Muitos de nós ja se depararam com o símbolo do OHM em alguma rave, estaria mentindo quem disser que nunca viu. Hoje fiquei pensando, porque raios o OHM é tão presente nas raves e na cultura hippie de um modo geral? Já percebi que tem muita gente por aí que não conhece o significado do OHM, e outros ainda falam que esse é o símbolo (oficial?) do psy trance (???????). Sei que grande parte tem conhecimento do que é OHM, o mantra da origem, aquele que originou todas as outras coisas, o som do princípio do mundo.
Mas realmente não vejo uma ligação direta com as raves psicodélicas, o OHM até o que parece, é um elemento adicionado ao mundo psicodélico devido a aculturação ocorrida na origem das raves. De modo geral, todo movimento cultural tem uma necessidade interna de se verbalizar por meio de símbolos, sejam já existentes ou criados. O símbolo é um elemento determinante na grande maioria das culturas, é através dele que se demonstra de forma resumida uma rede de significados que caracteriza determinado grupo. A natureza do símbolo é “superior” a do conceito, visto que o conceito é a aglutinação de diferentes idéias para se formar uma idéia mais abrangente (ou o contrário, depende do contexto), já o símbolo é uma aglutinação de conceitos. E ainda existe a forma conjunta de símbolos, como podemos ver em qualquer imagem hindu, cada parte da imagem é o símbolo de um conjunto de conceitos. Exemplo é o rato que Ganesh tem sempre perto de ti, que representa a ignorância; o rato é o símbolo e a ignorância o conceito, e, a partir deste conceito, temos um ramo de idéias que o compõe. Essa é a natureza do símbolo, representar imageticamente um conceito, ou um conjunto destes.
No mundo do psy trance temos uma problemática, não temos um símbolo original, e o que mais fica em voga, que é o OHM, não possui uma relação direta com o psy trance. Nos faltam conceitos em relação ao OHM, falta fazer uma conexão direta entre o “princípio de criação” e o psy trance.
Isso é um problema? É e não é! Isso se torna um problema quando precisamos de algum símbolo PARA o psy trance, um símbolo que determine uma musicalidade, estilo de vida, pensamento e comportamento determinado. Algo que quando levantado em uma bandeira as pessoas possam ver e dizer: “esse é o símbolo de minha cultura”, ou, “ali tem uma galera do psy”. Agora, isso não é um problema se formos pensar a questão de troca cultural; se um determinado indivíduo ver que o psy trance é simbolizado por um elemento de outra cultura, a nossa identidade multifacetada fica mais em voga, e isso é atrativo aos olhos de leigos. Um hindu, ao ver um símbolo de supra importância de sua religião em uma manifestação cultural diferente (em alguns pontos) da sua poderá ver que ali ele encontrará algo que irá gostar, se sentirá também como membro do grupo; ou o efeito contrário, pode ficar ofendido que seu símbolo sagrado seja usada tão vulgarmente.
Realmente considero de suma importância essa questão de símbolo, apesar que hoje estaria tarde demais para se pensar em criar um. Acaba que o nosso “símbolo” é a própria psicodelia, construção e reconstrução da realidade, multifacetar a identidade, a observação da realidade e o comportamento. Pensar um símbolo em uma cultura é pensar a identidade, e esse ponto no mundo do psytrance é tão diverso que fica praticamente impossível resumir em um símbolo.
Na falta de um símbolo imagético, acabamos substituindo-o por um símbolo sonoro, o próprio psy trance. Que mesmo sem palavras (em sua grande maioria) simboliza o que queremos que o OHM (que simboliza também um som) pintado em lycras simbolize para nós, é da música que criamos, é pela música que nos identificamos e é a música que nos legitima como cultura.
Fugindo um pouco da temática do blog, gostaria nesta postagem mostrar aos caros internautas minha indignação a respeito da atitude de governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, perante a manifestação dos professores que ocorreu hoje em frente a Alerj.
A manifestação ocorreu em oposição votação da lei 2474 que incorpora a gratificação do Nova Escola em seis anos ao salário dos professores e também altera o plano de carreira estadual, os professores exigiam que a gratificação fosse incorporada ainda neste mandato, também exigiram que os professores com carga horária de 40 horas fossem incluídos no plano de carreira.
Entendo que qualquer manifestação deste tipo traga transtorno, como “desordem” e problemas no tráfego, entretanto ,temos que ver que os professores estão no direito de protestar, e a atitude de Sérgio Cabral não passa de uma forma autoritária de impor uma “ordem”, uma maneira de calar os professores. Eu não estava presente, mas imagino que a “bagunça” feita em frente a Alerj no dia da aprovação da lei que legitima o movimento do funk como movimento cultural tenha sido muito maior, mas neste assunto, é muito mais interessante ao Governo manter as aparências e se demonstrar politicamente correto, mesmo que as ações da polícia demonstrem o contrário.
O que é revoltante neste caso é justamente a violência, professores que lutam pelos seus direitos são tratados feito bandidos, e somente alguns deputados demonstram interesse imediato. Será que sempre iremos precisar que o caos se instaure para que as lutas sociais sejam vistas? Será que o Governo não conhece melhores maneiras de resolver o problema?
E é nesse mundo em que vivemos, policiais que recebem como base R$700,00, professores mau pagos, deputados superfaturados e uma política quase fascista para se enfrentar os problemas.
Enquanto isso a favela ta batucando, professores estão apanhando, alunos estão sem aula e deputados em audiência com o Paulo Otávio!
Não é de hoje que vemos muitas pessoas criticando as ações dos jovens ou de pessoas de outras tribos, metaleiros criticando os emos, roots criticando os fanfas, sociólogos criticando jornalistas e etc. O julgamento do próximo é uma característica inerente do ser humano, ele observa, filtra de acordo com o seu próprio pensamento e monta uma idéia, quase sempre dicotômica, o modelo do outro é inferior (por ser diferente) do que o meu.
O que pensamos hoje de certas coisas é fruto de nossas experiências do passado, temos nossas experiências, as superamos e criamos nossos conceitos, certo, errado, produtivo, improdutivo, idiota, genial, etc. Temos um problema quando observamos outros indivíduos que tomam atitudes que para nós são problemáticas simplesmente porque já “superamos” este padrão de comportamento. Quando uma pessoa que já trabalha a anos observa uma outra pessoa que esta ingressando no mercado de trabalho, e critica pejorativamente suas atitudes impulsivas, ele está, mesmo que inconscientemente, negando a experiência à esta pessoa.
Walter Benjamin tem um excelente artigo, “A Experiência”, que fala justamente disso. Seu exemplo se da na relação pai e filho, onde o primeiro toma sua experiência de vida como uma maneira certa de leva-la, e por seu filho não seguir este modelo ele estará automaticamente errando e consequentemente não terá uma vida segura como a do pai (esse exemplo é vivenciado por Benjamin). Não poderíamos deixar de entender o posicionamento do pai, visto que ele sempre (ou quase sempre) deseja o melhor pelo filho, mas esta atitude, que em algum nível todos nós tomamos, renega a atividade filosófica e cognitiva da vida; a qualidade de aprender por diferentes experiências.
Ao andarmos pelo mundo, observa-lo e interagir com ele estamos vivenciando-o e aprendendo; estamos automaticamente tendo experiências que nos mostram as diferentes possibilidades da realidade, assim como aprendemos suas regras, sua estrutura e a maneira que ela se desdobra em si mesmo. Sim, devido a nossas escolhas cometemos erros que podemos nos arrepender pelo resto da vida, mas estes não existem porque deixamos de seguir um modelo de vida, e sim devido às circunstâncias e a nossa própria culpa.
Termos a culpa e o mérito é fundamental para podermos nos ver como indivíduos que atuam e transformam o mundo a sua volta. Ora, se muitos seguiram a sua vida de acordo com suas próprias experiências, porque nos prendermos ao julgamento das ações de outros? Porque temos que observar os outros através da nossa ótica individual e crer que ele esta cometendo um erro simplesmente por estar atuando de forma diferente a nós?
Até onde pude observar, isso não tem resposta, me parece que é natural do ser humano fazer este julgamento dicotômico, mas ele é sempre feito sem reflexão, e quando há uma tentativa de pensar estes julgamentos, muitos ficam presos às premissas de seus preconceitos, e também ao velho argumento, “eu sei como que é”.
Isso é por demais fatal, a arrogância de crer que sua experiência deva ser modelo aos demais é o mesmo que negar aos indivíduos que eles vivam e aprendam, no sentido mais filosófico do que seria viver e aprender. Devemos refletir sobre estas questões sempre que julgamos as ações de outras pessoas, e vermos se o que pensamos realmente condiz com a realidade ou é simplesmente uma maneira de diminuir as pessoas pelas suas diferenças comportamentais e de escolhas.
Diga não a padronização e sim à experiência de cada dia.
Quantos de nós que usam enteógenos já não se deparou com a pergunta: porque você usa enteógenos? Estaríamos mentindo se disséssemos que nunca. Essa dúvida é comum a muitos que não fazem tal prática. E não podemos condena-los por isso, afinal de contas, cada pessoa escolhe a sua maneira de interagir, observar, conceituar e julgar a realidade. Mas não são muitos que se propõem a questionar a realidade tão profundamente ao ponto de chegar a duvidar da praticidade e “legitimidade” da mesma. Confessemos, nossas dúvidas e exercícios dialéticos podem chegar a um ponto que a diferença de uma pessoa que faz estes questionamentos e um esquizofrênico fica por demais tênue.
O uso de enteógenos (que para ser visto como tal depende do contexto que se usa) pode começar como uma forma de entretenimento (a forma mais comum nos dias de hoje), como uma maneira de fugir do cotidiano, ou como uma maneira de “ver” que seus pensamentos mais metafísicos são de fato observáveis (e, consequentemente, reais e legítimos). Normalmente as pessoas que começam a se aventurar nesta atividade estão em um destes três casos.
O uso recreativo não precisa de longas explanações, afinal, se resume a uma busca de sensações e prazeres da carne (apesar de transcenderem isso). O “enteógeno” neste caso não é um enteógeno, é simplesmente um substância psicoativa que lhe oferece tudo o que um culto dionisíaco pode querer.
Já quando a pessoa os usa para fugir do cotidiano, pessoalmente aconselho um psicólogo, ou que passe a ver as coisas boas da vida. Normalmente estas pessoas só observam os fatos negativos da vida, e ficam tão contaminadas desse pessimismo que precisam literalmente de uma dose de felicidade, precisam sentir que o mundo também é bonito, prazeroso. Mas normalmente não avançam na questão, afinal, o mundo enteógeno não é “cor de rosa”, para aprender precisamos dos demônios. Também nesse caso, o enteógeno se enquadraria como um psicoativo.
Já no terceiro caso que citei, o que a pessoa quer “ver seus pensamentos metafísicos”, poderíamos dizer que a substância se enquadraria como um enteógeno, pois para isso ela necessita que em se contexto os que a utilizam o façam no propósito de aprender e expandir a consciência. E é esta a principal função de um enteógeno, sendo este uma forma de catalizador dos processos de expansão da consciência. Nesse caso, o indivíduo tem a consciência de que o universo inconsciente é tão manifestável e real quanto o consciente, ele, na maior parte das vezes, precisa observar isso para que suas dúvidas cessem.
Os motivos são os mais diversos, mas o “mais nobre” (isso se eu for hábil a julgar) é aquele onde o objetivo principal é aprender, expandir a consciência. Perceber que o universo onírico não é uma simples reação de nosso cérebro, mas sim uma ferramenta que organiza e estimula a produção de conhecimento. E por ser uma ferramenta “objetiva”, ela é tão real quanto o computador a sua frente (que também é uma ferramenta).
Cabe alguém a julgar que usar essa ferramenta é um erro? Talvez sim, por questões de saúde ou psicológicas. Mas como não são crianças que o fazem (salvo algumas raras exceções, como no Santo Daime), temos consciência de nossos atos e por termos que faze-los com responsabilidade devemos ter consciência das formas de uso, o que inclui o uso consciente e responsável. Não estamos falando de brinquedos, e sim de ferramentas que podem trazer sérias consequências. Temos que ter conhecimento do que estamos fazendo, sermos autocríticos e conhecermos nossos limites.
Faço esse apelo, pois observo que o comércio de enteógenos esta crescendo, e não sei ao certo se esta sendo consumido por pessoas do terceiro caso. Todas tem a “permissão” para isso, mas escapismo e hedonismo podem levar à ignorância, mesmo que a verdade esteja escancarada na cara da pessoa.
No presente ensaio, irei tratar do processo histórico de construção da doutrina do Santo Daime, abordando as influências culturais que desencadearam um processo de ressignificação do chá Ayahuasca. Este processo, que desemboca na constituição de uma nova religião, surge da influência do catolicismo popular maranhense, pajelança e certas linhas religiosas de origem africana. A mudança de perspectiva acerca da Ayahuasca desencadeou uma nova visão nacional acerca do uso ritual da Ayahuasca que deram início ao processo de inclusão do uso ritual do chá como um Patrimônio Cultural Imaterial, título dado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Beatriz Cauby Labate e Gustavo Pacheco falam das influências culturais do Maranhão (local de nascimento do fundador da religião) sobre a religião Santo Daime no artigo “As Matrizes Maranhenses do Santo Daime”. A primeira das influências citadas é do “Tambor de Mina” - prática regional de possessão em cultos afro-brasileiros - e da pajelança - manifestação que engloba o catolicismo popular, práticas indígenas, tambor de mina e outras influências maranhenses.
O primeiro ponto que chamam atenção é o termo “doutrina”, adotado pelos praticantes do Santo Daime ao se referirem à própria religião, além de referir à apresentação dos ensinamentos e preceitos da religião na forma de música. O termo é comumente utilizado no Maranhão para se referir as cantigas do tambor de mina e pajelança. Os termos “balanço” e “firmeza” também presentes no Santo Daime, que dentro da religião dizem respeito à força da bebida do chá e a capacidade do fiel se manter em seu lugar e suportar o poder do chá respectivamente, também estão presentes nestas práticas maranhenses; firmeza seria a habilidade dos curadores executarem seus deveres, e balanço é o anunciamento da chegada dos espíritos nas práticas da pajelança. Também podemos observar a influência de Nossa Senhora da Conceição, muito presente na religiosidade popular (principalmente na pajelança), dentro da doutrina do Santo Daime que a tem em local de destaque.
Labate e Pacheco também falam das possíveis influências que a Festa do Divino Espírito Santo possa ter tido em Irineu da Serra (fundador do Santo Daime). Toda a Festa do Divino gira entorno do grupo de crianças denominado de “império” ou “reinado”, termos também presentes na cosmologia do Santo Daime que toma os fiéis como guerreiros do império de “Juramidam” e a plantação de Jagube (planta utilizada na confecção do chá, Baniseopsis Caapi) como “reinado”. Outro elemento presente na festividade que dialoga com o Santo daime são as músicas cantadas pelas caixeiras do Divino que expressam cada etapa da festividade. Os versos dos hinos que demonstram tal influência (hinos n° 17 e 73, transcritos em parte no artigo de Labate e Pacheco) demonstram semelhança no conteúdo, na métrica e no estilo às cantigas das caixeiras na Festa do Divino. Os últimos pontos que Labate e Pacheco falam das influências maranhenses diz respeito ao baile de São Gonçalo. O baile, que consiste numa representação feita por diversos casais “bailantes” liderados por um “guia”, tem semelhanças estilísticas com o “bailado” (ritual do Santo Daime). A própria disposição espacial das igrejas do Santo Daime possui semelhança com o barracão do Baile de São Gonçalo, que não apresenta paredes inteiras e em sua entrada possui imagens católicas. Outra influência do Baile são as fardas brancas e as faixas coloridas utilizadas por seus praticantes e também presentes nos cultos daimistas.
Esses dados coletados por Pacheco e Labate contextualizam as influências culturais de Irineu da Serra no período que ainda morava no Maranhão, os pesquisadores entrevistaram parentes e conhecidos de Irineu da Serra para poderem chegar a tais conclusões, que na verdade não passam de hipóteses, visto que não tinham acesso a documentos. Mas ainda assim podemos observar que diversos elementos da cultura maranhense estão presentes no Santo Daime, o que legitima as hipóteses apresentadas por Labate e Pacheco.
Para podermos analisar a conjuntura de influências e contextualizá-la na teoria antropológica e depois analisarmos as influências políticas, devemos observar outras características do Santo Daime apresentadas na pesquisa de doutorado de Isabela Oliveira que diz respeito ao processo de ressignificação da Ayahuasca pelo Santo Daime.
A forma que cada usuário tem de ver a experiência é determinada pelos sistemas de símbolos que oferecem para compreensão da realidade, dessa forma, os significados tomados pelos adeptos durante as diferentes etapas do culto são oriundos dos elementos que dão significado e ordenam a prática presentes na doutrina, que como podemos observar, possui diversas matrizes de símbolos.
Na concepção cristã de sacramento, este pode ser compreendido como um ato simbólico observável que detém qualidades sagradas, sendo um meio de se estabelecer contato com o universo mítico presente na religião, que engloba o seu sistema simbólico. No caso específico do Santo Daime, o sacramento é o próprio chá da Ayahuasca, que estabelece o contato com o “astral” (termo utilizado pelos praticantes ao falarem do mundo espiritual). Nota-se que a visão do Santo Daime para com o chá da Ayahuasca é nitidamente uma perspectiva cristã de sacramento, sendo esta maneira de pensar o início do processo de ressignificação da Ayahuasca. Oliveira comprova esse argumento quando, a partir de entrevistas com adeptos, demonstra que os próprios vêem a ingestão do chá como uma forma de comunhão como o corpo e sangue de Cristo, mesmo não sabendo definir o conceito de sacramento. O próprio ato da ingestão do chá demonstra essa influência cristã, fato observado pela presença do Cruzeiro e do ato de fazer o sinal da cruz quando for ingerir a bebida, ou após.
Outro ponto que Oliveira nos traz, e que demonstra a influência cristã, são as datas comemorativas. Celebram os dias de Nossa Senhora da Conceição (padroeira da religião), Natal, dia de São Sebastião, Santo Antônio dentre outros. Datas estas amplamente celebradas na cultura popular brasileira. Além das influências cristãs, Oliveira fala das influências culturais do pensamento esotérico e espírita, observáveis em hinos que falam de entidades não cristãs, tais como: pretos-velhos, orixás e caboclos.
Segundo Christian Frenopoulo, comentado na tese de Oliveira, o consumo da Ayahuasca dentro do contexto do xamanismo é voltado para o restabelecimento de laços sociais (assim como manter uma relação com o mundo espiritual), sendo utilizada pelos xamã tanto para cura quanto para estabelecer um contato com o paciente e poder compreender a origem da doença. Já no contexto das religiões ayahuasqueiras cristãs, a bebida passa a ser ferramenta sacralizada para exploração pessoal, através da mente, do universo religioso sistematicamente cristão. Sendo assim, as causas das doenças, antes vistas como consequência de algo que diga respeito à relação com o mundo espiritual e com o próximo, passa a ser compreendida como originadas de vivências pessoais. Para Frenopoulo, esta mudança é conseqüência da influência do pensamento esotérico, cristão e espírita presentes nestas religiões, como o Santo Daime.
“Assim, na compreensão de Frenopoulo, a partir do Santo Daime e de outras “religiões ayahuasqueiras”, o consumo da Ayahuasca passou a ser um exercício religioso por si só. Por sua vez, a cura das doenças, passou a ser percebida como um acontecimento interior, que envolve a reconfiguração da identidade do doente, por meio da “iluminação interna”, de uma transformação psicológica, que acontece durante o processo de ingestão da Ayahuasca, percebida como um veículo de exploração psíquica.” (Oliveira, 2007:69)
Segundo os adeptos do Santo Daime, a doutrina, os elementos ritualísticos e o nome da religião foram designados a Irineu da Serra através do encontro deste com a própria Virgem Maria. Porém, como podemos observar nas tradições nativas da Amazônia, é comum dentro deste pensamento religioso o encontro com entidades espirituais que são reflexos das influências culturais que envolvem o indivíduo na experiência. Desta maneira, podemos observar a importância que a influência cultural (visto que Irineu da Serra, em sua juventude, teve uma vivência cristã) é importante na construção dos significados das experiências que se tem.
Dessa maneira, podemos tomar o Santo Daime como fruto da dinâmica religiosa contemporânea, que, de acordo com Alberto Groisman, pode ser compreendido a partir do conceito de “ecletismo evolutivo”, que justifica e representa a coexistência de diversos sistemas cosmológicos em um só. Sendo mais um conjunto de valores para a aceitação de diferentes tradições espirituais que dialogam na mesma prática, a ingestão da Ayahuasca.
Os cultos ayahuasqueiros do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal (ramificações do Santo Daime) são compreendidos por Sandra Lúcia Goulart como reelaborações do curandeirismo amazônico e surgem em momentos de transformações históricas e sociais na região, podendo ser ressaltado que na literatura antropológica e histórica é evidente que o efeito de psicoativos, além das questões bioquímicas, também é influenciado pelo seu contexto sociocultural.
Este contexto inicial onde se da o surgimento da doutrina do Santo Daime é registrado como um momento de grande troca cultural entre populações indígenas e nordestinas que entraram em contato devido à emigração de nordestinos à região para a exploração de látex. Foi neta situação que Irineu da Serra conheceu a Ayahuasca, e destacando-se nos aprendizados espirituais, não somente aprendeu a utilização nativa da bebida, mas desenvolveu o conhecimento acerca da mesma, sendo mais uma evidência da influência de saberes amazonenses antigos no pensamento daimista. Dentro deste saber nativo, é aceito que a origem da Ayahuasca remete à civilização Inca, “fato” aceito pelos adeptos do Santo Daime, o que demonstra que a sua doutrina represente uma continuidade de saberes culturalmente distintos.
Por mais que seja aceito que a origem da Ayahuasca remete aos Incas, o significado original da Ayahuasca é alterado de modo a valer aos daimistas. Na concepção do Santo Daime, o consumo nativo da Ayahuasca é dado como “primitivo” e fora “aprimorado” por Irineu da Serra. Esta dicotomia entre “primitivo” e “aprimorado” evidencia a sobreposição do valor dado à Ayahuasca pelo Santo Daime ao valor atribuído ao uso nativo, sendo o primeiro “superior” ao segundo. E, de acordo com relatos tomados por Isabela de Oliveira, o processo que ressiginifica este uso da Ayahuasca é a doutrinação (daimista) da bebida. De acordo com informantes de Oliveira: “O nome doutrinado é Daime”. Neste momento abandona-se o termo “Ayahuasca”, que indica a origem nativa, e usa-se o termo “Daime”, que conceitua o chá ressignificado. O processo de resignificação da Ayahuasca, além das questões doutrinárias, também ocorre para expandir o consumo do chá. Desta maneira, a ressignificação da Ayahuasca é um meio de construir referências culturais que pudessem atingir indivíduos que não compartilhassem da cultura nativa amazonense.
De acordo com a pesquisa de Isabela de Oliveira, o compromisso que Irineu da Serra tomou em trazer o chá para o povo brasileiro, foi feito também para enobrecer a pátria. Nas palavras de Irineu: “Se tu for valorizar o Brasil, eu te levo para o meu Brasil. Mas se tu for me desmoralizar o Brasil, tu ficas aqui.”. Sendo assim, Irineu da Serra, para enobrecer o Brasil, “especializa” a Ayahuasca instituindo o uso religioso da mesma. Este espírito nacionalista pode ser entendido como fruto da conjuntura social e histórica da época, onde havia conflitos entre Brasil, Peru e Bolívia oriundos da atividade econômica dos seringueiros que foram influenciados pelo imaginário nacionalista propagado pelo Estado Novo e na idéia de ocupação das fronteiras nacionais.
O contexto nativo do uso da Ayahuasca é compreendido pelos daimistas como fonte de lazer, não sagrado. Visto que, nos relatos tomados por Oliveira, não é atribuído aos índios o desejo de uma experiência transcendental ao se ter o uso da Ayahuasca. Ademais, o uso nativo era associado à sociabilidade humana e práticas satânicas, caracterizando um meio não cristão. O uso do chá passa a ser visto por Irineu da Serra como potencialmente cristão na sua experiência com o mesmo onde ele obteve visões estritamente cristãs, dando início ao processo de ressignificação, do chá para o sacramento. Há assim uma clara distinção entre o uso nativo e o da religião que passa a ser dado como sagrado, especializado e cristão. Essa distinção também pode ser compreendida como uma alteração da perspectiva da Ayahuasca como uma “droga” que passa a ser interpretada como um “enteógeno”, ou seja, aquilo que manifestaria o divino. Estando isso claro na perspectiva que toma a Ayahuasca como um veículo sacramental cristão.
Como podemos perceber, o Santo Daime é o resultado do contato entre diferentes manifestações socioculturais na perspectiva de um indivíduo que carregava em si tais manifestações. Poder-se-ia dizer que o Santo Daime é um dos resultados de um processo de aculturação centralizado em Irineu da Serra, que fundou uma nova perspectiva religiosa da realidade.
Fica claro que os contatos culturais não eliminam, necessariamente, a cultura “primitiva”, pois tal contato possui diversas características complexas que também levam em conta a forma que a cultura “popular” maranhense fará o processo de aculturação. Este processo é o conjunto dos fenômenos que resultam de um contato entre grupos de indivíduos de culturas diferentes, o que provoca mudanças nos modelos culturais iniciais de um ou dos dois grupos. No caso específico do Santo Daime, esse processo de aculturação não ocorre em grupos de indivíduos, e sim centralizados em um indivíduo que, ao longo de sua vida, aglutinou diferentes características culturais de grupos diversos, culminado na criação de uma manifestação cultural singular que não irá interferir nas suas culturas de origem (maranhense e amazonense).
Esse fato é observado no momento em que os fundamentos e estruturas presentes no Santo Daime são explanados nos hinos de Irineu da Serra (referência para o discurso de legitimação da doutrina) que contém elementos estilísticos em comum com cantigas maranhenses e enuncia diferentes entidades. Também podemos observar o resultado deste processo nas características que o Santo Daime tem em comum com atividades religiosas maranhenses (principalmente o tambor de mina, a pajelança e o catolicismo popular) e amazonenses (uso ritual da Ayahuasca).
Estas características culturais de Irineu da Serra possibilitaram a ele uma reinterpretação do significado do consumo da Ayahuasca. Sua bagagem claramente cristã lhe possibilitou analisar a experiência enteógena da Ayahuasca sob o prisma cristão introduzindo o chá num sistema de significados onde tal experiência passa a ser observada como um ato sacramental de contato com a força divina cristã.
Também devemos levar em consideração que no momento em que Irineu da Serra faz esse processo de ressignificação do chá, ele o fazia no intuito de “enobrecer” o Brasil. Sua visão, um tanto quanto política, advinha dos conflitos sociais e econômicos que ocorriam na região, sendo influenciados inclusive pelas idéias divulgadas pelo Estado Novo.
Meu intuito com este ensaio era deixar claras as evidências de um processo aculturativo que desencadeou uma visão estritamente nacional acerca da Ayahuasca. Essa visão nacionalista e cristã possibilitou ao Santo Daime expandir-se pelo Brasil e pelo mundo. É importante comentar que o Santo Daime foi a primeira forma de religião não indígena autorizada formalmente a consumir a Ayahuasca no Brasil, mesmo que exclusivamente na prática religiosa.
Reconhecido o Santo Daime, o ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, da início ao processo de inclusão do uso ritual do Santo Daime como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Podemos verificar que este processo esta levando em consideração a utilização da Ayahuasca sob o prisma da tradição cristã e nacionalista, visto que o nome que utilizam é Santo Daime, e não o seu original Ayahuasca.
Somente a partir do momento que o chá, que vem de uma tradição milenar, passa a ser considerado como um elemento cristão voltado para a nação (visão esta difundida somente a partir do surgimento do Santo Daime) que ele passa a ser visto como manifestação cultural do Brasil, mesmo que seu uso seja anterior a constituição do Brasil como um país.
É interessante observar que os processos de aculturação podem fazer surgir novas interpretações de questões comumente pensadas por diferentes manifestações culturais. Esse contato entre diferentes é visto pela antropologia como fundamental para a constituição da idéia de nação brasileira, sendo esta idéia originária de uma construção cultural e não de acordo com a história política nacional.
Apesar da influência que as idéias do Estado Novo possam ter tido em Irineu da Serra, o processo por ele desencadeado representa puramente uma manifestação cultural que esta aquém das questões políticas propriamente ditas. Representa como o contato com a alteridade é fundamental de ser compreendido para que se possam analisar as construções sociais e culturais que influenciam a cultura nacional. Nação essa que passa a poder observar o fruto do contato com a alteridade como fruto de sua cultura, pensamento este que poderia ser compreendido pela tradição francesa que busca entender a sociedade através dos elementos que a conecte a outras sociedades, e no estudo específico do Santo Daime, poderíamos arriscar a compreender a Ayahuasca como este elemento que conecta as diferentes manifestações culturais.
Temos assim no Santo Daime o resultado de um processo que envolve a experiência de vida de Irineu da Serra, a emigração nordestina à Amazônia para exploração comercial do látex, elementos culturais maranhenses e amazonenses e a constituição de um pensamento nacional. Repercutindo na aproximação entre diferenças culturais de modo a produzir uma significação a um elemento que conecte tais diferenças e a enquadrem na concepção nacional de produto cultural da nação.
Referência Bibliográfica
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GROISMAN, Alberto. Eu venho da floresta. Um estudo sobre o contexto simbólico do uso do Santo Daime. Florianópolis: Editora da UFSC, 1999.
GOULART, Sandra Lúcia. Contrastes e continuidades entre os grupos do Santo Daime e da Barquinha. In: IX Jornada Sobre Alternativas Religiosas Na América Latina, Fórum Sociedades e Religiões, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: UFRJ, 21 a 24 de Setembro de 1999.
OLIVEIRA, Isabela. Santo Daime: Um sacramento Vivo, Uma Religião em Formação. Tese (Doutorado). Universidade de Brasília, Brasília, 2007.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização - A integração das populações indígenas no Brasil moderno.
VELHO, Otávio. A antropologia e o Brasil, hoje. RGBS. Vol. 23, n.66 fev/2008.
Hoje irei indicar um filme para vocês. Se trata de Camisa de Força, originalmente “The jacket” lançado em 2005. O filme trata de um veterano da Guerro do Golfo que sofre de amnésia após ter matado um policial é internado numa clínica psiquiátrica onde fará parte de um tratamento experimental com uma nova droga.
Quando a substância é ministrada ele é preso numa camisa de forçae trancafiado por longas horas numa gaveta de cadáveres. O mais interessante do filme é que quano esta passando por este tratamento, sua mente é capaz de viajar para o futuro onde encontrará uma mulher que será muito importante em sua vida.
É interessante ver que o filme trata de um assunto que muitos de nós já estão habituados, o psiconautismo. Estando de fora do assunto espiritualista e tendo uma abordagem mais metafísica, o filme é obrigatório a todos os interessados no assunto. Faz uma excelente abordagem hipotéica das possibilidade que nossa mente possui levando ao questionamentos clássicos: “O que é a realidade?”. “O onírico é real?”.
A arte visionária, assim como qualquer forma de arte, é uma tentativa de conhecimento da realidade. Como Lévi-Strauss diz, todo pensamento se baseia no desejo de compreender o real, e o pensamento nativo (no caso Shipibo-Conibo) não se diferencia do contemporâneo. Se tratando de arte, ela é uma maneira que o homem encontrou de transformar a Natureza em cultura, explorando a relação entre significado (relacionado a estética pura) e significante (relacionado a estética transcendental).
No caso da arte visionária, sendo ela uma tentativa de presentificação do sagrado, esta relação entre significado e significante é espelhada na relação entre o mundo visível e o invisível, vivos e mortos, inconsciente e consciente; presente também em toda arte “primitiva”. É através desta relação que a arte visionária torna compreensível o desconhecido, é uma narrativa posterior ao ritual.
Como toquei no assunto da arte “primitiva”, e partindo de Sally Price, muitas das obras que observamos de arte visionária (como as de Pablo Amaringo) não poderiam ser vistas como “arte primitiva”, pois se conhece o autor e estas obras podem ser reproduzidas. Na arte “primitiva” a opinião do autor e seu nome não são conhecidos.
Não poderia esquecer de falar que a arte visionária parte da experiência do sublime provocada pela contemplação, no caso, a experiência estética provocada pelos enteógenos não é originada de uma percepção da forma que atribui um juízo à ela, e sim uma experiência de contemplação pura da forma da realidade.
Ao produzir estas obras, o artista oferece um modelo reduzido da realidade, tornando-a compreensível e transmitindo prazer nesta contemplação. Também devemos observar que as obras de arte visionária que possuem uma gama de detalhes enquadram-se como uma percepção imaginativa, que é quando há diferentes elementos observados através da percepção oferecendo um complexo modelo de uma realidade que esta no campo do invisível. O contrário, que se enquadra como imaginação perceptiva, é quando a obra não oferece muitos detalhes, mas pelos poucos que ela tem, nos possibilita imaginar um objeto de maior complexidade.
Estas são umas características gerais da arte visionária, mas toda e qualquer obra esta diretamente dependente das influências culturais que o artista tem. Ela faz uma representação do universo próprio que o artista esta inserindo, presentificando os elementos do seu inconsciente. Quando observamos uma obra que presentifica uma divindade egípcia ou uma anaconda, não devemos vê-los como seres que de fato existem no campo astral, mas sim como arquétipos determinados no tempo e no espaço culturalmente compreendidos.
Como se pode perceber, apesar das raves representarem uma festa onde o consumo de drogas seja de certa maneira liberado, e, consequentemente acarretando diversos problemas sociais, o que podemos ver é que elas também são uma espécie de rito moderno que herda das culturas xamânicas e hindus seus elementos mágicos.
A principal questão tomada por esse rito é a expansão da consciência, a interação com uma realidade não comum e a difusão de sentimentos positivos, como a paz, amor, união e respeito. Este rito possui duas questões que aparentemente não poderiam se misturar, a diversão e a transcendência, formando desta maneira uma espécie de rito único onde nem mesmo os membros destas raves percebam isso, talvez por falta de conhecimento ou por não quererem se preocupar com o tema.
Assim como os elementos constitutivos das raves são híbridos, o mesmo ocorre com a cena eletrônica no Brasil, assim como os freqüentadores. Isso caracteriza a rave como possuidora de diferentes pólos, sempre oscilantes entre a diversão e a transcendência. Ritual e festa, onde ambos se mesclam causando uma confusão em seus reais significados, sendo que na verdade o que se mostra é uma fusão entre os dois. Criando-se uma espécie de espiritualidade sem religião institucionalizada, sendo exercida na prática e acompanhada de uma filosofia espelhada na contracultura hippie.
Atualmente o que se pode dizer é que o movimente que há por traz das raves representa a atual contracultura do mundo, vinculando às festividades eletrônicas um significado cognoscível que representa um etilo de vida, que une humanismo, natureza e esoterismo.
Dentro deste meio híbrido nada mais natural que o neófito também o seja. O indivíduo que vai a ser iniciado neste meio representa a insatisfação com os princípios da sociedade em geral. Ele é o jovem que encontra nas raves o que ele não pode usufruir na sociedade. Para se inserir, ele se espelha nos freqüentadores das festas, tendendo a se comportar como eles, pelo menos isso ocorre na relação neófitos e tutores.
Nesta festividade onde a maior parte dos freqüentadores não esta sintonizada com os reais ideais do Psy-Trance, indo às raves unicamente por diversão e para o uso de drogas desenfreado, esse neófitos se espelham neste comportamento hedônico. Conseqüentemente a freqüência deste tipo de freqüentador aumenta, se tornando a parte majoritária de membros, levando as raves para a mídia de forma negativa e aumentado a briga que existe.
Desta maneira o rito das raves não é completamente exercido próximo ás metrópoles, descaracterizando o lado espiritual das raves. Sendo assim, a iniciação nas raves pode tanto ser uma iniciação mágico-social quanto puramente social. No primeiro caso, a iniciação se daria por questões culturais e com elementos xamânicos. Já no segundo, que é o que ocorre atualmente nas raves, a iniciação é unicamente a transição que o indivíduo fará de um status à outro, no caso, de simples membro da sociedade, para uma “raver”, o que para a sociedade seria um “drogado”, mesmo que realmente não o seja.
Referência Bibliográfica
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Existem diversos tipos de neófitos dentro de uma rave, como já foi esclarecido acima. Esta pesquisa irá se dedicar a um tipo em particular. Este neófito possui tem idade entre 16 e 20 anos, nunca foi a uma rave anteriormente, apesar de já ter ido a alguma festa que tocasse majoritariamente música eletrônica, porém com duração máxima de oito horas (raves possuem mais de doze horas). Ele Também não possui conhecimentos técnicos, não sabendo fazer diferenciação entre as diferentes vertentes da música eletrônica, muito menos entre as sub-vertentes do Psy-Trance. É leigo, tanto nos conhecimentos específicos da música, quanto na cultura e comportamento nas festas, sendo propício a se comportar como a maioria faz. Este neófito normalmente é o único no grupo, sendo levado às festas por pessoas que já são freqüentadores das raves, estes por sua vez servindo de tutores. Apesar de novo, ele possui certa liberdade para sair e não esta preso às morais da sociedade, sendo completamente tolerante ao uso de drogas, e, na teoria, sendo simpatizante com pessoas de qualquer tribo. Antes de ir a sua primeira festa, ele já tem conhecimento dos símbolos das festas, mesmo não sabendo seus significados reais, assim como já conhece os DJs mais populares, principalmente Skazi, Infected Mushrrom e Astrix.
O neófito e sua iniciação.
A iniciação possui três etapas. A primeira é o convite para ir a rave, a segunda etapa se da nos preparativos e na ida, o momento da separação. Quando ele chega ao momento liminar, ou seja, quadno chega à festa, ele entra na terceira etapa da iniciação, que é quadno ele será introduzido no meio se deparando com um tipo de festividade que ele nunca presenciou. Nesta etapa ele irá se introduzir aos poucos nas regras de comportamento daquele meio, que mesmo que defenda a liberdade, possui regras para manter a paz e a liberdade ali dentro. A etapa final é a agregação (a etapa final do ritual da rave), neste estágio ele irá absorver as informações recebidas e irá identificar naquele meio uma espécie de paixão, fazendo com que ele queria retornar e viver aquilo novamente.
Na primeira etapa que é a separação, o neófito terá por meio de seus tutores o incentivo para ir às festas. Isso mostra que os freqüentadores das festas incentivam a todos a irem, como se aquele meio fosse aberto a todos. Variando de acordo com os tutores, o “chamado” será diferente. Se os tutores forem membros voltados para a cultura das festas, o chamado será mais vinculado a identidade cultural e às características mais elementares da festa, chamando a atenção para a paz e a liberdade de ação. Já se os tutores forem membros voltados para a diversão, este “chamado” irá ressaltar as pessoas da festa, como elas se relacionam e o bom sentimento que há nas festas. Esta distinção do chamado ocorre devido à origem deste amor. Para as pessoas voltadas à cultura das raves, esse amor é fruto das drogas, não sendo muito valorizado, o contrário ocorreria se a festa resgatasse a cultura nativa das raves, neste ponto o ambiente e as pessoas seriam valorizados, pois a maior parte dos freqüentadores seria os “roots”, ou seja, as pessoas inseridas na cultura psicodélica. Já os que estão ali puramente por diversão vinculam o amor também as drogas, mas ele não é de nenhuma maneira condenável, pois é graças a ela que o clima se mantém em paz, sem contar o prazer que a droga traz.
No momento liminar do rito, após o chamado, o neófito se depara com um evento de grande estrutura, que ocorre na parte do dia, da noite e da madrugada. Com milhares de pessoas que se abraçam e sorriem, mesmo que esta alegria seja fruto das drogas é inevitável à um neófito que ele se sinta bem e bem recebido ali. É neste momento que ele começa a se inserir no meio, observando o comportamento, as conversas e se identificando com ambos. Nos assuntos tratados nas conversas, majoritariamente são relativos a outras festas, drogas, natureza e qualquer outro assunto que não tenha relação direta com as cidades, prova do momento liminar de distanciamento da sociedade urbana.
Segundo informantes, é comum que alguns tutores dêem a “primeira bala” (primeira pílula de ecstasy) do neófito, esta “primeira bala” ocorre na “primeira rave” e é de extrema importância para o entendimento da primeira rave. Como já foi escrito anteriormente, as raves se propõem a expandir a consciência para se compreender a realidade de outra maneira, além da festa em si representar um meio único, vivenciá-la com o auxílio de psicoativos seria um modo a compreender a essência de uma rave. Muitos dos neófitos que usam a droga começam a falar da festa como se estivessem falando de um grande amor da vida deles, como se estivessem conectados com todos da festa e que o sentimento de amor prevalecesse. O que difere de um simples efeito da droga é que este sentimento fica enraizado no significado da rave, ou seja, ele pode passar a acreditar que aquele sentimento realmente exista, sendo alcançada por meio das drogas que servem para evidenciar isso. Além do efeito da droga ser positivo, ele passa a acreditar também que todos estão ali pelo mesmo propósito, na mesma conexão, na mesma freqüência. Neste ponto ele alcança os objetivos do ritual, como explanado anteriormente, que é alcançar o uno, o amor, a paz, a celebração da vida, a transcendência e a expansão da consciência. Ele alcança tudo isso na pista de dança. Vale salientar que isso não ocorre necessariamente com o uso de drogas, de acordo com relatos, muitos freqüentadores só foram usar as drogas meses depois (ou anos) e outros nunca chegaram a usar, estes dizem haver uma conexão entre todos por meio da música, que a transcendência ocorre com a música e com a dança, como proposto pelo ritual de Goa Gil.
Grande parte dos neófitos alcançam este estado de união por meio das drogas que conseguem por meio de seus tutores, poucos são os que alcançam sem as drogas. Os que não utilizam as drogas e não alcançam este estado gostam da festa, mas normalmente reclamam da duração e do cansaço. Fora esta questão das drogas, existe outro elemento constituinte do rito de iniciação, é a questão da música. Pelos relatos feitos durante as festas, é elementar a observação de que eles passam a gostar muito mais desta musicalidade, passam também a observar melhor as características técnicas (mesmo que não amplamente) e falem da psicodelia da música, eles a encheram mesmo que não haja. É interessante observar que nestas festas os sentimentos desejados e os elementos procurados na música são alcançados. Ao fim da festa, o neófito tem a sensação do fim de uma jornada, de um caminho que na grande parte dos casos ele irá refazer.
O momento final, a agregação, não possui grandes mistérios, ocorre da mesma maneira que ocorreria na volta de uma saída comum, mudando somente o horário, que normalmente é no início da noite. A diferença é o sentimento que a pessoa esta, grande parte dos entrevistados dizem que em seu retorno eles se sentiam maravilhados com a festa, tendo consumido ou não drogas. Esse sentimento positivo ocorre devido ao clima que ele conviveu durante muito tempo, seu retorno implica que aquilo é momentâneo, por isso a ansiedade de resgatar aquilo, de voltar para outra rave.
É desta maneira que o rito se finaliza. A iniciação em uma rave como se pode observar ocorre com questões emotivas e hedônicas. Sua força se encontra no sentimento da positividade, da aceitação, da hospitalidade, da liberdade e da ausência da repressão. As sensações mais procuradas numa sociedade que oprime e recrimina. Desta maneira, o rito das raves se caracteriza como um escape á realidade da sociedade, e a iniciação a este rito é a expressão da insatisfação com o que é presenciado na sociedade, variando unicamente com os objetivos do neófito, se ele esta ali por diversão ou por outras razões além desta.
Com todos esse elementos explanados, podemos classificar o rito de iniciação de diversas maneiras. Ele é um rito de contágio, de dinastia, positivo e direito. É um rito de contágio pois exige que as pessoas se conectem de alguma maneira havendo muitos abraços e muitas demonstração de afeto, esse contato é fundamental para o neófito, e também por meio dele que os tutores farão com que o indivíduo se sinta aceito pelo meio. É de dinastia pois não se pretende evocar nenhum espírito, ele ocorre por sua própria qualidade, de acordo com a sua estrutura, no caso em particular, pela manifestação da vida, no amor e da consciência. É positivo pois não esta vinculado a nenhum tabu, não se pretende com ele desfazer nenhum mal no qual fora acometido, ele ocorre de acordo com a vontade própria do neófito, pois ele pretende se inserir na festa. E é direito pois possui uma eficiência imediata, é ali dentro que tudo o que se busca será encontrado e desfrutado, é o momento liminar da festa que é o mais importante.
Raves são festas que ocorrem em locais distantes de centros urbanos, com longa duração e tocando unicamente música eletrônica. No caso em particular, a vertente eletrônica é psicodélica, o Psy-Trance. Atualmente percebe-se um grande aumento de freqüentadores, havendo festas com cerca de trinta mil pessoas. Conseqüentemente, muitos destes freqüentadores se apropriam deste tipo de festa para poderem desfrutar da liberdade de consumo de drogas, ignorando a cultura por traz destas festas.
Com toda uma diversidade de público tais festas se tornam um fato social total, pois nelas se encontram muitas influências e fatores determinantes que abranjem todos os campos de atuação do indivíduo. Suas principais influências são religiosas, econômicas e políticas.
No campo religioso se percebe a influência de culturas esotéricas onde se determina o ambiente destas festas como uma espécie de ritual xamânico moderno. Aderindo-se diversos elementos desta espécie de rito, como a música transcendental, a dança como meditação ativa e o uso de enteógenos para se alcançar diferentes estados de consciência. O uso de enteógenos em particular é de certa maneira híbrido, mesmo havendo tolerância e aceitação para o uso destas substâncias, seu consumo exagerado deturpa todo o contexto destas festas, havendo desta maneira distinções entre estes consumidores e consequentemente atrito entre estes usuários. A religião se torna algo não institucionalizado, tendendo ao humanismo religioso onde todos são livres para pensar e fazer o que bem entenderem desde que não prejudique ao próximo.
Nos fatores econômicos o que se deduz é que para viver até certo ponto tal cultura há de se pagar para isso, tanto na entrada para as festas quanto para o consumo, seja qual for. Hoje em dia, os freqüentadores destas festas são majoritariamente membros da classe média, pois se necessita o expendido de valores altos para poder ir a uma festa. Para ilustrar isso, eis uma média de preços: Entrada com média de R$50,00, excursão R$25,00, cerveja R$4,00, água R$3,00, hambúrguer R$8,00, etc. Sem contar o consumo ilícito, onde se comprar uma pílula de ecstasy por R$25,00 e um papel com LSD por R$30,00. Se for fazer a conta, um indivíduo, para ficar a vontade numa desta dessa gastaria por volta de R$288,00, sem contar o uso de drogas, caso opine. Levando a freqüências que estas festas ocorrem, não seria possível para uma pessoa que receba até R$1500,00 freqüentar a todas as festas e ter um bom consumo de bebidas e comida. A pesar do custo, o valor que a maior parte das pessoas gastam é inferior, pois preferem gastar R$25,00 num ecstasy que o manterá com energia por pelo menos quatro horas e consumindo cerca de quatro garrafas de água do que nestas quatro horas consumir diversas latas de energéticos. Isto da uma esclarecida sobre o quanto de dinheiro circula nestas festas, sendo uma grande fonte de renda, tanto para os produtores da festa quanto para os traficantes que a circundam.
Tomando o tema das raves para o lado político, o que se vê é uma grande briga entre os freqüentadores destas festas e a sociedade. Esta briga não é largamente explanada, o que é mostrado pela mídia é um ataque às festas propriamente ditas, fato previsível, pois os próprios freqüentadores compõem a elite da sociedade. Este embate ocorre devido ao uso exagerado das drogas que foi completamente explanado após a popularização destas festas. Neste ponto, os ideais da cultura psicodélica são completamente esquecidos, sendo jogados para o campo utópico. Todo esse ressentimento devido aos atritos com a sociedade é mostrado no “Manifesto Raver”, um manifesto de autoria anônima que está presente em todo o planeta, explanando os ideais e as considerações para com a sociedade. Toda esta briga ocorre de forma extremamente semelhante ao que ocorria com o movimento hippie, sendo o mesmo pai do Psy herdando às raves sua característica política sócio-ambiental, além dos fatores culturais como o malabarismo, a pirofagia e a arte plástica, todas sendo representações marginalizadas.
As características citadas acima mostram porque as raves são um fato social total. Outra característica de fundamental importância para se entender estas festas são o elementos ritualísticos destas festas. As raves em sua essência compõem um ritual moderno com raízes xamânicas e hinduístas. Seu propósito original é a celebração da vida, a difusão do amor e a expansão da consciência para se melhor compreender a realidade e se alcançar um estado uno entre as pessoas, além dos ritos de passagem que ocorrem dentro destes ritos maiores e coletivos.
A celebração da vida se da pela preocupação com a natureza e também com a saúde. Apesar dos consumos excessivos de drogas, existe uma recriminação a esta atitude devido à questão da necessidade, pois o uso exagerado de certas substâncias pode ser prejudicial à saúde, por isso o indicado é usar menos, principalmente o êxtase, sua indicação de quantia suficiente é de uma pílula a cada seis horas no máximo.
Com exceção do uso de drogas, cigarros e bebidas existem muitos debates sobre saúde e meio ambiente. Encontrando-se muitos vegetarianos neste meio, assim como pessoas vinculadas a natureza, desde esportistas conscientes às ativistas ambientais.
Já questões de difusão de amor, estado uno entre as pessoas, expansão da consciência são características com dois pólos, o primeiro se da ao que é feito durante as festas e fora das festas que possa contribuir para estes pontos, exige-se atitudes politicamente corretas para realmente ser um “trancer”; outro pólo é o uso de drogas para se sentir o amor, a unidade e a expansão da mente.
Drogas como o ecstasy provocam uma sensação de amor mútuo com todos, já o LSD estimula os sentidos humanos mostrando ao usuário outra interpretação das imagens, sons e toques, assim como dos atos. Como se percebe, os rituais xamânicos foram alterados, principalmente quanto às drogas. Não se tendo acesso às substâncias utilizadas pelos índios, o que se faz é uma substituição destas substâncias por drogas sintéticas. O LSD é sintetizado de um fundo de centeio, o claviceps purpúrea, que é utilizado em ritos xamânicos da Índia. O ecstasy apesar de não ser um sintetizado de alguma substância enteógena utilizada em ritos xamânicos possui as mesmas características que o khat possui, sendo este uma árvore africana que possui efeitos enteógenos utilizada a milhares de anos em cerimônias religiosas dos egípcios. O que nos mostra que o uso do ecstasy não está unicamente atrelado à diversão, mas também que devido aos seus efeitos serem também buscados dentro de uma espécie de rito (que muito provavelmente não ocorre só no Egito) ele se enquadra dentro de um rito devido aos seus efeitos.
Essa questão de drogas ritualísticas deve ser bastante analisada, o que se percebe dentro de uma rave é que as drogas majoritariamente utilizadas possuem, em algum contexto, um uso ritual. LSD na índia, efeitos do ecstasy semelhantes ao khat africano, o hashish nos ritos oferecidos à Shiva, a maconha usada por índios após a descoberta e associada à Jurema em algumas tribos, etc. O que nos leva a perceber que há elementos no consumo de drogas em religiões ancestrais modificados para se terem a mesma utilidade prática em tempos modernos.
Dentro deste ritual moderno, encontra-se um símbolo que une a todos, assim com em todos os outros rituais. No caso em particular, o símbolo é o “flyer”, que é uma espécie de panfleto para divulgação da festa. Este símbolo é de extrema importância em seu nível exegético, pois ele mostra o que a festa será, e o que se espera dela. Já em seu nível operacional ele serve para atrair o público, mostrar o conceito da festa, é também por meio dele que muitas pessoas avaliam as boas festas, de acordo com o horário e com o “line up”, assim como ser uma das principais formas de divulgação on-line ou off-line. Em seu nível posicional ele não possui uma grande importância, ele estará com o freqüentador antes da festa, servindo como fonte de informação, durante a festa ele provavelmente não estará mais com o indivíduo, caso seja, será somente para poder se acompanhar o “line up”; e após a festa estará estocado dentro de uma gaveta ou na lixeira, irá perder toda a sua importância, servindo unicamente como lembrança.
Todo esse ritual começa a se formar algumas horas antes do evento. O momento de separação em que os membros farão com a sociedade começa na ida a festa. Esta separação ocorrer de forma física, se afastando da metrópole e se inserindo em cidades do interior, onde a natureza é mais abundante e também onde há menor fiscalização da polícia (apesar de que hoje em dias estas festas estejam sendo perseguidas) e de outras autoridades. Neste período, quando ocorrem por meio de excursões às pessoas se conhecem e já se preparam para a festa. Existe certa resistência neste ponto, pois mesmo que estejam se deslocando da sociedade há o risco de serem parados pela polícia e terem suas drogas apreendidas, acabando com a festa de muitos. Mas todo esse momento de separação acaba quadno se chega à festa, pois neste momento o que ficou pra trás só será lembrado na volta.
O momento da chegada marca a liminariedade do ritual. Neste momento as regras da sociedade são esquecidas quase que totalmente, pois neste espaço as pessoas podem