneira de pensar o início do processo de ressignificação da Ayahuasca. Oliveira comprova esse argumento quando, a partir de entrevistas com adeptos, demonstra que os próprios vêem a ingestão do chá como uma forma de comunhão como o corpo e sangue de Cristo, mesmo não sabendo definir o conceito de sacramento. O próprio ato da ingestão do chá demonstra essa influência cristã, fato observado pela presença do Cruzeiro e do ato de fazer o sinal da cruz quando for ingerir a bebida, ou após.
Outro ponto que Oliveira nos traz, e que demonstra a influência cristã, são as datas comemorativas. Celebram os dias de Nossa Senhora da Conceição (padroeira da religião), Natal, dia de São Sebastião, Santo Antônio dentre outros. Datas estas amplamente celebradas na cultura popular brasileira. Além das influências cristãs, Oliveira fala das influências culturais do pensamento esotérico e espírita, observáveis em hinos que falam de entidades não cristãs, tais como: pretos-velhos, orixás e caboclos.
Segundo Christian Frenopoulo, comentado na tese de Oliveira, o consumo da Ayahuasca dentro do contexto do xamanismo é voltado para o restabelecimento de laços sociais (assim como manter uma relação com o mundo espiritual), sendo utilizada pelos xamã tanto para cura quanto para estabelecer um contato com o paciente e poder compreender a origem da doença. Já no contexto das religiões ayahuasqueiras cristãs, a bebida passa a ser ferramenta sacralizada para exploração pessoal, através da mente, do universo religioso sistematicamente cristão. Sendo assim, as causas das doenças, antes vistas como consequência de algo que diga respeito à relação com o mundo espiritual e com o próximo, passa a ser compreendida como originadas de vivências pessoais. Para Frenopoulo, esta mudança é conseqüência da influência do pensamento esotérico, cristão e espírita presentes nestas religiões, como o Santo Daime.
“Assim, na compreensão de Frenopoulo, a partir do Santo Daime e de outras “religiões ayahuasqueiras”, o consumo da Ayahuasca passou a ser um exercício religioso por si só. Por sua vez, a cura das doenças, passou a ser percebida como um acontecimento interior, que envolve a reconfiguração da identidade do doente, por meio da “iluminação interna”, de uma transformação psicológica, que acontece durante o processo de ingestão da Ayahuasca, percebida como um veículo de exploração psíquica.” (Oliveira, 2007:69)
Segundo os adeptos do Santo Daime, a doutrina, os elementos ritualísticos e o nome da religião foram designados a Irineu da Serra através do encontro deste com a própria Virgem Maria. Porém, como podemos observar nas tradições nativas da Amazônia, é comum dentro deste pensamento religioso o encontro com entidades espirituais que são reflexos das influências culturais que envolvem o indivíduo na experiência. Desta maneira, podemos observar a importância que a influência cultural (visto que Irineu da Serra, em sua juventude, teve uma vivência cristã) é importante na construção dos significados das experiências que se tem.
Dessa maneira, podemos tomar o Santo Daime como fruto da dinâmica religiosa contemporânea, que, de acordo com Alberto Groisman, pode ser compreendido a partir do conceito de “ecletismo evolutivo”, que justifica e representa a coexistência de diversos sistemas cosmológicos em um só. Sendo mais um conjunto de valores para a aceitação de diferentes tradições espirituais que dialogam na mesma prática, a ingestão da Ayahuasca.
Os cultos ayahuasqueiros do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal (ramificações do Santo Daime) são compreendidos por Sandra Lúcia Goulart como reelaborações do curandeirismo amazônico e surgem em momentos de transformações históricas e sociais na região, podendo ser ressaltado que na literatura antropológica e histórica é evidente que o efeito de psicoativos, além das questões bioquímicas, também é influenciado pelo seu contexto sociocultural.
Este contexto inicial onde se da o surgimento da doutrina do Santo Daime é registrado como um momento de grande troca cultural entre populações indígenas e nordestinas que entraram em contato devido à emigração de nordestinos à região para a exploração de látex. Foi neta situação que Irineu da Serra conheceu a Ayahuasca, e destacando-se nos aprendizados espirituais, não somente aprendeu a utilização nativa da bebida, mas desenvolveu o conhecimento acerca da mesma, sendo mais uma evidência da influência de saberes amazonenses antigos no pensamento daimista. Dentro deste saber nativo, é aceito que a origem da Ayahuasca remete à civilização Inca, “fato” aceito pelos adeptos do Santo Daime, o que demonstra que a sua doutrina represente uma continuidade de saberes culturalmente distintos.
Por mais que seja aceito que a origem da Ayahuasca remete aos Incas, o significado original da Ayahuasca é alterado de modo a valer aos daimistas. Na concepção do Santo Daime, o consumo nativo da Ayahuasca é dado como “primitivo” e fora “aprimorado” por Irineu da Serra. Esta dicotomia entre “primitivo” e “aprimorado” evidencia a sobreposição do valor dado à Ayahuasca pelo Santo Daime ao valor atribuído ao uso nativo, sendo o primeiro “superior” ao segundo. E, de acordo com relatos tomados por Isabela de Oliveira, o processo que ressiginifica este uso da Ayahuasca é a doutrinação (daimista) da bebida. De acordo com informantes de Oliveira: “O nome doutrinado é Daime”. Neste momento abandona-se o termo “Ayahuasca”, que indica a origem nativa, e usa-se o termo “Daime”, que conceitua o chá ressignificado. O processo de resignificação da Ayahuasca, além das questões doutrinárias, também ocorre para expandir o consumo do chá. Desta maneira, a ressignificação da Ayahuasca é um meio de construir referências culturais que pudessem atingir indivíduos que não compartilhassem da cultura nativa amazonense.
De acordo com a pesquisa de Isabela de Oliveira, o compromisso que Irineu da Serra tomou em trazer o chá para o povo brasileiro, foi feito também para enobrecer a pátria. Nas palavras de Irineu: “Se tu for valorizar o Brasil, eu te levo para o meu Brasil. Mas se tu for me desmoralizar o Brasil, tu ficas aqui.”. Sendo assim, Irineu da Serra, para enobrecer o Brasil, “especializa” a Ayahuasca instituindo o uso religioso da mesma. Este espírito nacionalista pode ser entendido como fruto da conjuntura social e histórica da época, onde havia conflitos entre Brasil, Peru e Bolívia oriundos da atividade econômica dos seringueiros que foram influenciados pelo imaginário nacionalista propagado pelo Estado Novo e na idéia de ocupação das fronteiras nacionais.
O contexto nativo do uso da Ayahuasca é compreendido pelos daimistas como fonte de lazer, não sagrado. Visto que, nos relatos tomados por Oliveira, não é atribuído aos índios o desejo de uma experiência transcendental ao se ter o uso da Ayahuasca. Ademais, o uso nativo era associado à sociabilidade humana e práticas satânicas, caracterizando um meio não cristão. O uso do chá passa a ser visto por Irineu da Serra como potencialmente cristão na sua experiência com o mesmo onde ele obteve visões estritamente cristãs, dando início ao processo de ressignificação, do chá para o sacramento. Há assim uma clara distinção entre o uso nativo e o da religião que passa a ser dado como sagrado, especializado e cristão. Essa distinção também pode ser compreendida como uma alteração da perspectiva da Ayahuasca como uma “droga” que passa a ser interpretada como um “enteógeno”, ou seja, aquilo que manifestaria o divino. Estando isso claro na perspectiva que toma a Ayahuasca como um veículo sacramental cristão.
Como podemos perceber, o Santo Daime é o resultado do contato entre diferentes manifestações socioculturais na perspectiva de um indivíduo que carregava em si tais manifestações. Poder-se-ia dizer que o Santo Daime é um dos resultados de um processo de aculturação centralizado em Irineu da Serra, que fundou uma nova perspectiva religiosa da realidade.
Fica claro que os contatos culturais não eliminam, necessariamente, a cultura “primitiva”, pois tal contato possui diversas características complexas que também levam em conta a forma que a cultura “popular” maranhense fará o processo de aculturação. Este processo é o conjunto dos fenômenos que resultam de um contato entre grupos de indivíduos de culturas diferentes, o que provoca mudanças nos modelos culturais iniciais de um ou dos dois grupos. No caso específico do Santo Daime, esse processo de aculturação não ocorre em grupos de indivíduos, e sim centralizados em um indivíduo que, ao longo de sua vida, aglutinou diferentes características culturais de grupos diversos, culminado na criação de uma manifestação cultural singular que não irá interferir nas suas culturas de origem (maranhense e amazonense).
Esse fato é observado no momento em que os fundamentos e estruturas presentes no Santo Daime são explanados nos hinos de Irineu da Serra (referência para o discurso de legitimação da doutrina) que contém elementos estilísticos em comum com cantigas maranhenses e enuncia diferentes entidades. Também podemos observar o resultado deste processo nas características que o Santo Daime tem em comum com atividades religiosas maranhenses (principalmente o tambor de mina, a pajelança e o catolicismo popular) e amazonenses (uso ritual da Ayahuasca).
Estas características culturais de Irineu da Serra possibilitaram a ele uma reinterpretação do significado do consumo da Ayahuasca. Sua bagagem claramente cristã lhe possibilitou analisar a experiência enteógena da Ayahuasca sob o prisma cristão introduzindo o chá num sistema de significados onde tal experiência passa a ser observada como um ato sacramental de contato com a força divina cristã.
Também devemos levar em consideração que no momento em que Irineu da Serra faz esse processo de ressignificação do chá, ele o fazia no intuito de “enobrecer” o Brasil. Sua visão, um tanto quanto política, advinha dos conflitos sociais e econômicos que ocorriam na região, sendo influenciados inclusive pelas idéias divulgadas pelo Estado Novo.
Meu intuito com este ensaio era deixar claras as evidências de um processo aculturativo que desencadeou uma visão estritamente nacional acerca da Ayahuasca. Essa visão nacionalista e cristã possibilitou ao Santo Daime expandir-se pelo Brasil e pelo mundo. É importante comentar que o Santo Daime foi a primeira forma de religião não indígena autorizada formalmente a consumir a Ayahuasca no Brasil, mesmo que exclusivamente na prática religiosa.
Reconhecido o Santo Daime, o ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, da início ao processo de inclusão do uso ritual do Santo Daime como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Podemos verificar que este processo esta levando em consideração a utilização da Ayahuasca sob o prisma da tradição cristã e nacionalista, visto que o nome que utilizam é Santo Daime, e não o seu original Ayahuasca.
Somente a partir do momento que o chá, que vem de uma tradição milenar, passa a ser considerado como um elemento cristão voltado para a nação (visão esta difundida somente a partir do surgimento do Santo Daime) que ele passa a ser visto como manifestação cultural do Brasil, mesmo que seu uso seja anterior a constituição do Brasil como um país.
É interessante observar que os processos de aculturação podem fazer surgir novas interpretações de questões comumente pensadas por diferentes manifestações culturais. Esse contato entre diferentes é visto pela antropologia como fundamental para a constituição da idéia de nação brasileira, sendo esta idéia originária de uma construção cultural e não de acordo com a história política nacional.
Apesar da influência que as idéias do Estado Novo possam ter tido em Irineu da Serra, o processo por ele desencadeado representa puramente uma manifestação cultural que esta aquém das questões políticas propriamente ditas. Representa como o contato com a alteridade é fundamental de ser compreendido para que se possam analisar as construções sociais e culturais que influenciam a cultura nacional. Nação essa que passa a poder observar o fruto do contato com a alteridade como fruto de sua cultura, pensamento este que poderia ser compreendido pela tradição francesa que busca entender a sociedade através dos elementos que a conecte a outras sociedades, e no estudo específico do Santo Daime, poderíamos arriscar a compreender a Ayahuasca como este elemento que conecta as diferentes manifestações culturais.
Temos assim no Santo Daime o resultado de um processo que envolve a experiência de vida de Irineu da Serra, a emigração nordestina à Amazônia para exploração comercial do látex, elementos culturais maranhenses e amazonenses e a constituição de um pensamento nacional. Repercutindo na aproximação entre diferenças culturais de modo a produzir uma significação a um elemento que conecte tais diferenças e a enquadrem na concepção nacional de produto cultural da nação.
Referência Bibliográfica
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Estudo de Áreas de fricção interétnica do Brasil (Projeto de Pesquisa). América Latina, v.5, n.3, 1962.
_______________________________. O índio e o mundo dos brancos. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.
DAL POZ, João. A etnia como sistema: contato, fricção e identidade no Brasil indígena. Sociedade e Cultura, Goiânia, GO, v. 6 (2), n. 2, p. 177-188, 2003.
GROISMAN, Alberto. Eu venho da floresta. Um estudo sobre o contexto simbólico do uso do Santo Daime. Florianópolis: Editora da UFSC, 1999.
GOULART, Sandra Lúcia. Contrastes e continuidades entre os grupos do Santo Daime e da Barquinha. In: IX Jornada Sobre Alternativas Religiosas Na América Latina, Fórum Sociedades e Religiões, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: UFRJ, 21 a 24 de Setembro de 1999.
OLIVEIRA, Isabela. Santo Daime: Um sacramento Vivo, Uma Religião em Formação. Tese (Doutorado). Universidade de Brasília, Brasília, 2007.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização - A integração das populações indígenas no Brasil moderno.
VELHO, Otávio. A antropologia e o Brasil, hoje. RGBS. Vol. 23, n.66 fev/2008.
Sites consultados:
LABATE, Beatriz C. & PACHECO, Gustavo. As matrizes maranhenses do Santo daime. - http://www.aguiadourada.com/pdf/matrizes.pdf
www.iphan.gov.br
Share/Save
Posted by Renan Reis on maio 20, 2009 | No Comments
Conclusões.
Como se pode perceber, apesar das raves representarem uma festa onde o consumo de drogas seja de certa maneira liberado, e, consequentemente acarretando diversos problemas sociais, o que podemos ver é que elas também são uma espécie de rito moderno que herda das culturas xamânicas e hindus seus elementos mágicos.
A principal questão tomada por esse rito é a expansão da consciência, a interação com uma realidade não comum e a difusão de sentimentos positivos, como a paz, amor, união e respeito. Este rito possui duas questões que aparentemente não poderiam se misturar, a diversão e a transcendência, formando desta maneira uma espécie de rito único onde nem mesmo os membros destas raves percebam isso, talvez por falta de conhecimento ou por não quererem se preocupar com o tema.
Assim como os elementos constitutivos das raves são híbridos, o mesmo ocorre com a cena eletrônica no Brasil, assim como os freqüentadores. Isso caracteriza a rave como possuidora de diferentes pólos, sempre oscilantes entre a diversão e a transcendência. Ritual e festa, onde ambos se mesclam causando uma confusão em seus reais significados, sendo que na verdade o que se mostra é uma fusão entre os dois. Criando-se uma espécie de espiritualidade sem religião institucionalizada, sendo exercida na prática e acompanhada de uma filosofia espelhada na contracultura hippie.
Atualmente o que se pode dizer é que o movimente que há por traz das raves representa a atual contracultura do mundo, vinculando às festividades eletrônicas um significado cognoscível que representa um etilo de vida, que une humanismo, natureza e esoterismo.
Dentro deste meio híbrido nada mais natural que o neófito também o seja. O indivíduo que vai a ser iniciado neste meio representa a insatisfação com os princípios da sociedade em geral. Ele é o jovem que encontra nas raves o que ele não pode usufruir na sociedade. Para se inserir, ele se espelha nos freqüentadores das festas, tendendo a se comportar como eles, pelo menos isso ocorre na relação neófitos e tutores.
Nesta festividade onde a maior parte dos freqüentadores não esta sintonizada com os reais ideais do Psy-Trance, indo às raves unicamente por diversão e para o uso de drogas desenfreado, esse neófitos se espelham neste comportamento hedônico. Conseqüentemente a freqüência deste tipo de freqüentador aumenta, se tornando a parte majoritária de membros, levando as raves para a mídia de forma negativa e aumentado a briga que existe.
Desta maneira o rito das raves não é completamente exercido próximo ás metrópoles, descaracterizando o lado espiritual das raves. Sendo assim, a iniciação nas raves pode tanto ser uma iniciação mágico-social quanto puramente social. No primeiro caso, a iniciação se daria por questões culturais e com elementos xamânicos. Já no segundo, que é o que ocorre atualmente nas raves, a iniciação é unicamente a transição que o indivíduo fará de um status à outro, no caso, de simples membro da sociedade, para uma “raver”, o que para a sociedade seria um “drogado”, mesmo que realmente não o seja.
Referência Bibliográfica
1. CASTANEDA, Carlos. A Erva do Diabo: tradução de Luzia Machado da Costa – 32ª ed. Revista. Rio de Janeiro: Nova Era, 2006
2. DURKHEIM, Émile & MAUSS, Marcel. Algumas Formas Primitivas de Classificação. In: RODRIGUES, José Alberto (org.). Émile Durkheim: Sociologia. São Paulo: Ática, 1978. Col. Grandes Cientistas Sociais
3. GENNEP, Arnold Van. Os Ritos de Passagem: tradução de Mariano Ferreira. Petrópolis: Editora Vozes LTDA, 1978
4. GRAMACHO, Derval e GRAMACHO, Victória. Magia Xamânica. São Paulo: Editora Madras, 2002
5. LARKIN, Christopher B. Turn on, Turn in, and Trance out. Lewis and Clark College: Oregon, 2003
6. LEARY, Timothy. A Experiência Psicodélica - Um manual baseado no Livro Tibetano dos Mortos. 1963
7. MAUSS, Marcel. Ensaio Sobre a Dádiva. Forma e Razão na Troca nas Sociedades Primitivas. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003
8. NASCIMENTO, Ana Flávia Nogueira. Festivais Psicodélicos na Era Planetária. São Paulo: PUCSP, 2006
9. TURNER, Victor W. O Processo Ritual: tradução de Nancy Campi de Castro. Petrópolis: Editora Vozes LTDA, 1974
Sites Consultados:
Goa Gil Home Page . Acesso em: 03/11/2007
IsraTrance . Acesso em: 03/11/2007
Plural.org . Acesso em: 20/11/2007
Tranzine . Acesso em: 03/11/2007
Share/Save
Posted by Renan Reis on maio 6, 2009 | 1 Comment
Continuando a postagem da pesquisa!
———————
O neófito a ser estudado.
Existem diversos tipos de neófitos dentro de uma rave, como já foi esclarecido acima. Esta pesquisa irá se dedicar a um tipo em particular. Este neófito possui tem idade entre 16 e 20 anos, nunca foi a uma rave anteriormente, apesar de já ter ido a alguma festa que tocasse majoritariamente música eletrônica, porém com duração máxima de oito horas (raves possuem mais de doze horas). Ele Também não possui conhecimentos técnicos, não sabendo fazer diferenciação entre as diferentes vertentes da música eletrônica, muito menos entre as sub-vertentes do Psy-Trance. É leigo, tanto nos conhecimentos específicos da música, quanto na cultura e comportamento nas festas, sendo propício a se comportar como a maioria faz. Este neófito normalmente é o único no grupo, sendo levado às festas por pessoas que já são freqüentadores das raves, estes por sua vez servindo de tutores. Apesar de novo, ele possui certa liberdade para sair e não esta preso às morais da sociedade, sendo completamente tolerante ao uso de drogas, e, na teoria, sendo simpatizante com pessoas de qualquer tribo. Antes de ir a sua primeira festa, ele já tem conhecimento dos símbolos das festas, mesmo não sabendo seus significados reais, assim como já conhece os DJs mais populares, principalmente Skazi, Infected Mushrrom e Astrix.
O neófito e sua iniciação.
A iniciação possui três etapas. A primeira é o convite para ir a rave, a segunda etapa se da nos preparativos e na ida, o momento da separação. Quando ele chega ao momento liminar, ou seja, quadno chega à festa, ele entra na terceira etapa da iniciação, que é quadno ele será introduzido no meio se deparando com um tipo de festividade que ele nunca presenciou. Nesta etapa ele irá se introduzir aos poucos nas regras de comportamento daquele meio, que mesmo que defenda a liberdade, possui regras para manter a paz e a liberdade ali dentro. A etapa final é a agregação (a etapa final do ritual da rave), neste estágio ele irá absorver as informações recebidas e irá identificar naquele meio uma espécie de paixão, fazendo com que ele queria retornar e viver aquilo novamente.
Na primeira etapa que é a separação, o neófito terá por meio de seus tutores o incentivo para ir às festas. Isso mostra que os freqüentadores das festas incentivam a todos a irem, como se aquele meio fosse aberto a todos. Variando de acordo com os tutores, o “chamado” será diferente. Se os tutores forem membros voltados para a cultura das festas, o chamado será mais vinculado a identidade cultural e às características mais elementares da festa, chamando a atenção para a paz e a liberdade de ação. Já se os tutores forem membros voltados para a diversão, este “chamado” irá ressaltar as pessoas da festa, como elas se relacionam e o bom sentimento que há nas festas. Esta distinção do chamado ocorre devido à origem deste amor. Para as pessoas voltadas à cultura das raves, esse amor é fruto das drogas, não sendo muito valorizado, o contrário ocorreria se a festa resgatasse a cultura nativa das raves, neste ponto o ambiente e as pessoas seriam valorizados, pois a maior parte dos freqüentadores seria os “roots”, ou seja, as pessoas inseridas na cultura psicodélica. Já os que estão ali puramente por diversão vinculam o amor também as drogas, mas ele não é de nenhuma maneira condenável, pois é graças a ela que o clima se mantém em paz, sem contar o prazer que a droga traz.
No momento liminar do rito, após o chamado, o neófito se depara com um evento de grande estrutura, que ocorre na parte do dia, da noite e da madrugada. Com milhares de pessoas que se abraçam e sorriem, mesmo que esta alegria seja fruto das drogas é inevitável à um neófito que ele se sinta bem e bem recebido ali. É neste momento que ele começa a se inserir no meio, observando o comportamento, as conversas e se identificando com ambos. Nos assuntos tratados nas conversas, majoritariamente são relativos a outras festas, drogas, natureza e qualquer outro assunto que não tenha relação direta com as cidades, prova do momento liminar de distanciamento da sociedade urbana.
Segundo informantes, é comum que alguns tutores dêem a “primeira bala” (primeira pílula de ecstasy) do neófito, esta “primeira bala” ocorre na “primeira rave” e é de extrema importância para o entendimento da primeira rave. Como já foi escrito anteriormente, as raves se propõem a expandir a consciência para se compreender a realidade de outra maneira, além da festa em si representar um meio único, vivenciá-la com o auxílio de psicoativos seria um modo a compreender a essência de uma rave. Muitos dos neófitos que usam a droga começam a falar da festa como se estivessem falando de um grande amor da vida deles, como se estivessem conectados com todos da festa e que o sentimento de amor prevalecesse. O que difere de um simples efeito da droga é que este sentimento fica enraizado no significado da rave, ou seja, ele pode passar a acreditar que aquele sentimento realmente exista, sendo alcançada por meio das drogas que servem para evidenciar isso. Além do efeito da droga ser positivo, ele passa a acreditar também que todos estão ali pelo mesmo propósito, na mesma conexão, na mesma freqüência. Neste ponto ele alcança os objetivos do ritual, como explanado anteriormente, que é alcançar o uno, o amor, a paz, a celebração da vida, a transcendência e a expansão da consciência. Ele alcança tudo isso na pista de dança. Vale salientar que isso não ocorre necessariamente com o uso de drogas, de acordo com relatos, muitos freqüentadores só foram usar as drogas meses depois (ou anos) e outros nunca chegaram a usar, estes dizem haver uma conexão entre todos por meio da música, que a transcendência ocorre com a música e com a dança, como proposto pelo ritual de Goa Gil.
Grande parte dos neófitos alcançam este estado de união por meio das drogas que conseguem por meio de seus tutores, poucos são os que alcançam sem as drogas. Os que não utilizam as drogas e não alcançam este estado gostam da festa, mas normalmente reclamam da duração e do cansaço. Fora esta questão das drogas, existe outro elemento constituinte do rito de iniciação, é a questão da música. Pelos relatos feitos durante as festas, é elementar a observação de que eles passam a gostar muito mais desta musicalidade, passam também a observar melhor as características técnicas (mesmo que não amplamente) e falem da psicodelia da música, eles a encheram mesmo que não haja. É interessante observar que nestas festas os sentimentos desejados e os elementos procurados na música são alcançados. Ao fim da festa, o neófito tem a sensação do fim de uma jornada, de um caminho que na grande parte dos casos ele irá refazer.
O momento final, a agregação, não possui grandes mistérios, ocorre da mesma maneira que ocorreria na volta de uma saída comum, mudando somente o horário, que normalmente é no início da noite. A diferença é o sentimento que a pessoa esta, grande parte dos entrevistados dizem que em seu retorno eles se sentiam maravilhados com a festa, tendo consumido ou não drogas. Esse sentimento positivo ocorre devido ao clima que ele conviveu durante muito tempo, seu retorno implica que aquilo é momentâneo, por isso a ansiedade de resgatar aquilo, de voltar para outra rave.
É desta maneira que o rito se finaliza. A iniciação em uma rave como se pode observar ocorre com questões emotivas e hedônicas. Sua força se encontra no sentimento da positividade, da aceitação, da hospitalidade, da liberdade e da ausência da repressão. As sensações mais procuradas numa sociedade que oprime e recrimina. Desta maneira, o rito das raves se caracteriza como um escape á realidade da sociedade, e a iniciação a este rito é a expressão da insatisfação com o que é presenciado na sociedade, variando unicamente com os objetivos do neófito, se ele esta ali por diversão ou por outras razões além desta.
Com todos esse elementos explanados, podemos classificar o rito de iniciação de diversas maneiras. Ele é um rito de contágio, de dinastia, positivo e direito. É um rito de contágio pois exige que as pessoas se conectem de alguma maneira havendo muitos abraços e muitas demonstração de afeto, esse contato é fundamental para o neófito, e também por meio dele que os tutores farão com que o indivíduo se sinta aceito pelo meio. É de dinastia pois não se pretende evocar nenhum espírito, ele ocorre por sua própria qualidade, de acordo com a sua estrutura, no caso em particular, pela manifestação da vida, no amor e da consciência. É positivo pois não esta vinculado a nenhum tabu, não se pretende com ele desfazer nenhum mal no qual fora acometido, ele ocorre de acordo com a vontade própria do neófito, pois ele pretende se inserir na festa. E é direito pois possui uma eficiência imediata, é ali dentro que tudo o que se busca será encontrado e desfrutado, é o momento liminar da festa que é o mais importante.
Share/Save
Posted by Renan Reis on abril 19, 2009 | 4 Comments
Continuando a pesquisa postada no post anterior:
A ritualidade e os fatores sociais das raves
Raves são festas que ocorrem em locais distantes de centros urbanos, com longa duração e tocando unicamente música eletrônica. No caso em particular, a vertente eletrônica é psicodélica, o Psy-Trance. Atualmente percebe-se um grande aumento de freqüentadores, havendo festas com cerca de trinta mil pessoas. Conseqüentemente, muitos destes freqüentadores se apropriam deste tipo de festa para poderem desfrutar da liberdade de consumo de drogas, ignorando a cultura por traz destas festas.
Com toda uma diversidade de público tais festas se tornam um fato social total, pois nelas se encontram muitas influências e fatores determinantes que abranjem todos os campos de atuação do indivíduo. Suas principais influências são religiosas, econômicas e políticas.
No campo religioso se percebe a influência de culturas esotéricas onde se determina o ambiente destas festas como uma espécie de ritual xamânico moderno. Aderindo-se diversos elementos desta espécie de rito, como a música transcendental, a dança como meditação ativa e o uso de enteógenos para se alcançar diferentes estados de consciência. O uso de enteógenos em particular é de certa maneira híbrido, mesmo havendo tolerância e aceitação para o uso destas substâncias, seu consumo exagerado deturpa todo o contexto destas festas, havendo desta maneira distinções entre estes consumidores e consequentemente atrito entre estes usuários. A religião se torna algo não institucionalizado, tendendo ao humanismo religioso onde todos são livres para pensar e fazer o que bem entenderem desde que não prejudique ao próximo.
Nos fatores econômicos o que se deduz é que para viver até certo ponto tal cultura há de se pagar para isso, tanto na entrada para as festas quanto para o consumo, seja qual for. Hoje em dia, os freqüentadores destas festas são majoritariamente membros da classe média, pois se necessita o expendido de valores altos para poder ir a uma festa. Para ilustrar isso, eis uma média de preços: Entrada com média de R$50,00, excursão R$25,00, cerveja R$4,00, água R$3,00, hambúrguer R$8,00, etc. Sem contar o consumo ilícito, onde se comprar uma pílula de ecstasy por R$25,00 e um papel com LSD por R$30,00. Se for fazer a conta, um indivíduo, para ficar a vontade numa desta dessa gastaria por volta de R$288,00, sem contar o uso de drogas, caso opine. Levando a freqüências que estas festas ocorrem, não seria possível para uma pessoa que receba até R$1500,00 freqüentar a todas as festas e ter um bom consumo de bebidas e comida. A pesar do custo, o valor que a maior parte das pessoas gastam é inferior, pois preferem gastar R$25,00 num ecstasy que o manterá com energia por pelo menos quatro horas e consumindo cerca de quatro garrafas de água do que nestas quatro horas consumir diversas latas de energéticos. Isto da uma esclarecida sobre o quanto de dinheiro circula nestas festas, sendo uma grande fonte de renda, tanto para os produtores da festa quanto para os traficantes que a circundam.
Tomando o tema das raves para o lado político, o que se vê é uma grande briga entre os freqüentadores destas festas e a sociedade. Esta briga não é largamente explanada, o que é mostrado pela mídia é um ataque às festas propriamente ditas, fato previsível, pois os próprios freqüentadores compõem a elite da sociedade. Este embate ocorre devido ao uso exagerado das drogas que foi completamente explanado após a popularização destas festas. Neste ponto, os ideais da cultura psicodélica são completamente esquecidos, sendo jogados para o campo utópico. Todo esse ressentimento devido aos atritos com a sociedade é mostrado no “Manifesto Raver”, um manifesto de autoria anônima que está presente em todo o planeta, explanando os ideais e as considerações para com a sociedade. Toda esta briga ocorre de forma extremamente semelhante ao que ocorria com o movimento hippie, sendo o mesmo pai do Psy herdando às raves sua característica política sócio-ambiental, além dos fatores culturais como o malabarismo, a pirofagia e a arte plástica, todas sendo representações marginalizadas.
As características citadas acima mostram porque as raves são um fato social total. Outra característica de fundamental importância para se entender estas festas são o elementos ritualísticos destas festas. As raves em sua essência compõem um ritual moderno com raízes xamânicas e hinduístas. Seu propósito original é a celebração da vida, a difusão do amor e a expansão da consciência para se melhor compreender a realidade e se alcançar um estado uno entre as pessoas, além dos ritos de passagem que ocorrem dentro destes ritos maiores e coletivos.
A celebração da vida se da pela preocupação com a natureza e também com a saúde. Apesar dos consumos excessivos de drogas, existe uma recriminação a esta atitude devido à questão da necessidade, pois o uso exagerado de certas substâncias pode ser prejudicial à saúde, por isso o indicado é usar menos, principalmente o êxtase, sua indicação de quantia suficiente é de uma pílula a cada seis horas no máximo.
Com exceção do uso de drogas, cigarros e bebidas existem muitos debates sobre saúde e meio ambiente. Encontrando-se muitos vegetarianos neste meio, assim como pessoas vinculadas a natureza, desde esportistas conscientes às ativistas ambientais.
Já questões de difusão de amor, estado uno entre as pessoas, expansão da consciência são características com dois pólos, o primeiro se da ao que é feito durante as festas e fora das festas que possa contribuir para estes pontos, exige-se atitudes politicamente corretas para realmente ser um “trancer”; outro pólo é o uso de drogas para se sentir o amor, a unidade e a expansão da mente.
Drogas como o ecstasy provocam uma sensação de amor mútuo com todos, já o LSD estimula os sentidos humanos mostrando ao usuário outra interpretação das imagens, sons e toques, assim como dos atos. Como se percebe, os rituais xamânicos foram alterados, principalmente quanto às drogas. Não se tendo acesso às substâncias utilizadas pelos índios, o que se faz é uma substituição destas substâncias por drogas sintéticas. O LSD é sintetizado de um fundo de centeio, o claviceps purpúrea, que é utilizado em ritos xamânicos da Índia. O ecstasy apesar de não ser um sintetizado de alguma substância enteógena utilizada em ritos xamânicos possui as mesmas características que o khat possui, sendo este uma árvore africana que possui efeitos enteógenos utilizada a milhares de anos em cerimônias religiosas dos egípcios. O que nos mostra que o uso do ecstasy não está unicamente atrelado à diversão, mas também que devido aos seus efeitos serem também buscados dentro de uma espécie de rito (que muito provavelmente não ocorre só no Egito) ele se enquadra dentro de um rito devido aos seus efeitos.
Essa questão de drogas ritualísticas deve ser bastante analisada, o que se percebe dentro de uma rave é que as drogas majoritariamente utilizadas possuem, em algum contexto, um uso ritual. LSD na índia, efeitos do ecstasy semelhantes ao khat africano, o hashish nos ritos oferecidos à Shiva, a maconha usada por índios após a descoberta e associada à Jurema em algumas tribos, etc. O que nos leva a perceber que há elementos no consumo de drogas em religiões ancestrais modificados para se terem a mesma utilidade prática em tempos modernos.
Dentro deste ritual moderno, encontra-se um símbolo que une a todos, assim com em todos os outros rituais. No caso em particular, o símbolo é o “flyer”, que é uma espécie de panfleto para divulgação da festa. Este símbolo é de extrema importância em seu nível exegético, pois ele mostra o que a festa será, e o que se espera dela. Já em seu nível operacional ele serve para atrair o público, mostrar o conceito da festa, é também por meio dele que muitas pessoas avaliam as boas festas, de acordo com o horário e com o “line up”, assim como ser uma das principais formas de divulgação on-line ou off-line. Em seu nível posicional ele não possui uma grande importância, ele estará com o freqüentador antes da festa, servindo como fonte de informação, durante a festa ele provavelmente não estará mais com o indivíduo, caso seja, será somente para poder se acompanhar o “line up”; e após a festa estará estocado dentro de uma gaveta ou na lixeira, irá perder toda a sua importância, servindo unicamente como lembrança.
Todo esse ritual começa a se formar algumas horas antes do evento. O momento de separação em que os membros farão com a sociedade começa na ida a festa. Esta separação ocorrer de forma física, se afastando da metrópole e se inserindo em cidades do interior, onde a natureza é mais abundante e também onde há menor fiscalização da polícia (apesar de que hoje em dias estas festas estejam sendo perseguidas) e de outras autoridades. Neste período, quando ocorrem por meio de excursões às pessoas se conhecem e já se preparam para a festa. Existe certa resistência neste ponto, pois mesmo que estejam se deslocando da sociedade há o risco de serem parados pela polícia e terem suas drogas apreendidas, acabando com a festa de muitos. Mas todo esse momento de separação acaba quadno se chega à festa, pois neste momento o que ficou pra trás só será lembrado na volta.
O momento da chegada marca a liminariedade do ritual. Neste momento as regras da sociedade são esquecidas quase que totalmente, pois neste espaço as pessoas podem
Share/Save
Posted by Renan Reis on abril 7, 2009 | No Comments
Bom dia/tarde/noite a todos, gostaria de compartilhar com vocês uma pequena pesquisa de antropologia cultural que executei em 2007. Nesta pesquisa tenteo o mais fielmente possível traduzir o meio das raves (e os indivíduos que fazem parte dele) numa liguagem mais acadêmica. Fiz a pesquisa para uma matéria na Universidade Cândido Mendes, um treinamento.
Irei dividi-la em 8 partes e ir aos poucos postando aqui para vocês, desta maneira a leitura não fica tão grande nem cansativa. Espero que gostem!
———————————————————————————————————-
INICIAÇÃO ÀS RAVES PSICODÉLICAS URBANAS, SEUS ELEMENTOS SOCIAIS E RITUALÍSTICOS.
1 - Tema da pesquisa.
O assunto tratado na dissertação a seguir será a explanação dos fatores sociais da raves psicodélicas que ocorrem nas cidades de interior do estado do Rio de Janeiro. Além disso, também será dissertado como seus elementos constituintes formam uma espécie de ritual moderno espelhado no xamanismo. Com estes pontos esclarecidos, a pesquisa se voltará ao indivíduo que irá se iniciar neste ambiente, suas razões e as barreiras que ele enfrenta, assim como as barreiras que derruba para se tornar um freqüentador deste meio.
1.2 - Metodologia adotada.
A pesquisa será feita por meio de trabalho de campo para se observar o comportamento, o contrato social destas festas e as características da estrutura destas festividades. Posterior a esta parte, será feita uma observação de portais da internet onde estes freqüentadores interagem para fazer uma análise da mentalidade destes freqüentadores, o que pensam sobre a atual situação destas festas, sobre as questões políticas contra a sociedade em geral e o que consideram como nativo neste meio. Também serão feitas entrevistas com informantes, tanto os que ali encontram elementos de sua identidade e espiritualidade, quanto outros que freqüentam as raves unicamente por diversão.
Acabadas estas três etapas, os dados serão analisados e se pretende explanar a estrutura ritualística e social das festas e como um indivíduo de fora deste meio se introduz no mesmo.
2 - Historicizando o Psy-Trance.
Foi no estado de Goa, na índia, onde se pode afirmar que a cultua psy-trance nasceu. Goa era uma região cristã colonizada pelos portugueses. Diferente das outras regiões indianas, Goa possui uma maior tolerância e diversificação cultural. Era um “ponto de encontro internacional”; pela sua cultura espiritualizada e não materialista, muitos adeptos aos ideais hippies, antropólogos, místicos e traficantes de drogas viajavam frequentemente para a região. Faziam-se diversas festas que tocavam rock-psicodélico e reggae em grande maioria, até que entre os anos de 1987 e 1988, o DJ Laurent introduziu a música eletrônica nestas festividades. No início não foi muito bem aceito, mas em pouco tempo se tornou uma febre e causou uma reação em cadeira que revolucionou o cenário da música eletrônica internacional.
Pode-se perceber uma grande ligação entre a queda do movimento hippie e a introdução da música eletrônica nas festividades de Goa. Isso ocorre devido a um processo de aculturação. Paralelamente ao fato de que os viajantes transformavam Goa, estilos de música eletrônica começavam a se desenvolver, como na Inglaterra e Alemanha.
Dentre os hippies que vieram da Califórnia para Goa, destaca-se o DJ Goa Gil. Gil resgata a musicalidade xamânica, os tambores repetitivos, e a une com a música eletrônica e conceitos de Yoga, tudo isso para “redefinir o antigo ritual tribal para o século XXI” (Goa Gil: Site). Se utilizando, numa cerimônia, a música, enteógenos e a dança. Nas próprias palavras de Goa Gil, “Dança é meditação ativa… Ao dançarmos nós vamos para além do pensamento, além da mente e além da nossa individualidade… Tornamo-nos UM no êxtase divino criado pela união com o espírito Cósmico… Esta é a essência da experiência do trance através da dança…” (Site). A semelhança entre a musicalidade dos rituais xamãs e a música eletrônica de Gil pode ser analisada por meio do eletro encefalograma (EEG). Pela proposta de Gil, o que pretende trabalhar é a região cerebral afetada pelo comprimento de ondas de 8 a 13 Hz (região occipital, córtex visual), ou seja, expandir a consciência, e concentrá-la no mundo interior (Gramacho, 2002). Surge aí o que pode ser chamado de “tecno-xamanismo”, ou seja, um xamanismo adaptado ao universo do trance com ferramentas tecnológicas.
O que se percebe nesta tribo é que ela é universal, a todo instante influências externas chegam, novas regiões do planeta são “infectadas” com o trance, e, deste modo, a cena não para de crescer. E é isso que torna o universo do psy-trance tão singular, além de ser um estilo de música muito atrativo, é também um estilo de vida, uma filosofia que sobrevive desde a época dos hippies
3 - O sujeito híbrido: a cena híbrida
Identidade: é sobre isso que iremos falar nesta etapa. Todos buscam saber o que somos enquanto indivíduos pertencentes a um determinado meio e tempo, a uma determinada cultura. A todo instante nos deparamos com contradições e diferentes identidades dentro de nós mesmos. Este é o sujeito atual, o que se comporta e age de forma diferente, de acordo com o local onde está. É o sujeito híbrido, ou seja, aquele que é o fruto da fusão de diferentes tradições culturais, criando novas culturas, mais apropriadas ao seu meio.
A pós-modernidade é inerentemente globalizante. O sujeito dos dias de hoje está inserido num processo de globalização, onde distancia e tempo são diminuídos, aproximando culturas, misturando-as. Isso nos mostra que o espaço e o tempo também são coordenadas para representações (cinema, fotografia, desenho, escrita, etc.). E é dentro destas representações que o sujeito se identifica e dialoga. Num mundo globalizado, estas representações se tornam híbridas e, desta maneira, a identidade cultural do indivíduo também.
Esse encurtamento de espaço que coloca a cultura global em embate com a cultura local é o processo da globalização. No universo das raves psicodélicas podemos perceber isso de forma bem clara. Sua cultura local, baseada na questão da liberdade, difusão de filosofias e crenças entra em embate com a cultura global, ou seja, uma cultura comercial. Pode-se afirmar que houve hibridismo, surgiu uma nova cultura psicodélica, que é comercial, porém ainda manteve resquícios de sua origem.
O que entra em debate é o indivíduo neste meio das raves. A cena psicodélica carioca está extremamente vinculada com o lado filosófico, fraco, porém que luta para sobreviver, e em oposto, está vinculada também ao ambiente de produção cultural executiva, ou seja, aquela produção voltada para arrecadação de lucro. Esta dualidade na cena a coloca em semelhança à comercialização de serviços que não deveriam ser comercializados, como atividades religiosas ou terapêuticas; estas duas últimas também tendo um vínculo com o mundo das raves, devido à herança indiana. O que podemos perceber neste ponto, é que ainda existe a procura pelo universo alternativo, aquele que se adequar às necessidades do hibridismo que as identidades pessoais pedem. Em outras palavras, um contexto onde certos paradigmas estejam descartados e que a liberdade de expressão e atitude sejam abertas, mesmo que para isso seja necessário comercializar, ou pagando para viver esta nova cultura.
Por todo esse dilema envolvendo comércio e cultura de raiz, as pessoas que freqüentam as festas de psy-trance possuem uma gama de estereótipos. Existem aquelas que freqüentam por moda e outros por curtirem a psicodelia. Há também aquele que vai às festas pela psicodelia, mas que não suporta o meio comercial, e ainda aqueles que deixam de ir devido à mudança provocada no universo das raves. São pessoas diferentes, convivendo num mesmo ambiente, se comportando de diferentes maneiras e pensando de diferentes formas. Um público com tantas identidades, num mesmo meio, modificado devido às influências da globalização da cultura. Consequentemente, estas diferentes identidades assumem estereótipos, que vão desde a razão de freqüentarem as festas até a questão da indumentária. Tal contraste gera conflitos, estereótipos contra estereótipos. E qual a razão disso tudo? O encontro com o “outro”: o diferente sempre será rotulado da maneira que um estereótipo consegue fazer, o que varia de acordo com quem é o “eu” desta pessoa no contexto das raves. É a rotulação do outro que causa as desavenças entre as diferentes tribos deste meio.
Por fim, percebemos que a cena atual representa um diálogo entre o comercial e o original; expressando o diálogo entre a cultura global e a local. Também existem as confluências das diferentes tribos deste universo. Havendo tantas confluências, tanto nos elementos deste meio, quanto nas tribos deste meio, pode-se perceber as raves como um universo híbrido e amplo, que, apesar da corrosão que passa, ainda se mantém em pé, com certa paz. Desta maneira, seria possível dizer então que o universo das raves caminha junto com a cultura global, da mesma maneira que o movimento hippie caminhou com o capitalismo ao levar as indumentárias para butiques; o que nos leva a concluir que o universo psicodélico foi levado ao comercial justamente por ele. Sendo um universo que gera uma ameaça, foi enquadrado para não oferecer risco, ou seja, as raves foram vendidas para evitar outros conflitos.
Share/Save