[Entrevista] Flict - Ambient Music Nacional Desde o inicio dos anos 70, cada vez mais as pessoas começavam a mudar a forma como ouviam música. Com escolhas bem particulares e sofisticadas a respeito do que tocavam em suas casas e locais de trabalho, elas também começavam a desenvolver um gosto por criar atmosferas sônicas ao redor de si mesmas. Buscando uma sonoridade mais saudável, harmoniosa e equilibrada, que de forma quase que mágica, transportasse o ouvinte pra um ambiente novo, de uma maior sensibilização e interiorização, longe das estressantes arritmias sonoro-urbanas. “Música para mergulhar nela, para flutuar nela, para se perder dentro dela.” Dan Eisenberg é o produtor musical por traz do nome Flict, Live e Dj Set voltado pra Ambient Music e que acaba de lançar o EP – Explorers. Uma jornada profunda a mundos fantásticos. Um artista nacional, totalmente independente, moderno e que o Plurall tem o prazer de conhecer mais um pouco através desse bate-papo em forma de entrevista em que ele nos conta experiências interessantíssimas, como a de tocar na Sibéria em um festival que rolava durante um Eclipse total do sol.
Por Roosevelt Soares Como começou seu envolvimento com o Ambient Music? Flict: Eu sempre fui fanático por música e sempre gostei de pesquisar estilos estranhos. No final da década de 90 descobri o Post-rock e megulhei fundo em bandas como "Godspeed you black emperor", "Sigur Rós" e "Mogwai". Foi a primeira vez que comecei a tomar gosto por texturas atmosféricas e hipnóticas. Porem, posso dizer que o álbum que me fez abraçar a música eletrônica foi o "Kid A" do Radiohead. A partir daí comecei a tender cada vez mais para sons onde o sintetizador era o elemento principal.
A sequência para a música eletrônica psicodélica foi natural e quando vi já estava indo a diversas festas psy e ouvindo muito psy-ambient (Aes Dana, Carbon Based Lifeforms, Infinity Project...). Mas só foi em 2004, quando estudava bateria e percussão em Londres, que comecei a me expressar como DJ. Sigur Rós Porque o nome Flict? Flict:Na verdade foi resultado de um brainstorm! :-)
Foi meu amigo Felipe que falou e confesso que nem sei se ele estava pensando no "Flicts" do Ziraldo. De qualquer forma, gostei da sonoridade na hora, sem contar que sou um grande fan do livro! Conte um pouco sobre a produção do EP – Explorer. Quais equipamentos foram utilizados, como é o processo de criação das músicas? Flict: A produção foi lenta! Essa é a vantagem de não se ter deadline! rs
Mas sério, eu levo bastante tempo em cada track. Sou bastante detalhista e acabo viajando nas minhas próprias músicas durante a composição. Aí já viu, fico horas brincando com um único som, testando possibilidades, variações... Mas eu me divirto, isso que importa!
Sobre os equipamentos usados, eu tento manter o meu estúdio o mais limpo possível, sem usar um milhão de plugins e VSTi. Sou da teoria que muita opção atrapalha a criatividade.
Utilizo os synths Access Virus TI e Spectrasonics Omnisphere.
Para efeitos eu uso uma placa UAD-2 e Dynaudio para monitoração.
Placa de som E-MU 1820m e controlador Novation Remote 25sl.
HDs... Muitos HDs...
Ah, e sou da tribo do PC! (com Cubase 5). O EP é totalmente independente e com as músicas livres pra download em seu próprio site. O que te levou a lançar seu EP dessa forma? Porque não se unir a uma gravadora de grande influencia e se associar a sites de vendas de música como o Beatport? Flict: Essa é uma excelente pergunta.
Todos sabem que o mercado fonográfico anda bastante mal das pernas. A cada dia que passa menos pessoas compram CDs, de artistas do underground então nem se fala. Grandes e influentes gravadoras da cena psy estão passando por situações financeiras perigosas e nem o ultimo CD do Shpongle vendeu o suficiente para pagar as contas da Twisted rec.
Por outro lado, estatísticas mostram que nunca se ouviu tanta música quanto hoje em dia. Estamos na era do iPod e do Download!
Para te dar uma ideia, o ektoplazm.com (uma label virtual/site independente especializado em muúsica psicodélica de qualidade, e grátis) tem 65.000 acessos por mês e 3.500 downloads por dia (até hoje foram 1,25 milhões de downloads)!
Com as novidades oferecidas pela Internet atualmente (em sites como bandcamp.com), qualquer um pode facilmente vender suas músicas sem ter que compartilhar nenhuma parte da receita com ninguém (diferente do que acontece no beatport.com, por exemplo). É isso que acontece quando o custo de distribuição cai para praticamente zero, como a Internet fez com a música.
A tendência é essa, cada artista oferecendo suas músicas em seu próprio website, tendo contato direto com seus fans, que dificilmente serão milhões e milhões de pessoas como nas ultimas décadas, e sim alguns verdadeiramente interessados e felizes com sua música. As labels, no final das contas, vão se tornar descobridoras e agenciadoras de artistas, já que a dificuldade de separar o "joio do trigo" será cada vez maior.
Resolvi lançar este primeiro EP ("Explorers") em download grátis por achar que é um excelente método de divulgação. E já ta cada vez mais provado que "grátis" não significa "sem qualidade".
Meu próximo lançamento será no formato "pague quanto quiser" (R$0,00 é uma opção também). Vamos ver no que vai dar... É uma nova era! :-) Algum artista que você admira te influencia nesse processo de criação? Quem são eles? Flict: Me inspiro muito na galera da Ultimae (Solar Fields, Aes Dana, Cell, Asura...). Eles são os mestres na arte do Ambient! Também gosto muito de praticamente tudo lançado pelo Anthony Paul Kerby (aka "Circular Ruins") por suas duas gravadoras: Databloem e Dataobscura. Ambient no sentido mais literal! Na parte melódica acho que tenho bastante influencias de Kettel e Mike Oldfield, por mais estranho que estes dois nomes juntos na mesa frase podem parecer.
Ah sim! Pink Floyd! Muito Pink Floyd! RS Muitos desses artistas que você citou desenvolvem também trabalhos paralelos pra empresas de cinemas, criando variados efeitos sonoros pra trilhas de filmes, comerciais, documentários ou jogos de vídeo games como o caso do Solar Fields. Você teve alguma experiência desse tipo? Flict: Sim! Já fiz trilha para comercial de TV e até para vídeo-game de celular, essa juntamente com meu amigo Werther (audiobit.com.br). Criar musica para vídeo-game é um trabalho muito divertido, pena que este mercado seja ainda tão incipiente no Brasil. Ultimamente me distanciei bastante da "arte por encomenda" para poder me dedicar ao meu projeto de ambient. Quem sabe um dia eu volto? O Ambient Music é uma sonoridade pouco desenvolvida no Brasil. Há pouco tempo surgiu o primeiro projeto totalmente voltado ao “psy-chill”, criado pelo dj e empresário Rica Amaral, a Supernatural, que por enquanto só acontece em São Paulo. Acredita que é um sinal de que o público brasileiro esta aprendendo a apreciar essa proposta de festa e de sonoridades? Ou o que ainda tem que mudar na cabeça das pessoas? Flict: A Supernattural é uma festa que parece ser linda! Primeira festa Brasileira dedicada somente ao chill-out!
Mas vou lhe dizer, não é somente psy-chill, não. Como próprio flyer diz: Psychedelic & Ethnic Ambient, Dub, Downtempo, Grooves, GypsyBeats, Live bands... O que eu acho ótimo! Afinal, é uma festa que tem como proposta misturar vários estilos de chill em um mesmo espaço. O que eu acho estranho é você ir, não nessa festa, e sim em um festival de musica psicodélica, chegar no chill-out e ouvir samba, maracatu, mpb, ou até funk e hip-hop (sim, eu já presenciei isso). Nada contra esses estilos (menos com o funk rs) mas, na minha opinião, quando vou para uma festa psicodélica eu espero ouvir música psicodélica.
E as pessoas não tem culpa! A questão é que a maioria não costuma pesquisar musicas e estilos. O mais comum é escutar algo em algum local (festa, por exemplo), conhecer e passar a gostar. Como é raro de se escutar o psy-chill por aqui, elas não tem nem a chance de conhecer.
Mas isso não foi sempre assim, não... Pra você qual a importância dos chill-outs nas festas e festivais? Esses espaços aqui no Brasil são diferentes dos festivais e festas fora do país? Flict: Posso falar da cena psy, que é por onde eu transito na maior parte das vezes. Nessa o chill-out sempre foi parte integrante. Essa coisa do chill-out ser um local secundário e muitas vezes esquecido nas festas acontece somente no Brasil. Na maior parte do mundo (principalmente na Europa) ele tem a mesma importância do que a pista! Muitas pessoas escolhem o festival que vão baseado no line do chill! É muito comum uma boa parte do orçamento dos eventos ser dedicado para trazer também artistas de chill e ambient de outros países.
Outra coisa bastante diferente é o estilo músical predominante. Por aqui a maior parte das vezes encontramos um chill com músicas de mais fácil absorção, até mais pop eu diria.
Muitas vezes você passa dias em um festival sem ouvir nada de psy-chill, ambient, down-tempo e etc. O que na minha opinião é muito triste, já que eles foram feitos para serem tocados exatamente nos festivais psicodélicos, junto da natureza. Isso sem contar quando o chill acaba virando "pista alternativa", com Electro, Techno e outros estilos que, por melhor que sejam, não servem ao verdadeiro objetivo do chill na minha opinião: Descansar o corpo e estimular a mente. Mas gosto é gosto, né, fazer o que. Você que já tocou em praticamente todos os festivais psicodélicos aqui do Brasil, qual foi a apresentação mais marcante e porque? Flict: Pergunta difícil. Uma das que me marcou bastante foi a do Universo Paralello #8. Meia hora antes de começar a tocar caiu um temporal que limpou o chill lotado e não deixou uma alma viva. Comecei a tocar e deviam ter uns 3 gatos pingados. Estava planejando fazer um set bem ambient atmosférico, com poucos elementos rítmicos. Mas como não tinha nem aonde sentar (tudo molhado), o meu publico de 3 pessoas ia com certeza ir embora. Mudei na ultima hora e entrei com um set extremamente doido, lisérgico e dançante. Aos poucos outras pessoas foram chegando e entrando na dança. Quando eu vi o chill-out já estava cheio de novo e todos dançando lentamente e harmoniosamente. Foi lindo! :-) Aproveitando a pergunta anterior, conta um pouco como foi a experiência de tocar na Sibéria. Foi esse o festival do Eclipse né? Flict:Cara, tocar na Sibéria (Khan Altay Festival) foi muito louco! rs Pra começar, a jornada até lá saindo de Londres demorou uns dois dias. Utilizamos avião, ônibus, jipe e ao fim, o que seria uma cavalgada (isso, com cavalos) se tornou uma caminhada de 6 horas por vales e montanhas. Mas valeu MUITO a pena. O lugar é o mais bonito que já tive a oportunidade de conhecer, os Russos são extremamente loucos e gente finas, o som tanto do chill quanto da pista estava excelente... Ah, e teve o Eclipse solar total! rs Acompanhar o mundo escurecendo no meio daquela natureza quase intocada foi uma das coisas mais profundas e impressionastes da minha vida.
O chill de lá era bem interessante também. Os sons que rolavam eram bem experimentais e alternativos, até para o padrão Europeu. A galera recebeu muito bem o meu som e durante o meu set rolou uma apresentação de malabares de fogo ao redor da fogueira sen-sa-cio-nal. Foi um clima medieval muito louco que rolou ali!
Outra coisa legal foi receber o meu set gravado por um dos frequentadores, do meio da galera! Ele me encontrou no Myspace depois do festival e me enviou. Vídeo do festival: Tem alguma festival na “mira”, que você deseja apresentar a sua arte? Flict:Boom Festival! :-)
Ano passado acabou não rolando e fui sem tocar mesmo... rs
Quem sabe ano que vem? :-) Planos pro futuro. Esta vindo por ai um live? Um álbum completo? Flict: O live já existe! A estreia no Brasil foi no "Festival Fora do Tempo" deste ano.
No momento estou trabalhando em um remix downtempo para uma track do Felguk! Esta ficando bem legal e diferente das minhas outras musicas... Digamos que um pouco mais DUB. ;-)
Abraços psicodélicos para todos! Espero que gostem do EP! www.flictmusic.com
Última edição por Roosevelt Soares; 18-11-2009 às 09:18.
|