Cena cultural - Como se consolida uma? Vim postar esse texto que ja tenho guardado a alguns anos, pra servir de análise de algumas importante engrenagens que travam nesse Estado. ---- Nesta coluna, gostaria de falar sobre os elementos que contribuem para a consolidação de uma cena cultural (particularizando para uma cena que me interessa mais, a de música eletrônica). Estes elementos são: 1. Imprensa: é necessário que existam jornalistas com conhecimento e interesse pelo que acontece na cena da cidade e no resto do Brasil e do Mundo, ajudando assim a difundir o conhecimento e a promover as iniciativas dos produtores de eventos, DJs e produtores locais. 2. Produtores de eventos ( "Promoters"): devem existir em quantidade e com competência suficientes para produzirem um bom número de eventos de qualidade, sistematicamente. Como ninguém gosta de perder dinheiro, os eventos precisam se viabilizar economicamente, existindo portanto forte dependência dos outros elementos, em especial o público que paga ingresso.
Além disto, nas cenas mais incipientes, é importante que os Promoters atuem de forma integrada, fazendo parcerias e trocando informações entre si, para que assim possam conquistar um público capaz de viabilizar a existência da cena. 3. DJs e Produtores: para que uma cena cultural seja forte, é necessária a participação de artistas locais. Passagens aéreas num país de dimensões continentais como o Brasil custam caro, portanto é importante que existam DJs locais em quantidade e com nível de qualidade suficientes para manter uma cena local. É claro que o intercâmbio é desejável e até mesmo necessário, mas para que este aconteça de forma eficiente é recomendável que os dois lados estejam interessados na troca. E para que os DJs possam tocar tem que ter alguém criando as músicas, certo? A alternativa mais usada em cenas ainda não amadurecidas é recorrer a produtores de regiões mais consolidadas. Mas à medida em que a cena vai se consolidando, os produtores locais tendem a conseguir cada vez mais espaço. Exemplo claro disto é o sucesso cada vez maior que produtores brasileiros (seguindo os passos de vários DJs) vem conseguindo na cena européia. Um ponto importante sobre os DJs é que estes podem ser amadores ou profissionais, tocar com diferentes tipos de mídia, se limitar a um estilo específico ou serem mais generalistas (dentro do espectro da música eletrônica) etc. No caso do DJ profissional, para que este se sustente é preciso que a cena esteja bastante consolidada, considerando-se os altos custos para que um DJ se mantenha sempre atualizado em termos de repertório e equipamentos. É portanto de grande importância que os DJs trabalhem em sintonia com os Promoters, sendo remunerados de acordo. Nem sempre isto acontece, e aí em muitas ocasiões o DJ se vê transformado também em Promoter, produzindo seus próprios eventos para que possa se manter em evidência e obter uma remuneração mínima pelo seu trabalho. 4. Empresas patrocinadoras: em todo o Mundo, incluindo o Brasil cada vez mais, as empresas estão enxergando o potencial de marketing da música eletrônica. Ao apoiar um evento de música eletrônica cujo público possua identidade com seu público-alvo, uma empresa consegue produzir uma ação de marketing direto com forte poder de retenção e livre de intermediários (desculpem a linguagem técnica, acho que fiz propostas demais !). E ao apoiar tais eventos, desde que estes estejam dentro dos princípios de qualidade propostos acima, a empresa reforça sua imagem institucional e seu posicionamento junto ao público. 5. Essa eu comento antes de encerrar. 6. Clubes: boa parte da cena de música eletrônica desenrola-se dentro dos clubes. Isto é verdade tanto em Londres, como em New York, São Paulo, Belo Horizonte e mesmo no Rio de Janeiro. Não dá para depender apenas de mega eventos em lugares abertos e afastados (as tais “raves” para a imprensa mainstream), com alto custo de produção, e não há nada melhor do que ir a um clube conhecido encontrar os amigos e dançar com tranqüilidade e prazer, ouvir o som do DJ que você gosta, fazer o que quiser sem atrapalhar os outros e não ser incomodado por seguranças truculentos. 7. "Points": em São Paulo temos a Galeria Ouro Fino. Em Belo Horizonte temos a Savassi e lugares como o Bar Café com Letras. No Rio de Janeiro o principal “point” é a praia, onde as pessoas se encontram pra revisar os acontecimentos da noite passada e comentar sobre as noite futuras (além da Lapa, Farm, Baixo Gavea etc). São lugares aos quais os adeptos da cena se dirigem quando querem saber o que anda acontecendo na cidade (em geral é lá que você vai encontrar os famosos "flyers"), e onde as pessoas se reúnem para troca de idéias ao vivo. Isto sem falar dos “points virtuais” (ver próximo item). 8. Comunidade virtual: a Internet, com sua facilidade em segmentar e difundir informação, permite aos adeptos da cena que se comuniquem com facilidade, assim como trocar idéias com pessoas de outras cidades do Brasil e do Mundo. Listas de discussões, blogs e fóruns especializados, ajudam a circular a informação de forma independente e democrática, dentro dos princípios da cultura underground. Vale lembrar que existe muitos fóruns, sites e blogs, com matérias PAGA, ou seja, o sujeito ganha pra falar bem de uma certa noitada. É de se imaginar, que o quesito “grana”, influencie fatores como achar ótimo, coisas ruins. O leitor tem que saber filtrar a informação. 9. Pessoas: mais conhecido como "público" (nós !). Sem este elemento nenhuma cena acontece, e todos os esforços devem ser feitos em busca da sua conquista. É preciso mostrar para as pessoas a riqueza e diversidade da cultura da música eletrônica, e todos os conceitos a ela subjacentes, começando pelo PLUR (Peace, Love, Unit and Respect), o mais importante deles. O numero 5 diz o seguinte: Ausência de drogas: as drogas ilícitas possuem o poder de estragar muita coisa, inclusive uma incipiente cena cultural. Nas cenas mais consolidadas (como por exemplo a inglesa), estas hoje deixaram de ser um elemento essencial, estando cada vez menos presentes, seja devido à repressão do poder público, seja pela própria evolução do público. O fato é que elas são proibidas e sua presença numa cena pode afastar grande parcela do público e praticamente todos os patrocinadores (por razões óbvias), dificultando o crescimento e principalmente a consolidação da cena. Eu diria que essa questão das drogas não é algo que deva ser combatido pelos produtores de eventos. Isso é uma questão que foge da sua responsabilidade. Existem leis que devem ser cumprida pra que o evento não se exponha a ações de traficantes e seguir essas leis é a cota, as vezes até excessiva, da responsabilidade que deve ser adotada. O governo faz um trabalho incompetente com relação a combater as drogas e não pode jogar o resultado dessa incompetência toda nas mãos de um produtor de eventos. Aquela mãozinha no flyer de eventos dizendo “diga não as drogas” me faz desistir de ir a determinados eventos, pois ele esta optando em censurar informação, quando é do conhecimento de boa parte dos freqüentadores ou não desses eventos que existem métodos muito mais eficiente pra se lidar com o assunto. Esse texto é um pouco antigo (10.07.03) e foi escrito inicialmente por Ivo Michalick. Fiz algumas leve modificações, pra se encaixar melhor a nossa realidade carioca. Ou talvez a nossa tão distante realidade...
Última edição por Roosevelt Soares; 09-03-2010 às 15:23.
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